A todos os sentidos da vida, o amor dá uma nova dimensão. "Voar sem asa", essa é a construção poética mais sublime para definir a sensação do amor, que nos é dada por Quintana.
Amar é mudar a alma de casa,
é ter no outro, nosso pensamento.
Amar é ter coração que abrasa,
amar, é ter na vida um acalento.
Amar é ter alegria que extravasa,
amar é sentir-se no firmamento.
"Amar é mudar a alma de casa",
é ter no outro, nosso pensamento.
Amar, é aquilo que embasa,
é ter comprometimento.
Amar é, voar sem asa,
e porque amar é acolhimento,
"amar é mudar a alma de casa"
- Mario Quintana, in "Apontamentos de História Sobrenatural".
sexta-feira
quarta-feira
MONOTONIA
É segundo por segundo
Que vai o tempo medindoTodas as coisas do mundo
Num só tic-tac, em suma,
Há tanta monotonia
Que até a felicidade,
Ah! Como goteira num balde,
Cansa, aborrece, enfastia...
E a própria dor - quem diria?
A própria dor acostuma.
E vão se revezando, assim,
Dia e noite, sol e bruma...
E isto afinal não cansa?
Já não há gosto e desgosto
Quando é prevista a mudança.
Ai que vida!
Ainda bem que tudo acaba...
Ai que vida tão comprida...
Se não houvesse a morte, Maria,
Eu me matava
quinta-feira
DETRÁS DE UM MURO SURGE A LUA
Um coração que olha mas nada vê, pois é triste e
indolente, como uma criança doente. Eis que passou toda vida a embebedar-se de
cinzento e roxo, cores fúnebres, tristes... A vida corre sem revelar-se
verdadeiramente, (mascarada), acendem-se lampiões, há festa na praça, mas o
coração do poeta segue com seu olhar indiferente, tristonho.
Detrás de um muro surge a lua. Em frente
Acendem-se os lampiões. A noite cai.Na praça a banda toca, de repente,
Um samba histérico... Aflições dançai!
Mas qual! Meu coração triste e indolente
Olha sem ver, de tudo se distrais.Que pena faz uma criança doente!
Como ele está... Cada passito é um ai...
Vai morrer atacado de si mesmo...
Dos longos poentes que passou a esmoA embebedar-se de Cinzento e Roxo.
E enquanto a vida corre - ó Mascarada! -
Ele abre, vagamente, sobre o Nada,O seu olhar sonâmbulo de mocho...
Mario Quintana. A rua dos cataventos
quarta-feira
O VISITANTE NOTURNO
Pousou agora mesmo – precisamente sobre a velha caneta que eu havia erguido um momento à cata de um adjetivo – um insetozinho verde que tem a forma exata de um escudo.
Veio da noite, atraído pela luz da minha janela. Sua gentil visita me compensa não sei de quê.
Fico a examiná-lo em silêncio: nada posso nem sei dizer-lhe.
E assim nos quedamos por um breve instante frementes, incomunicáveis e juntos... Dois universos dentro de um mesmo mundo!
terça-feira
IDEAIS
Os outros meninos, um queria ser médico, outro pirata, outro
engenheiro, ou advogado, ou general. Eu queria ser um pajem medieval... Mas
isso não é nada. Pois hoje eu queria ser uma coisa mais louca: eu queria ser eu
mesmo.
Sapato Furado, 1994
Sapato Furado, 1994
sexta-feira
SOBRE OS POETAS
“Os poetas não são azuis nem nada, como pensam alguns supersticiosos,
nem sujeitos a ataques súbitos de levitação. O de que eles mais gostam é estar
em silêncio que subjugas a quaisquer escapes motorísticos ou declamatórios. Um
silêncio... este impoluível silêncio em que escrevo e em que tu me lês."
Mario Quintana
Foto de Daniel de Andrade Simões e seu Blog "Saitica"
domingo
O ÚLTIMO POEMA
Enquanto me davam a extrema-unção, Eu estava distraído...
Ah, essa mania incorrigível de estar
Pensando sempre noutra coisa!
Aliás, tudo é sempre outra coisa
- segredo da poesia –
E enquanto a voz do padre zumbia como um besouro,
Eu pensava era nos meus primeiros sapatos
Que continuavam andando, que continuavam andando,
Até hoje
Ah, essa mania incorrigível de estar
Pensando sempre noutra coisa!
Aliás, tudo é sempre outra coisa
- segredo da poesia –
E enquanto a voz do padre zumbia como um besouro,
Eu pensava era nos meus primeiros sapatos
Que continuavam andando, que continuavam andando,
Até hoje
quinta-feira
VERANICO E MEIO DIA
Dois textos que se complementam. Escritos naquela hora modorrenta do dia. Aquela hora em que o poema empaca e o poeta adormece.
VERANICO
Está marcando meio-dia nos olhos dos gatos.
As sombras esconderam-se debaixo da barriga dos cavalos.
A cidadezinha modorreia...A tarde
Avança, lentamente, como o casco coberto de poeira
Como uma tartaruga
O poema empaca, o poeta adormece
De chatice
A vida continua indiferente.
in: Preparativos de Viagem
MEIO DIA
A tarde é uma tartaruga com o casco empoeirado a arrastar-se penosamente, as sombras foram-se esconder debaixo da barriga dos cavalos, tudo parece uma íntima quarentena – mas está marcando exatamente meio dia nos olhos dos gatos.
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