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quinta-feira

O POETA E O ESPELHO

O texto abaixo é parte do prefácio escrito por Tânia Franco Carvalhal para o livro “Mario Quintana - Poesia Completa, 2005, Ed Nova Fronteira.
Professora Titular de Teoria Literária e Literatura Comparada e Professora Emérita da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Mestre em Literaturas da Língua Portuguesa pela UFRGS e Doutora (PhD) em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (1981) foi coordenadora e organizadora de inúmeras obras de Mário Quintana.
BERNARDO

QUINTANA COM TÂNIA CARVALHAL


O POETA NO ESPELHO
Esse estranho que mora no espelho
(e é tão mais velho do que eu) olha-me
De um jeito de quem procura advinhar quem sou.
(O antinarciso, Caderno H)

Entre os vários retratos que Mario pintou de si mesmo estão certamente os que povoam os sonetos inaugurais do livro A RUA DOS CATAVENTOS. Ora é um “pobre menino[...] que envelheceu , um dia, de repente!”(soneto VIII), ora o seu próprio Frankenstein “o belo monstro ingênuo e sem memória”(soneto XXVI) – ou “o Idiota desta Aldeia (soneto XXX), sempre um caminhante “rechinam meus sapatos rua em fora”, como dirá no mesmo soneto XXX cuja figura se esvai na ambição de alcançar “a displicência de um fantasma inglês”... (soneto XXXIII) Essas primeiras configurações o situam em uma posição à margem, adotando certa postura romântica, mais como um observador da vida que passa do que nela envolvido. Por isso busca a infância como paraíso eleito, a cidade antiga de pequenas ruas sossegadas, dos bondes, um mundo que, preservado em certos cantos da cidade provinciana, na verdade não existe mais. Daí a necessidade de criar um espaço próprio, uma espécie de Passargada tal qual a imaginada por Manuel Bandeira, como se lê no soneto V:

“E enquanto o mundo todo se esbarronda
Vivo regendo estranhas contradanças
No meu vago país de Trebizonda...”

Por vezes a sua Passargada será não um país mas uma rua especial, síntese das ruas da infância e daquelas por onde o poeta ainda nem andou mas que imagina, tal como está no poema “A minha rua”, de A VACA E O HIPOGRIFO:

É uma rua que tenho o vício
De nunca entrar, e onde eu nunca entrei,
E que vai dar na Babilônia, eu sei,
Ou nalgum porto fenício...


Se eu lá entrasse, seria Rei,
Ou morreria nalgum suplício...
Crimes que lá cometerei
Não deixariam nenhum indício...


Lá não se pensa, mas se responde
Conforme as rimas que um outro dá.
Exemplo: templo. É o templo onde


O senhor padre me casará
Com alguma filha de algum Visconde
Ou do Marques de Maricá!

Um comentário:

João Tulio Dias disse...

Acessei em busca do Estranho no Espelho - Sou fronteiriço de nascimento, como o poetinha... surpreso estou pelo vazio de comentários. Deve ser por falta de ousadia, diante da genialidade deste "anjo" que conviveu conosco,seria temerário "palpitar"... ele, entretanto, encontraria um frase graciosa para contrapor.
João Túlio Dias (um septuagenário).