CADA POEMA É UM FRAGMENTO DO POEMA GERAL QUE QUINTANA VEIO COMPONDO
DURANTE TODA A SUA VIDA

segunda-feira

MONOTONIA


Há tanta monotonia no mundo que até a felicidade cansa, afirma Quintana. Será talvez que a busca incansável de algo novo leve à frustração justamente pela descoberta da não existência do tal novo? Afinal o novo é novo por tão pouco tempo que uma vez alcançado perde sua graça e motivação. Quintana chega à conclusão que a morte tem aí uma das suas funções : "ainda bem que tudo acaba se não[...] eu me matava!"

MONOTONIA
É segundo por segundo
Que vai o tempo medindo
Todas as coisas do mundo
Num só tic-tac, em suma,
Há tanta monotonia
Que até a felicidade,
Como goteira num balde,
Cansa, aborrece, enfastia...
E a própria dor - quem diria? -
A própria dor acostuma.
E vão se revezando, assim,
Dia e noite, sol e bruma...
E isto afinal não cansa?
Já não há gosto e desgosto
Quando é prevista a mudança.
Ai que vida!
Ainda bem que tudo acaba...
Ai que vida tão cumprida...
Se não houvesse a morte, Maria,
Eu me matava!

Mario Quintana in: Preparativos de Viagem

3 comentários:

Tais Luso de Carvalho disse...

'Há tanta monotonia no mundo que até a felicidade cansa, afirma Quintana'.
É Quintana, mesmo!
Nunca estamos completamente felizes, sempre queremos mudanças, e sempre pensando que tais mudanças trarão mais felicidade. E tem uma hora que tudo acaba. Para a tal renovação...

A felicidade cansa, a dor acostuma... Em suma, a vida é cansativa!

Mas pensando bem... Eu quero ficar, mesmo cansando e muitas vezes sendo visitada por uma imensa infelicidade (risos).Mas eu gostaria de nunca pensar em finitude.

Bjs
Tais

Telma Monteiro disse...

Monotonia... Como diferenciá-la da paz, uma certa tranquilidade ao existir? Monotonia dói, Quintana? Não no corpo, mas na alma talvez...

Abrç!

Otário disse...

Autêntica poesia!
Prefiro estar entre
os meus cansaços
vários, porém.