CADA POEMA É UM FRAGMENTO DO POEMA GERAL QUE QUINTANA VEIO COMPONDO
DURANTE TODA A SUA VIDA

segunda-feira

O LIVRO DA VIDA

Mario em seu quarto - Foto Liane Neves

Comparar a vida com um livro é uma das imagens mais batidas. Que importa? Novidade não é documento. Mas que ansiosa leitura, que suspense. Por que pode terminar sem mais nem menos, às vezes em meio de um capítulo, de uma frase...e, assim, a gente tem que saborear linha por linha, minha filha, para fazê-lo render o mais possível: nada de leitura dinâmica.
In: PREPARATIVOS DE VIAGEM

sexta-feira

DE UM DIÁRIO ÍNTIMO DO SÉCULO XXX

FOTO LIANE NEVES


As mulatas representam aqui o que há de mais brasileiro, a fascinante micigenação das cores brancas e pretas..."fascina-me o contraste absoluto entre ambas"... As mulheres azul celeste, certamente, devem ser chatas demais para um poeta que se diz fascinado pelo contraste. Por isso este texto retirado de "De um Diário Íntimo do Século XXX" é tão fascinante, como o contraste entre as cores branca e negra.


DE UM DIÁRIO ÍNTIMO DO SÉCULO XXX

Juro que não tenho o mínimo preconceito de cor. O que há comigo é que acho umas chatas as mulheres azul-celeste. Piores até que as frutacores.Por que não experimentam o cultivo de mulheres brancas e pretas, que dizem ter sido as peles primitivas nos tempos bárbaros.
Fascina-me o contraste absoluto entre ambas. E se tivesse que escolher entre uma branca e uma preta, não sei o que faria...
Abri-me a esse respeito com meu velho e sábio amigo dr Gregorovirus. Ele pôs-se a discorrer sobre soluções dialéticas, sobre certa mescla de café com leite... Não sei o que é dialética, não sei o que é café, não sei o que é leite. Por que raios esses técnicos não se expressam em língua de gente?
Quando eu ia pedir-lhe mais explicações, ele, com um leve dar de ombros, ergueu-se nos ares, e quando já estava a uns dois metros de altura gritou-me:
- Vou tratar do caso, vou tratar (ele tem a mania de repetir as palavras) A sua única salvação meu pobre amigo é a mulata. A mulata!
Fiquei nas mesmas.
Mario Quintana in: Da Preguiça como Método de Trabalho.
Mulata na janela - Di Cavalcanti

segunda-feira

SONETO PÓSTUMO

Nada permanece igual no tempo, a não ser o próprio tempo. Quintana percebe isso como ninguém. Um velho amor valeu em seu próprio tempo.  Drummond diria: “Mudam-se os tempos/ mudam-se as vontades/ Muda-se o ser”  O tempo  é  implacável  e não tem piedade de nós, pobres e efêmeros humanos. Cecília Meirelles diria: “Talvez pensem que o tempo volta/ E que vens, se o tempo voltar”.  Neste poema Quintana afirma que o tempo não volta e nem o que éramos ou as sensações e sentimentos que sentíamos. “No fim, tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas que o vento não consegue levar: um estribilho antigo, um carinho no momento preciso, o folhear de um livro, o cheiro que tinha um dia o próprio vento...” Ou seja, o tempo como o vento passa...e deixa somente as recordações.

SONETO PÓSTUMO

- Boa Tarde... - Boa Tarde! - E a doce amiga
E eu de novo, lado a lado vamos!
Mas há um não sei quê, que nos intriga:
Parece que um ao outro procuramos...


E, por piedade ou gratidão, tentamos
Representar de novo a história antiga.
Mas vem-me a idéia... nem sei como a diga...
Que fomos outros que nos encontramos!


Não há remédio: é separar-nos pois.
E as nossas mãos amigas se estenderam:
-Até breve!  - Até breve! - E, com espanto


Ficamos a pensar nos outros dois.
Aqueles dois que a tanto já morreram...
E que, um dia se quiseram tanto!

Junho, 1952
Mario Quintana in: Baú de Espantos

quarta-feira

QUEM AMA INVENTA


FOTO DE DANIEL DE ANDRADE SIMÕES


Cecília Meirelles poetizou que “a vida só é possível reinventada” reafirmando o poder recriador da poesia. Mario Quintana complementou dizendo “quem ama inventa as coisas a que ama”. Cecília e Mario, conjugando-se parecem estar a nos dizer: “Se nos amamos, reinventamos a nós mesmos!”


QUEM AMA INVENTA

Quem ama inventa as coisas a que ama...
Talvez chegaste quando eu te sonhava.
Então de súbito acendeu-se a chama!
Era a brasa dormida que acordava...
E era um revôo sobre a ruinaria.
No ar atônito bimbalhavam sinos,
Tangidos por uns anjos peregrinos
Cujo dom é fazer ressurreições...
Um ritmo divino? Oh! Simplesmente
O palpitar de nossos corações
Batendo juntos e festivamente,
Ou sozinhos, num ritmo tristonho...
Ó! meu pobre, meu grande amor distante,
Nem sabes o bem que faz à gente
Haver sonhado... e ter vivido o sonho!

Mario Quintana in: A Cor do Invisível


REINVENÇÃO

A vida só é possível
reinventada.

Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas
que vêm de fundas piscinas
de ilusionismo... — mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira

da lua, na noite escura.

Não te encontro, não te alcanço...
Só — no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só — na treva,
fico: recebida e dada.

Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Cecília Meirelles in: Mar absoluto e outros poemas, 1945.


CECÍLIA MEIRELLES
 
 
 


QUEM AMA

Camões escreveu:"Quem ama inventa as penas em que vive." "Quem ama inventa as coisas a que ama," acrescentaria eu se a a tanto me atrevesse.
Mario Quintana in: Da Preguiça como Método de Trabalho

sábado

CANÇÃO DE OUTONO


A cidade de Porto Alegre não seria a mesma sem a grande presença do poeta Mario Quintana, que deixou a sua marca na memória emotiva da capital sul-rio-grandense. Ele opta por sair da sua terra natal – Alegrete - ainda jovem, adotando Porto Alegre como a sua cidade, a cidade de seu coração. Todo esse encantamento face à cidade escolhida, todos os seus quintanares de contemplação, faz de Quintana “o poeta da cidade”. É o poeta da cidade porque esta é tema recorrente na sua lírica, cidade de múltiplas facetas, capaz de despertar sentimentos diversos no poeta. Mas a cidade vai se transformando ao longo do tempo, se modernizando, enquanto o poeta vai envelhecendo. Ambos trilham juntos os caminhos da vida, numa relação de cumplicidade, com direito a diálogos, idealizações, perplexidade, imaginações, sendo um para o outro a grande companhia.
Mario Quintana testemunha as mudanças que ocorrem em Porto Alegre, é aquele que caminha e aprecia as suas ruas, as suas casas antigas, as crianças, o cotidiano. Num momento inesperado, o simples o surpreende e o inspira a poetizar e registrar aquilo que só ele é capaz de perceber.
Notamos que a temática da modernização, em Quintana, associa-se a sentimentos de perda, de abandono, de solidão e de melancolia. O poeta carrega consigo uma dor nostálgica, mostrando uma certa negatividade face à cidade presente. A visão melancólica de Mario Quintana face à transformação do cenário urbano, o seu descontentamento, fica evidente.
Eduardo Lourenço (1999), em seu livro Mitologia da Saudade, delineia uma leve diferenciação entre os sentimentos de melancolia, tristeza, saudade, tédio e nostalgia. Para Lourenço, a saudade, a tristeza e a nostalgia são sentimentos relacionados à perda de alguma coisa, permitindo, assim, o seu afastamento com a idéia de que se vai recuperar algo. Já a melancolia é mais complexa, pois não tem causa precisa.
Em “Canção de Outono”, percebemos as indagações do poeta Mario Quintana na segunda estrofe - “Tristeza? Encanto? Desejo? / Como é possível sabê-lo?”, uma indefinição própria da melancolia, embora ele utilize a palavra tristeza:

CANÇÃO DE OUTONO


O outono toca realejo
No pátio da minha vida.
Velha canção, sempre a mesma,
Sob a vidraça descida...
Tristeza? Encanto? Desejo?
Como é possível sabê-lo?
Um gozo incerto e dolorido
De carícia a contrapelo...
Partir, ó alma, que dizes?
Colher as horas, em suma...
Mas os caminhos do Outono
Vão dar em parte nenhuma!

Mario Quintana in: Canções

REINCIDÊNCIA


O momento de revolta vem e com a mesma velocidade que vem...passa. Inicia o poeta a reconstrução de um novo jardim de desenganos.

Não, não pude mais com essas cantigas
que nos davam um mórbido prazer!
Cansei-me de cantá-las – bom que o diga –
para a minha princesa adormecer...


Me cansei de guardar cartas antigas
que só faziam amarelecer...
E as palavras tão doces, tão amigas,
Numa bela fogueira as fiz arder


À sua voz fechei os meus ouvidos.
Mas esqueci-me de fechar os olhos...
E assim, não eram dias decorridos,


comecei a servir outros sete anos
e a plantar, entre cardos e entre abrolhos,
mais um lindo jardim de desenganos!

Mario Quintana in: Bau de Espantos

quinta-feira

ESTE SILÊNCIO É FEITO DE AGONIAS

CATAVENTOS - Foto Marcos Serra Lima

Já há algum tempo que não postava nada de A Rua Dos Cataventos, primeira obra de Mario Quintana publicado em 1940. Aqui vai portanto o soneto VII dessa obra.
De quantas imagens poéticas é feito o silêncio. Que força fantasmagórica pode ter a imagem do silêncio. Talvez de uma fragata sem rumo apinhada de meninos mortos. Sim, o silêncio é feito de agonias.

Este silêncio é feito de agonias
E de luas enormes, irreais,
Dessas que espiam pelas gradarias
Nos longos dormitórios de hospitais.


De encontro à Lua, as hirtas galharias
Estão paradas como nos vitrais
E o luar decalca nas paredes frias
Misteriosas janelas fantasmais...


O silêncio de quando, em alto mar,
Pálida, vaga aparição lunar,
Como um sonho vem vindo essa fragata...


Estranha Nau que não demanda os portos!
Com mastros de marfim, velas de prata,
Toda apinhada de meninos mortos...

Mario Quintana in: A Rua dos Cataventos.

segunda-feira

O FILHO MORTO

Liane Neves

Certa noite confidenciei com um homem sensível num daqueles saudosos cafés da volta do Mercado. Aliás, sempre nos encontrávamos com agrado da minha parte, porque ele era poeta mas inteligente, e suas libações não o tornavam monótono ou repetitivo. Seus soneto me pareciam bons. Tinham até um que de clássico. Compusera um deles em memória de seu filho único, morto na flor da mocidade. Foi naquela noite que ele o recitou para mim, enquanto as lágrimas lhe corriam pelas faces. E aconteceu que, tempos depois, numa espera de bonde, um jovem que estava fazendo o serviço militar, apresentou-se-me como filho daquele angustiado poeta amigo. Senti-me ilaqueado na minha boa fé, como vulgarmente se diz, e, pela primeira vez que encontrei o poeta, fui logo dizendo:

- Mas Oscar! Como é que tiveste a coragem de me impingires aquele soneto em memória de teu filho vivo?

E ele, com toda a sinceridade:

- Era pra que se morresse...

A resposta, como se vê, foi num estilo nada clássico...mas que mundos e fundos havia nela! A verdade do mundo poético não tem que dar satisfação ao mundo real – eis aí uma tese a defender. Mas fique o leitor descansado: eu não pretendo provar coisa nenhuma... Estou modestamente fazendo uma afirmação.

Mario Quintana in: Caderno H

sábado

BILHETE A HERÁCLITO

Heráclito de Efeso

A modernidade está intimamente ligada à melancolia cujo “eu” é autônomo e múltiplo. Em “Bilhete a Heráclito” percebemos essa idéia dos múltiplos “eus” - advinda do Século XX - onde Quintana diz que não só o rio em que se banha não é mais o mesmo, mas ele também já não é o mesmo.

Tudo deu certo, meu velho Heráclito,
Porque eu sempre consigo
Atravessar esse teu rio
Com o meu eu eternamente outro...
(QUINTANA,

Heráclito de Éfeso (Éfeso, aprox. 540 a.C. - 470 a.C.) foi um filósofo pré-socrático considerado o "pai da dialética".
Numa série de aforismos, Heráclito enfatiza o caráter mutável da realidade, repetindo uma tese que já surgira nos mitos arcaicos e, com dimensão filosófica, desde os milesianos. Mas em Heráclito a noção de fluxo universal torna-se um mote insistentemente glosado: “Tu não podes descer duas vezes no mesmo rio, porque novas águas correm sempre sobre ti”.

terça-feira

QUINTANA CAMINHANTE

Mais um poema que desmente a teoria de que Quintana é o poeta das coisas simples. Não é só de coisas simples que trata Quintana. Também trata de temas que nos põem a refletir e que exigem, como disse no poema anterior, várias releituras.

O poema “Elegia número onze” tem um fundo psicológico muito grande. Mostra a necessidade do poeta de perder-se na multidão. Ele lamenta a falta de gente na cidade deserta. Esse poema retoma a idéia dos versos do poeta moderno Antonio Machado – Caminhante / não há caminhos, / faz-se o caminho ao andar (cf. MACHADO, 1973, p. 158).
O poeta caminha pela cidade, e é esse caminhar, segundo James Hillman , que está cada vez menos presente na vida do homem moderno. Ele diz que “a locomoção tornou-se mecanizada, desde os dispositivos de controle remoto até, claro, os automóveis” o que torna cada vez mais desnecessário o caminhar na nossa rotina. A poesia de Quintana consegue perfeitamente retratar o que James Hillman está diagnosticando em 1993. A vida desse novo homem – o homem moderno não chama a atenção de Quintana, pois para ele é sem graça viajar de avião e transitar pelos aeroportos. A locomoção com o automóvel, afirma o autor, é uma experiência visual. Já nos aviões, nem a experiência visual acontece: ALGUMAS VARIAÇÕES SOBRE O MESMO TEMA

V
Tenho pena, isto sim, dos que viajam de avião a
jato:
só conhecem do mundo os aeroportos...
E todos os aeroportos do mundo são iguais,
Excessivamente sanitários
e com anúncios de Coca-Cola.
(QUINTANA)

Hillman diz que “andar acalma”, “caminhando estamos no mundo, encontramo-nos num lugar específico e, ao caminhar nesse espaço, tornamo-lo um lugar, uma moradia ou um território, uma habitação com um nome”. O psicólogo Hillman, analista que trabalha com a alma, decide abordar o tema da cidade, pois, mesmo analisando as pessoas num escritório fechado, ele diz que “é precisamente a rua aquilo que adentra o consultório”. Dessa forma, o seu trabalho se dá com as pessoas da cidade, afirmando que a cidade está na alma delas. Ele aponta para o fato de que a psicologia vem discutindo a questão de a vida urbana ser responsável pelas doenças psíquicas. Vamos nos deliciar portanto com esse maravilhoso poema.

ELEGIA NÚMERO ONZE

Não, não é uma série de pontos de exclamação
-é uma avenida de álamos...
E o que, e para quem, clamariam então?!
Deserta está a cidade.
Todas as avenidas, todas as ruas, todas as estradas, atônitas
se perguntam se vem ou se vão...
Em nada lhes poderiam servir estes postes de quilometragem:
estão apenas desenhados, como num mapa.
Ah, se houvesse uns passos, ainda que fossem solitários...
Se houvesse alguém andando sozinho... e bastava! São os passos
- são os passos que fazem os caminhos.
Deserta está a cidade.
Se houvesse alguém andando sozinho
- para eles se acenderiam então, como um olhar, todas as cores!
Porque a cidade está cega também.
O que não é visto por ninguém
não sabe a cor e o aspecto que tem.
A cidade está cega e parada com o descor de um morto.
Porque tudo aquilo que jamais é visto
- não existe...
Mario Quintana in: Esconderijo do Tempo

sexta-feira

Mario Quintana: FUNÇÃO


Dizem que Quintana é o poeta das coisas simples. Realmente o é. Consegue transformar em poesia uma ruazinha sossegada ou, um vôo de pássaros sobre uma praça interiorana. Mas Quintana também fala de coisas complicadas, buscando no fundo da alma um sentido, um significado. Suas construções poéticas têm às vezes um sentido psicológico, que exige várias releituras. É o que acontece no poema FUNÇÃO:

O poeta só, num pequeno mundo, que ele compara ao picadeiro de um circo, no qual é movido por fios de Marionete (amarrados em estrelas, talvez comandados por Deus, talvez pelo destino).
O poeta declama seus poemas...tristes, lindos e tristes palavras e dança, como todos nós dançamos, humanidade, no meio do palco, sem saber quem nos olha no escuro.

FUNÇÃO

Me deixaram sozinho no meio do circo
Ou era apenas um pátio uma janela uma rua
uma esquina

Pequenino mundo sem rumo


Até que descobri que todos os meus gestos
Pendiam cada um das estrelas por longos fios invisíveis

E havia súbitas e lindas aparições como aquela das
longas tranças


E todas imitavam tão bem a vida
Que por um momento se chegava a esquecer a sua
cruel inocência do bonecas


E eu dizia depois coisas tão lindas
E tristes
Que não sabia como tinham ido parar em minha boca


E o mais triste não era que aquilo fosse apenas um
jogo cambiante de reflexos


Porque afinal um belo pião dançante
Ou zunindo imóvel
Vive uma vida mais intensa do que a mão ignorada
que o arremessou


E eu danço, tu danças e nós dançamos
Sempre dentro de um círculo implacável de luz
Sem saber quem nos olha atenta ou distraidamente
do escuro...

Mario Quintana in: Apontamentos de História Sobrenatural

domingo

De Mario Quintana: O DEUS VIVO


Disse o poeta Armindo Trevisan sobre as idéias religiosas de Quintana:
“O Mario, a rigor, não praticava nenhuma religião, mas tinha sido educado na religião católica. [...]Em conversas particulares com ele percebi que ele poderia ser qualificado de agnóstico, isto é, alguém que declara não saber com certeza se Deus existe. Eu pessoalmente tenho a impressão de que ele acreditava em Deus, a sua maneira.”

Se as ações humanas e os caminhos percorridos pelos homens na Terra têm algo a ver com Deus, certamente o poema O DEUS VIVO não pode ser mais verdadeiro. Deus está no fundo do poço. Caim retrata a intolerância, a ganância, o preconceito, enfim tudo o que é humano, e Deus, desamparado está no inferno... Quintana considera urgente resgatá-lo, mas para isso é preciso resgatar a nós mesmos...humanidade.
Bernardo

O DEUS VIVO

Deus não está no céu. Deus está no fundo do poço
onde o deixaram tombar
- Caim, o que fizeste do teu Deus?!


Suas unhas ensangüentadas arranham em vão as
paredes escorregadias.
Deus está no inferno...


É preciso que lhe emprestemos todas as nossas forças, todo o nosso alento
para trazê-lo ao menos à face da terra.


E sentá-lo depois à nossa mesa
e dar-lhe do pão e do nosso vinho


E não deixar que de novo se perca.
Que de novo se perca...nem que seja no céu!

Mario Quintana in: Apontamentos de História Sobrenatural

terça-feira

O QUARTO DE MÁRIO QUINTANA

Quarto de Mario Quintana assombrando(veja reflexo na parede) foto Daniel de Andrade Simões

Este quarto, de Mario Quintana, sua última morada, nos faz imaginar um personagem solitário e disperso, perdido entre seus versos. Quantos poemas Mario não construiu aqui. Talvez ele volte, de vez em quando,a visitar sua última morada terrena. E quando aqui chega deve dizer aos retratos da parede:
"Tú não imaginas como é bom, como é repousante,
Não ter bagagem nenhuma."
E olhando sua velhas coisas, alí tão conservadas...intáctas, deve dizer baixinho:

"Nem sei mais se me matei,
Se morri por distraido,
Se me atiraram do caís"
[]"Eu sigo todo florido
Cadáver desconhecido,
Vogando, lento à deriva,
Nos rios todos do mundo."

E assim vai o poeta dedilhando seus objetos, sua velha cama
e certamente recordará aquele poema, composto na dificuldade da velhice, na lentidão dos movimentos trêmulos e doloridos:

Este quarto de enfermo, tão deserto
de tudo, pois nem livros eu já leio
e a própria vida eu a deixei no meio
como um romance que ficasse aberto...


que me importa este quarto, em que desperto
como se despertasse em quarto alheio?
Eu olho é o céu! imensamente perto,
o céu que me descansa como um seio.


Pois só o céu é que está perto, sim,
tão perto e tão amigo que parece
um grande olhar azul pousando em mim.


A morte deveria ser assim:
um céu que pouco a pouco anoitecesse
e a gente nem soubesse que era o fim...
Foto de Daniel de Andrade Simões

sexta-feira

Recordações de Mario Quintana

Quintana na Feira do Livro P. Alegre -1986

Sala de espera do consultório. Sala de espera? Não: Sala de recordações. Porque as revistas são tão velhas que a gente, sincronizando (perdão) com as datas delas, transporta-se ao que foi naqueles tempos. Ah! Quando o Ministério se demitiu em massa recordo, eu andava doido pela Maria Helena que andava doida pelo Fabião, que andava doido pela Felisbina... Agora todos voltaram ao juízo e estão casados com outras pessoas. Todos, menos eu. Em compensação juro que esqueci completamente a Maria Helena e, quando a encontro me pergunto:
- Senhor Deus dos desgraçados, esta é aquela?!

Mario Quintana in: Porta Giratória

terça-feira

POEMAS PARA JULIANO O APÓSTATA

Moeda com imagem do imperador Juliano

Flávio Cláudio Juliano,foi imperador Romano de 361 a 363 depois de cristo.Foi o último imperador da família de Constantino I, O Grande. Constantino em 313 d.c, publicou o èdito de Milão, pondo fim à perseguição dos Cristãos em Roma. Juliano, foi chamado de apóstata porque renegou a religião cristã e tentou implantar o retorno do paganismo. Cristão de formação, durante a vida adota a religião pagã tradicional romana e, embora não persiga os cristãos passa a fazer de tudo para fortalecer o velho culto aos deuses pagãos.

O poema nos leva também ao grande escritor grego Nikos Kazantzákis que produziu a tragédia Juliano o Apóstata.
Kazantzákis não vê no Imperador o adorador fanático da antigüidade sepultada, da religião agonizante, mas sim inspirado do ideal de uma ressurreição de liberação, que percebe à sua volta homens, espíritos, coisas, idéias e símbolos, tudo impiedosamente reprimido, debelado pelo cristianismo. Parece que é este pensamente que nortei o poema de Quintana.
Não consta na bibliografia de Quintana haver feito a tradução da tragédia de Kazantzákis, autor de peças famosas como Zorba o Grego, A Odisséia, Cristo Recrucificado, A ùltima Tentação de Cristo, mas certamente deve ter nela se inspirado para escrever o poema abaixo.


POEMAS PARA JULIANO O APÓSTATA

No tempo dos deuses tudo
era simples como eles
e natural e humano
e eles reinavam no mundo.


Mas veio um deus usurpador e único
e tornou o mundo incompreensível
porque o seu reino não era deste mundo.


E até hoje ninguém soube por que ele expulsou
os outros deuses
e ficou reinando sozinho
e fez todos os homens pecarem
- coisas que eles jamais haviam feito antes –
porque pecar com inocência não é pecar...


E os homens conheceram o terror maravilhoso do pecado
-e assim o novo deus lhes trouxe uma volúpia nova.

Mario Quintana in:Apontamentos de História Sobrenatural

Mario Quintana - Foto Liane Neves

sexta-feira

De Mario Quintana: AEROPORTO

Foto: Daniel de Andrade Simões


A partida suave, silenciosa, sem nenhuma bagagem. Meu outro nome, minha outra imagem, não mais o ser terreno...outro, sim outro, que existe escondido nas profundezas da alma e que se revelará, súbito e maravilhosamente.
Bernardo

AEROPORTO

Eu também, eu também hei de estar no
Grande Aeroporto um dia,
Entre os outros viajantes sem bagagem...
Tu não imaginas como é bom, como é repousante
Não ter bagagem nenhuma!
Porém, no auto-falante,
Serei chamado por outro nome que não o meu...
Um nome conhecido apenas pelos anjos.
Mas eu reconhecerei o meu nome
Como reconheço no espelho a minha imagem de cada dia.
E cada chamada será uma súbita, uma maravilhosa revelação.
Menos
Para umas poucas criaturas...
Aquelas criaturas que mereceram ser conhecidas
Ainda neste mundo,
Ainda nesta vida
Pelo seu nome único e verdadeiro!
Mario Quintana in: Preparativos para a Viagem


As fotos acima são obra da lente sensível de Daniel de Andrade Simões postadas em seu excelente blog http://saitica.blogspot.com/

O APOIO FAMILIAR NA FORMAÇÃO DO POETA QUINTANA

Foto Liane Neves

"Ser poeta não é uma maneira de escrever. É uma maneirade ser. O leitor de poesia é também um poeta. Para mim o
poeta não é essa espécie saltitante que chamam de Relações
Públicas. O poeta é Relações Íntimas. Dele com o leitor. E
não é o leitor que descobre o poeta, mas o poeta é que descobre
o leitor, que o revela a si mesmo. O poeta que “me
descobriu” foi o Antônio Nobre do Só. Tínhamos lá em casa
aquela bela edição ilustrada por Antônio Carneiro, e não sei
em que mãos estará agora. A propósito, o jornalista e poeta
Egydio Squeff comprou num sebo um exemplar do Só
onde estava escrito: “Este é o quarto exemplar do Só que eu
compro. Os outros todos me roubaram.” E vinha assinado
em baixo: Álvaro Moreyra. Em meu primeiro livro, A Rua
dos Cataventos, tenho, por dever e devoção, um soneto a ele
dedicado e mais uma referência em outro poema. Isto bastou
para acusarem em mim a influência de Antônio Nobre.
Protesto: não há influência – há confluência, pois a gente só
gosta de quem se parece com a gente. Porém, mais remota do
que a presença de Antônio Nobre, está, entre as recordações
da infância, a voz grave e pausada de meu pai a recitar-me o
episódio do Gigante Adamastor. Aquele ritmo severo ensinava-
me a profundidade da poesia e até hoje me assombra
aquele verso: “Que o menor mal de todos seja a morte”. Em
compensação minha mãe, educada no Uruguai, recitava-me
Espronceda e Becquer: “Ya se van las oscuras golondrinas”.
A par disso aprendi a ler muito cedo, sem quase saber que
estava lendo. E ouso afirmar que as verdadeiras influências
na minha formação foram Camões e O tico-tico.
Não sei se tive infância. Fui um menino doente, por trás de
uma janela. Creio que foi a ele que eu dediquei depois um
soneto de A Rua dos Cataventos. O meu “elemento” era a poesia.
Comecei a ser poeta como um cachorro que cai n’água e
não sabia que sabia nadar. (Sabia.) E o meio fami liar ajudou.
Tanto meu pai e minha mãe, como meus irmãos Milton e
Marie ta, a quem dediquei meu primeiro livro, gostavam de
poesia. Nunca tive a clássica incompreensão da família, de
que tanto se vangloriam alguns poe tas. Aliás, foi meu próprio
irmão Milton, quinze anos mais velho do que eu, quem
me ensinou a metrificar. Como tive a infância muito presa,
devido à precariedade da saúde, quando pude soltei-me no
mundo. Um choque. Fui criado num aviário e solto num potreiro.
Daí talvez a explicação da minha posterior e prolongada
boemia.
Mario Quintana

segunda-feira

MONOTONIA


Há tanta monotonia no mundo que até a felicidade cansa, afirma Quintana. Será talvez que a busca incansável de algo novo leve à frustração justamente pela descoberta da não existência do tal novo? Afinal o novo é novo por tão pouco tempo que uma vez alcançado perde sua graça e motivação. Quintana chega à conclusão que a morte tem aí uma das suas funções : "ainda bem que tudo acaba se não[...] eu me matava!"

MONOTONIA
É segundo por segundo
Que vai o tempo medindo
Todas as coisas do mundo
Num só tic-tac, em suma,
Há tanta monotonia
Que até a felicidade,
Como goteira num balde,
Cansa, aborrece, enfastia...
E a própria dor - quem diria? -
A própria dor acostuma.
E vão se revezando, assim,
Dia e noite, sol e bruma...
E isto afinal não cansa?
Já não há gosto e desgosto
Quando é prevista a mudança.
Ai que vida!
Ainda bem que tudo acaba...
Ai que vida tão cumprida...
Se não houvesse a morte, Maria,
Eu me matava!

Mario Quintana in: Preparativos de Viagem

sexta-feira

MARIO QUINTANA, PÉ DE PILÃO...E EU. (Érico Veríssimo)

Edgar Koetz

“Ser poeta é saber ver o mundo como o vêem os anjos, as fadas, e ao mesmo tempo possuir o dom de comunicar a quem o lê o que ele vê e sente”... Erico Veríssimo escreveu esta frase ao se referir a Mario Quintana como um dos cinco maiores poetas do Brasil.
No dia do aniversário do poeta nada melhor que ler este comentário de Érico Veríssimo ao livro PÉ DE PILÃO que Mario publicou em 1975:

Meus amigos, na minha opinião Mário Quintana é hoje em dia um dos cinco maiores poetas de todo o Brasil. Pé de Pilão é um livro que ele escreveu para crianças de várias idades, mas que também pode – e deve! – ser lido por gente grande. Mas... como é que eu entro nessa história toda? Ora, eu não entro. Fico cá de fora da casa do livro, gritando para todos os ouvidos e a todos os ventos que o livro é bonito, divertido, faz a gente rir e querer saber “que é que vem depois...” Os desenhos são muito bons e foram feitos por um famoso artista, Edgar Koetz, , gaucho como o autor da aventura.
Desenho Edgar Koetz

Conheço Mario Quintana faz uns bons quarenta anos. É o sujeito mais “diferente” que tenho encontrado na vida. Antes de tudo é um poeta, e ser poeta não é apenas fazer versos, prosa com rima (carvão – coração...carinho-passarinho...etc...) Ser poeta é saber ver o mundo como o vêem os anjos, as fadas, e ao mesmo tempo possuir o dom de comunicar a quem o lê o que ele vê e sente, em resumo, é ter os olhos para revelar a face secreta das pessoas e das coisas. Mario Quintana é um homem que caminha sozinho, como aquele gato do conto inglês. Bom, vou revelar a vocês um segredo. Descobri outro dia que o Quintana na verdade é um anjo disfarçado de homem. Às vezes quando ele se descuida ao vestir o casaco, suas asas ficam de fora.
(Ah! Como anjo seu nome não é Mario e sim Malaquias.)
O Anjo Quintana - Henrique Rodrigues Pinto

Quintana é também mágico, só que suas mágicas são feitas com palavras. Agora, amigos, prestem atenção. Pé de Pilão foi feito todo em versos, isto é, com frases que tem compasso de música, e com rimas. Quem já souber ler, que leia este conto em voz alta e clara. Se não souber, peça a outra pessoa – mãe, pai, irmão ou irmã mais velha, baba, alguma titia... – que se encarregue disso. E, se durante a leitura por acaso aparecer na história alguma palavra que vocês nunca tenham visto antes, perguntem a quem sabe o que ela significa. É assim que a gente aprende sua própria língua... e a dos estrangeiros.
Pois é. Deixo com vocês o caso do Pé de Pilão, que se vai transformando, de verso em verso, no caso de outros personagens, bem como um rio que vai correndo para o mar e encontrando no caminho pessoas, animais e coisas que o leitor não esperava. Leiam esta história – ou escutem sua leitura – mais de uma vez. E se alguém um dia perguntar quem é Mario Quintana, podem responder sem medo de errar que ele é um dos maiores poetas do nosso Brasil. È isto que pensa quem gosta dele como de um irmão, um tal de
Érico Veríssimo
“Mas a infância, ó poetas, não é mesmo azul?
Quanto a mim, eu venho há muito desconfiando de que a infância é uma invenção do adulto.E o passado, uma invenção do presente. Por isso é tão bonito sempre, ainda quando foi uma lástima... A memória vai tudo colorindo”
Mario Quintana – Caderno H
foto Liane Neves

segunda-feira

104 anos de Mário Quintana

Foto Dulce Helfer

Dia 30 de julho Quintana completaria 104 anos de idade. O poeta de Alegrete que dedicou sua vida à poesia nasceu dia 30 de julho de 1906.

O VELHO

O que eu mais temo não é o Sono Eterno, mas a possibilidade de uma insônia eterna, o que seria uma verdadeira estopada, um suplício sem fim. Porém, em uma das minhas costumeiras noites de sonho acordado, o meu amigo morto me pediu um cigarro, e disse-me:
- Não é como tu pensas, todos nós trabalhamos numa série infinita de escritórios (cada geração de mortos num deles) onde a gente se entrega a um sério trabalho de estatística: tem-se que anotar a chegada de cada um e comunicar-lhe o respectivo número, pois isso de nomes é mera convenção terrena. O pior são os que atrapalham a escrita, morrendo antes do tempo, ou porque se mataram ou por culpa dos médicos, e estes ainda são culpados quando fazem os doentes morrer depois da hora, numa espécie de sobrevida artificial, já que os médicos (diga-se em sua honra) julgam criminosa a prática da eutanásia...uma pena!
- E fora do expediente, o que fazem vocês?
- Bem, a hora do almoço não deixa de ser divertida por causa dos Santos: põem-se a discutis acaloradamente qual deles fez na Terra o maior número de milagres e outras futilidades.
- E nos serões, eles jogam prenda?
- Mais respeito, seu vivo!... Bem! Nos serões eles fazem concursos para ver quem é que diz de cor mais versículos da Bíblia. Uma bobagem! Todo mundo sabe que o único que sabe a Bíblia de cor, tintim por tintim, é o Diabo.
- E Deus ? Me conta como é Ele...
- Ah, o Velho? Desconfio que certa vez O vi...
- Só certa vez? Mas ele não está sempre no céu?
- Bem, tu deves compreender que Ele se preocupa principalmente com os vivos. O Velho está quase sempre e na Terra, lidando com os assuntos humanos. Ele e o Diabo. Sim, os dois vivem a maior parte do tempo na Terra.
- Ora, eu pensava que vocês soubessem mais do que nós... Mas conta lá como foi que desconfiaste de ter visto o Velho?
- Foi a tempos, eu era recém chegado, quando uma tarde apareceu de surpresa no escritório um velhinho muito simpático. Com as mãos nas costas, curvava-se sobre cada mesa, inspecionando o nosso trabalho, por sinal que me atrapalhei, errei uma palavra. Ele bate-me confortadoramente no ombro, como quem diz: “Não foi nada...não foi nada...” Ao retirar-se, já com a mão no trinco da porta, virou-se para nós e abanou: “Até outra vez, se Eu quiser!”.
Mario Quintana in: Poemas para a Infância