quinta-feira
DETRÁS DE UM MURO SURGE A LUA
Um coração que olha mas nada vê, pois é triste e
indolente, como uma criança doente. Eis que passou toda vida a embebedar-se de
cinzento e roxo, cores fúnebres, tristes... A vida corre sem revelar-se
verdadeiramente, (mascarada), acendem-se lampiões, há festa na praça, mas o
coração do poeta segue com seu olhar indiferente, tristonho.
Detrás de um muro surge a lua. Em frente
Acendem-se os lampiões. A noite cai.Na praça a banda toca, de repente,
Um samba histérico... Aflições dançai!
Mas qual! Meu coração triste e indolente
Olha sem ver, de tudo se distrais.Que pena faz uma criança doente!
Como ele está... Cada passito é um ai...
Vai morrer atacado de si mesmo...
Dos longos poentes que passou a esmoA embebedar-se de Cinzento e Roxo.
E enquanto a vida corre - ó Mascarada! -
Ele abre, vagamente, sobre o Nada,O seu olhar sonâmbulo de mocho...
Mario Quintana. A rua dos cataventos
quarta-feira
O VISITANTE NOTURNO
Pousou agora mesmo – precisamente sobre a velha caneta que eu havia erguido um momento à cata de um adjetivo – um insetozinho verde que tem a forma exata de um escudo.
Veio da noite, atraído pela luz da minha janela. Sua gentil visita me compensa não sei de quê.
Fico a examiná-lo em silêncio: nada posso nem sei dizer-lhe.
E assim nos quedamos por um breve instante frementes, incomunicáveis e juntos... Dois universos dentro de um mesmo mundo!
terça-feira
IDEAIS
Os outros meninos, um queria ser médico, outro pirata, outro
engenheiro, ou advogado, ou general. Eu queria ser um pajem medieval... Mas
isso não é nada. Pois hoje eu queria ser uma coisa mais louca: eu queria ser eu
mesmo.
Sapato Furado, 1994
Sapato Furado, 1994
sexta-feira
SOBRE OS POETAS
“Os poetas não são azuis nem nada, como pensam alguns supersticiosos,
nem sujeitos a ataques súbitos de levitação. O de que eles mais gostam é estar
em silêncio que subjugas a quaisquer escapes motorísticos ou declamatórios. Um
silêncio... este impoluível silêncio em que escrevo e em que tu me lês."
Mario Quintana
Foto de Daniel de Andrade Simões e seu Blog "Saitica"
domingo
O ÚLTIMO POEMA
Enquanto me davam a extrema-unção, Eu estava distraído...
Ah, essa mania incorrigível de estar
Pensando sempre noutra coisa!
Aliás, tudo é sempre outra coisa
- segredo da poesia –
E enquanto a voz do padre zumbia como um besouro,
Eu pensava era nos meus primeiros sapatos
Que continuavam andando, que continuavam andando,
Até hoje
Ah, essa mania incorrigível de estar
Pensando sempre noutra coisa!
Aliás, tudo é sempre outra coisa
- segredo da poesia –
E enquanto a voz do padre zumbia como um besouro,
Eu pensava era nos meus primeiros sapatos
Que continuavam andando, que continuavam andando,
Até hoje
quinta-feira
VERANICO E MEIO DIA
Dois textos que se complementam. Escritos naquela hora modorrenta do dia. Aquela hora em que o poema empaca e o poeta adormece.
VERANICO
Está marcando meio-dia nos olhos dos gatos.
As sombras esconderam-se debaixo da barriga dos cavalos.
A cidadezinha modorreia...A tarde
Avança, lentamente, como o casco coberto de poeira
Como uma tartaruga
O poema empaca, o poeta adormece
De chatice
A vida continua indiferente.
in: Preparativos de Viagem
MEIO DIA
A tarde é uma tartaruga com o casco empoeirado a arrastar-se penosamente, as sombras foram-se esconder debaixo da barriga dos cavalos, tudo parece uma íntima quarentena – mas está marcando exatamente meio dia nos olhos dos gatos.
segunda-feira
O LIVRO DA VIDA
Comparar a vida com um livro é uma das imagens mais batidas. Que importa? Novidade não é documento. Mas que ansiosa leitura, que suspense. Por que pode terminar sem mais nem menos, às vezes em meio de um capítulo, de uma frase...e, assim, a gente tem que saborear linha por linha, minha filha, para fazê-lo render o mais possível: nada de leitura dinâmica.
In: PREPARATIVOS DE VIAGEM
sexta-feira
DE UM DIÁRIO ÍNTIMO DO SÉCULO XXX
As mulatas representam aqui o que há de mais brasileiro, a fascinante micigenação das cores brancas e pretas..."fascina-me o contraste absoluto entre ambas"... As mulheres azul celeste, certamente, devem ser chatas demais para um poeta que se diz fascinado pelo contraste. Por isso este texto retirado de "De um Diário Íntimo do Século XXX" é tão fascinante, como o contraste entre as cores branca e negra.
DE UM DIÁRIO ÍNTIMO DO SÉCULO XXX
Juro que não tenho o mínimo preconceito de cor. O que há comigo é que acho umas chatas as mulheres azul-celeste. Piores até que as frutacores.Por que não experimentam o cultivo de mulheres brancas e pretas, que dizem ter sido as peles primitivas nos tempos bárbaros.
Fascina-me o contraste absoluto entre ambas. E se tivesse que escolher entre uma branca e uma preta, não sei o que faria...
Abri-me a esse respeito com meu velho e sábio amigo dr Gregorovirus. Ele pôs-se a discorrer sobre soluções dialéticas, sobre certa mescla de café com leite... Não sei o que é dialética, não sei o que é café, não sei o que é leite. Por que raios esses técnicos não se expressam em língua de gente?
Quando eu ia pedir-lhe mais explicações, ele, com um leve dar de ombros, ergueu-se nos ares, e quando já estava a uns dois metros de altura gritou-me:
- Vou tratar do caso, vou tratar (ele tem a mania de repetir as palavras) A sua única salvação meu pobre amigo é a mulata. A mulata!
Fiquei nas mesmas.
Mario Quintana in: Da Preguiça como Método de Trabalho.
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