CADA POEMA É UM FRAGMENTO DO POEMA GERAL QUE QUINTANA VEIO COMPONDO
DURANTE TODA A SUA VIDA

quarta-feira

MONOTONIA


É segundo por segundo
Que vai o tempo medindo
Todas as coisas do mundo
Num só tic-tac, em suma,
Há tanta monotonia
Que até a felicidade,
Ah! Como goteira num balde,
Cansa, aborrece, enfastia...
E a própria dor -  quem diria?
A própria dor acostuma.
E vão se revezando, assim,
Dia e noite, sol e bruma...
E isto afinal não cansa?
Já não há gosto e desgosto
Quando é prevista a mudança.
Ai que vida!
Ainda bem que tudo acaba...
Ai que vida tão comprida...
Se não houvesse a morte, Maria,
Eu me matava

quinta-feira

VERSÍCULO INÉDITO DOS GENESIS



E eis que tendo Deus descansado no sétimo dia,
os poetas continuaram a obra da criação.

Caderno H

DETRÁS DE UM MURO SURGE A LUA


 
Um coração que olha mas nada vê, pois é triste e indolente, como uma criança doente. Eis que passou toda vida a embebedar-se de cinzento e roxo, cores fúnebres, tristes... A vida corre sem revelar-se verdadeiramente, (mascarada), acendem-se lampiões, há festa na praça, mas o coração do poeta segue com seu olhar indiferente, tristonho.



Detrás de um muro surge a lua. Em frente
Acendem-se os lampiões. A noite cai.
Na praça a banda toca, de repente,
Um samba histérico... Aflições dançai!

Mas qual! Meu coração triste e indolente
Olha sem ver, de tudo se distrais.
Que pena faz uma criança doente!
Como ele está... Cada passito é um ai...

Vai morrer atacado de si mesmo...
Dos longos poentes que passou a esmo
A embebedar-se de Cinzento e Roxo.

E enquanto a vida corre - ó Mascarada! -
Ele abre, vagamente, sobre o Nada,
O seu olhar sonâmbulo de mocho...

Mario Quintana. A rua dos cataventos

quarta-feira

O VISITANTE NOTURNO






Pousou agora mesmo – precisamente sobre a velha caneta que eu havia erguido um momento à cata de um adjetivo – um insetozinho verde que tem a forma exata de um escudo.

Veio da noite, atraído pela luz da minha janela. Sua gentil visita me compensa não sei de quê.

Fico a examiná-lo em silêncio: nada posso nem sei dizer-lhe.

E assim nos quedamos por um breve instante frementes, incomunicáveis e juntos... Dois universos dentro de um mesmo mundo!

terça-feira

IDEAIS




Os outros meninos, um queria ser médico, outro pirata, outro engenheiro, ou advogado, ou general. Eu queria ser um pajem medieval... Mas isso não é nada. Pois hoje eu queria ser uma coisa mais louca: eu queria ser eu mesmo.
Sapato Furado, 1994
                                                             Foto Agência Estado.

sexta-feira

SOBRE OS POETAS



“Os poetas não são azuis nem nada, como pensam alguns supersticiosos, nem sujeitos a ataques súbitos de levitação. O de que eles mais gostam é estar em silêncio que subjugas a quaisquer escapes motorísticos ou declamatórios. Um silêncio... este impoluível silêncio em que escrevo e em que tu me lês."
Mario Quintana
Foto de Daniel de Andrade Simões e seu Blog "Saitica"

domingo

O ÚLTIMO POEMA

Enquanto me davam a extrema-unção, Eu estava distraído...
Ah, essa mania incorrigível de estar
Pensando sempre noutra coisa!
Aliás, tudo é sempre outra coisa
- segredo da poesia –
E enquanto a voz do padre zumbia como um besouro,
Eu pensava era nos meus primeiros sapatos
Que continuavam andando, que continuavam andando,
Até hoje

quinta-feira

VERANICO E MEIO DIA


Foto Liane Neves


Dois textos que se complementam. Escritos naquela hora modorrenta do dia. Aquela hora em que o poema empaca e o poeta adormece.

VERANICO

Está marcando meio-dia nos olhos dos gatos.
As sombras esconderam-se debaixo da barriga dos cavalos.
A cidadezinha modorreia...A tarde
Avança, lentamente, como o casco coberto de poeira
Como uma tartaruga
O poema empaca, o poeta adormece
De chatice
A vida continua indiferente.

in: Preparativos de Viagem

MEIO DIA

A tarde é uma tartaruga com o casco empoeirado a arrastar-se penosamente, as sombras foram-se esconder debaixo da barriga dos cavalos, tudo parece uma íntima quarentena – mas está marcando exatamente meio dia nos olhos dos gatos.

segunda-feira

O LIVRO DA VIDA

Mario em seu quarto - Foto Liane Neves

Comparar a vida com um livro é uma das imagens mais batidas. Que importa? Novidade não é documento. Mas que ansiosa leitura, que suspense. Por que pode terminar sem mais nem menos, às vezes em meio de um capítulo, de uma frase...e, assim, a gente tem que saborear linha por linha, minha filha, para fazê-lo render o mais possível: nada de leitura dinâmica.
In: PREPARATIVOS DE VIAGEM