CADA POEMA É UM FRAGMENTO DO POEMA GERAL QUE QUINTANA VEIO COMPONDO
DURANTE TODA A SUA VIDA

segunda-feira

SÔBOLOS RIOS QUE VÃO

O título dado por Quintana a este poema foi tirado do poema de Camões: BABEL E SIÃO. A palavra "sôbolos" utilizada  no poema tem como significado: "sobre o". Eis a estrofe do poema de Camões  em que ela aparece:

Sôbolos rios que vão
por Babilónia, me achei,
Onde sentado chorei
as lembranças de Sião
e quanto nela passei.
Ali, o rio corrente
de meus olhos foi manado,
e, tudo bem comparado,
Babilónia ao mal presente,
Sião ao tempo passado.
[...]
e por aí se desenvolve um longo poema   reflexivo e filosófico, que reflete a precariedade do destino; a transitoriedade da vida; a fugacidade do tempo e da beleza;a desarmonia da vida e distância entre o que se vive e o que se sonha.

Bernardo

Quintana, 1976 -Arquivo Zero Hora


SÔBOLOS RIOS QUE VÃO

Olha, eu talvez seja esse
cadaver desconhecido
que avistam sob uma ponte
com relativo interesse:

Nem sei mais se me matei
se morri por distraido
se me atiraram do cais

--- o mistério é mais profundo,
muito mais...

Vida, sonho de um segundo
---isso é vulgar mas atroz ---
e tenho pena de mim
como a que eu tenho de voz...

e sigo
todo florido
destes nossos velhos sonhos
imortais

---o misterioso tão sem fim ---

eu sigo todo florido
cadáver desconhecido
vogando, lento, à deriva
nos rios todos do mundo!
Mario Quintana in: Esconderijos do Tempo.

2 comentários:

M. Sueli Gallacci disse...

Olá Bernardo,
Felicidade a minha ter encontrado teu blog no blog da Tais Luso... Um primor este cantinho!!!
Adoro Mario Quintana.
Certamente voltarei sempre!
Gde Abço.

Telma Monteiro disse...

Olá!
Amo Quintana cada vez mais através deste blog tão bem alimentado. Esse poema, por exemplo, foi uma grata surpresa pra mim, não o conhecia.
Abrç!