CADA POEMA É UM FRAGMENTO DO POEMA GERAL QUE QUINTANA VEIO COMPONDO
DURANTE TODA A SUA VIDA

segunda-feira

CONTO AZUL

Que dizer de O CONTO AZUL? Ao mesmo tempo irônico... engraçado...comovente...profundo. Este é Mário Quintana que é tudo isso e além de tudo isso... poeta.


A morte é tão antiquada
que sempre entra pela porta da rua
e sobe só pelas escadas.
Mandei pensando nisso fazer uma escada de caracol
para que ela chegasse tonta ao meu quarto
- coisa de rir!
Ela se deixaria então cair na primeira cadeira,
arfando...
Mas quem foi que disse que ela tem cara de caveira?
É uma simpática vovozinha.
Sorrio-lhe do meu leito,
embora me sinta um pouco triste...
porque é bom estar para morrer
da mesma forma que é bom estar numa sala de espera
folheando revistas velhas...
É isto! Folheio essas estampas
de minha memória,
meio desbotadas...
Súbito, um lábio vermelho desenha-se entre elas
como se acabasse de ser traçado a batom!
O resto, é tudo no mesmo tom.
Espio, para variar, o azul do céu lá fora,
para onde estão olhando outros que em breve
terão alta.
As visitas do médico têm sido cada vez mais espaçadas
e mais rápidas.
E sinto que em breve ele se cruzará no caminho com o padre:
“É a sua vez, agora!”
Qual! Isso seria melodramático
que nem novela de tevê...
Na sua cadeira a morte espera, paciente
(ela não é nenhuma assassina).
Ela deveria fazer tricô...
mas para que? Mas para quem?
Agora, uma asa paira no azul.
Paira no azul...
Não atribuas a isso qualquer intenção simbólica:
tudo é tão simples...
Aliás, eu me achava tão longe...
O que sempre salvou a morte (e a vida) da gente
é pensar em outras bobagens...

Mario Quintana, in
A Vaca e o Hipografo
1977

2 comentários:

Fernando Luna Jr disse...

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Grato pela atenção, aguardo contato.

Fernando | fernando@vermelhodeluta.com | Manaus/AM.

Márcia Carolina disse...

Maravilhoso!
Parece algo meio "neo-romantico"... (me perdoem a ignorancia)... Como as coisas do Alvares de Azevedo: "Quando em meu peito rebentar-se a fibra / Que o espírito enlaça à dor vivente, / Não derramem por mim nem uma lágrima / Em pálpebra demente. / E nem desfolhem na matéria impura / A flor do vale que adormece ao vento: / Não quero que uma nota de alegria / Se cale por meu triste passamento." (lembrança de morrer)

Claro que Quintana é mais suave, ele traz seu poema como quem ouvi uma bossa nova ou um samba, é agradável a todos os sentidos, é um verdadeiro spa.