CADA POEMA É UM FRAGMENTO DO POEMA GERAL QUE QUINTANA VEIO COMPONDO
DURANTE TODA A SUA VIDA

sábado

BILHETE A HERÁCLITO

Heráclito de Efeso

A modernidade está intimamente ligada à melancolia cujo “eu” é autônomo e múltiplo. Em “Bilhete a Heráclito” percebemos essa idéia dos múltiplos “eus” - advinda do Século XX - onde Quintana diz que não só o rio em que se banha não é mais o mesmo, mas ele também já não é o mesmo.

Tudo deu certo, meu velho Heráclito,
Porque eu sempre consigo
Atravessar esse teu rio
Com o meu eu eternamente outro...
(QUINTANA,

Heráclito de Éfeso (Éfeso, aprox. 540 a.C. - 470 a.C.) foi um filósofo pré-socrático considerado o "pai da dialética".
Numa série de aforismos, Heráclito enfatiza o caráter mutável da realidade, repetindo uma tese que já surgira nos mitos arcaicos e, com dimensão filosófica, desde os milesianos. Mas em Heráclito a noção de fluxo universal torna-se um mote insistentemente glosado: “Tu não podes descer duas vezes no mesmo rio, porque novas águas correm sempre sobre ti”.

terça-feira

QUINTANA CAMINHANTE

Mais um poema que desmente a teoria de que Quintana é o poeta das coisas simples. Não é só de coisas simples que trata Quintana. Também trata de temas que nos põem a refletir e que exigem, como disse no poema anterior, várias releituras.

O poema “Elegia número onze” tem um fundo psicológico muito grande. Mostra a necessidade do poeta de perder-se na multidão. Ele lamenta a falta de gente na cidade deserta. Esse poema retoma a idéia dos versos do poeta moderno Antonio Machado – Caminhante / não há caminhos, / faz-se o caminho ao andar (cf. MACHADO, 1973, p. 158).
O poeta caminha pela cidade, e é esse caminhar, segundo James Hillman , que está cada vez menos presente na vida do homem moderno. Ele diz que “a locomoção tornou-se mecanizada, desde os dispositivos de controle remoto até, claro, os automóveis” o que torna cada vez mais desnecessário o caminhar na nossa rotina. A poesia de Quintana consegue perfeitamente retratar o que James Hillman está diagnosticando em 1993. A vida desse novo homem – o homem moderno não chama a atenção de Quintana, pois para ele é sem graça viajar de avião e transitar pelos aeroportos. A locomoção com o automóvel, afirma o autor, é uma experiência visual. Já nos aviões, nem a experiência visual acontece: ALGUMAS VARIAÇÕES SOBRE O MESMO TEMA

V
Tenho pena, isto sim, dos que viajam de avião a
jato:
só conhecem do mundo os aeroportos...
E todos os aeroportos do mundo são iguais,
Excessivamente sanitários
e com anúncios de Coca-Cola.
(QUINTANA)

Hillman diz que “andar acalma”, “caminhando estamos no mundo, encontramo-nos num lugar específico e, ao caminhar nesse espaço, tornamo-lo um lugar, uma moradia ou um território, uma habitação com um nome”. O psicólogo Hillman, analista que trabalha com a alma, decide abordar o tema da cidade, pois, mesmo analisando as pessoas num escritório fechado, ele diz que “é precisamente a rua aquilo que adentra o consultório”. Dessa forma, o seu trabalho se dá com as pessoas da cidade, afirmando que a cidade está na alma delas. Ele aponta para o fato de que a psicologia vem discutindo a questão de a vida urbana ser responsável pelas doenças psíquicas. Vamos nos deliciar portanto com esse maravilhoso poema.

ELEGIA NÚMERO ONZE

Não, não é uma série de pontos de exclamação
-é uma avenida de álamos...
E o que, e para quem, clamariam então?!
Deserta está a cidade.
Todas as avenidas, todas as ruas, todas as estradas, atônitas
se perguntam se vem ou se vão...
Em nada lhes poderiam servir estes postes de quilometragem:
estão apenas desenhados, como num mapa.
Ah, se houvesse uns passos, ainda que fossem solitários...
Se houvesse alguém andando sozinho... e bastava! São os passos
- são os passos que fazem os caminhos.
Deserta está a cidade.
Se houvesse alguém andando sozinho
- para eles se acenderiam então, como um olhar, todas as cores!
Porque a cidade está cega também.
O que não é visto por ninguém
não sabe a cor e o aspecto que tem.
A cidade está cega e parada com o descor de um morto.
Porque tudo aquilo que jamais é visto
- não existe...
Mario Quintana in: Esconderijo do Tempo

sexta-feira

Mario Quintana: FUNÇÃO


Dizem que Quintana é o poeta das coisas simples. Realmente o é. Consegue transformar em poesia uma ruazinha sossegada ou, um vôo de pássaros sobre uma praça interiorana. Mas Quintana também fala de coisas complicadas, buscando no fundo da alma um sentido, um significado. Suas construções poéticas têm às vezes um sentido psicológico, que exige várias releituras. É o que acontece no poema FUNÇÃO:

O poeta só, num pequeno mundo, que ele compara ao picadeiro de um circo, no qual é movido por fios de Marionete (amarrados em estrelas, talvez comandados por Deus, talvez pelo destino).
O poeta declama seus poemas...tristes, lindos e tristes palavras e dança, como todos nós dançamos, humanidade, no meio do palco, sem saber quem nos olha no escuro.

FUNÇÃO

Me deixaram sozinho no meio do circo
Ou era apenas um pátio uma janela uma rua
uma esquina

Pequenino mundo sem rumo


Até que descobri que todos os meus gestos
Pendiam cada um das estrelas por longos fios invisíveis

E havia súbitas e lindas aparições como aquela das
longas tranças


E todas imitavam tão bem a vida
Que por um momento se chegava a esquecer a sua
cruel inocência do bonecas


E eu dizia depois coisas tão lindas
E tristes
Que não sabia como tinham ido parar em minha boca


E o mais triste não era que aquilo fosse apenas um
jogo cambiante de reflexos


Porque afinal um belo pião dançante
Ou zunindo imóvel
Vive uma vida mais intensa do que a mão ignorada
que o arremessou


E eu danço, tu danças e nós dançamos
Sempre dentro de um círculo implacável de luz
Sem saber quem nos olha atenta ou distraidamente
do escuro...

Mario Quintana in: Apontamentos de História Sobrenatural

domingo

De Mario Quintana: O DEUS VIVO


Disse o poeta Armindo Trevisan sobre as idéias religiosas de Quintana:
“O Mario, a rigor, não praticava nenhuma religião, mas tinha sido educado na religião católica. [...]Em conversas particulares com ele percebi que ele poderia ser qualificado de agnóstico, isto é, alguém que declara não saber com certeza se Deus existe. Eu pessoalmente tenho a impressão de que ele acreditava em Deus, a sua maneira.”

Se as ações humanas e os caminhos percorridos pelos homens na Terra têm algo a ver com Deus, certamente o poema O DEUS VIVO não pode ser mais verdadeiro. Deus está no fundo do poço. Caim retrata a intolerância, a ganância, o preconceito, enfim tudo o que é humano, e Deus, desamparado está no inferno... Quintana considera urgente resgatá-lo, mas para isso é preciso resgatar a nós mesmos...humanidade.
Bernardo

O DEUS VIVO

Deus não está no céu. Deus está no fundo do poço
onde o deixaram tombar
- Caim, o que fizeste do teu Deus?!


Suas unhas ensangüentadas arranham em vão as
paredes escorregadias.
Deus está no inferno...


É preciso que lhe emprestemos todas as nossas forças, todo o nosso alento
para trazê-lo ao menos à face da terra.


E sentá-lo depois à nossa mesa
e dar-lhe do pão e do nosso vinho


E não deixar que de novo se perca.
Que de novo se perca...nem que seja no céu!

Mario Quintana in: Apontamentos de História Sobrenatural

terça-feira

O QUARTO DE MÁRIO QUINTANA

Quarto de Mario Quintana assombrando(veja reflexo na parede) foto Daniel de Andrade Simões

Este quarto, de Mario Quintana, sua última morada, nos faz imaginar um personagem solitário e disperso, perdido entre seus versos. Quantos poemas Mario não construiu aqui. Talvez ele volte, de vez em quando,a visitar sua última morada terrena. E quando aqui chega deve dizer aos retratos da parede:
"Tú não imaginas como é bom, como é repousante,
Não ter bagagem nenhuma."
E olhando sua velhas coisas, alí tão conservadas...intáctas, deve dizer baixinho:

"Nem sei mais se me matei,
Se morri por distraido,
Se me atiraram do caís"
[]"Eu sigo todo florido
Cadáver desconhecido,
Vogando, lento à deriva,
Nos rios todos do mundo."

E assim vai o poeta dedilhando seus objetos, sua velha cama
e certamente recordará aquele poema, composto na dificuldade da velhice, na lentidão dos movimentos trêmulos e doloridos:

Este quarto de enfermo, tão deserto
de tudo, pois nem livros eu já leio
e a própria vida eu a deixei no meio
como um romance que ficasse aberto...


que me importa este quarto, em que desperto
como se despertasse em quarto alheio?
Eu olho é o céu! imensamente perto,
o céu que me descansa como um seio.


Pois só o céu é que está perto, sim,
tão perto e tão amigo que parece
um grande olhar azul pousando em mim.


A morte deveria ser assim:
um céu que pouco a pouco anoitecesse
e a gente nem soubesse que era o fim...
Foto de Daniel de Andrade Simões

sexta-feira

Recordações de Mario Quintana

Quintana na Feira do Livro P. Alegre -1986

Sala de espera do consultório. Sala de espera? Não: Sala de recordações. Porque as revistas são tão velhas que a gente, sincronizando (perdão) com as datas delas, transporta-se ao que foi naqueles tempos. Ah! Quando o Ministério se demitiu em massa recordo, eu andava doido pela Maria Helena que andava doida pelo Fabião, que andava doido pela Felisbina... Agora todos voltaram ao juízo e estão casados com outras pessoas. Todos, menos eu. Em compensação juro que esqueci completamente a Maria Helena e, quando a encontro me pergunto:
- Senhor Deus dos desgraçados, esta é aquela?!

Mario Quintana in: Porta Giratória

terça-feira

POEMAS PARA JULIANO O APÓSTATA

Moeda com imagem do imperador Juliano

Flávio Cláudio Juliano,foi imperador Romano de 361 a 363 depois de cristo.Foi o último imperador da família de Constantino I, O Grande. Constantino em 313 d.c, publicou o èdito de Milão, pondo fim à perseguição dos Cristãos em Roma. Juliano, foi chamado de apóstata porque renegou a religião cristã e tentou implantar o retorno do paganismo. Cristão de formação, durante a vida adota a religião pagã tradicional romana e, embora não persiga os cristãos passa a fazer de tudo para fortalecer o velho culto aos deuses pagãos.

O poema nos leva também ao grande escritor grego Nikos Kazantzákis que produziu a tragédia Juliano o Apóstata.
Kazantzákis não vê no Imperador o adorador fanático da antigüidade sepultada, da religião agonizante, mas sim inspirado do ideal de uma ressurreição de liberação, que percebe à sua volta homens, espíritos, coisas, idéias e símbolos, tudo impiedosamente reprimido, debelado pelo cristianismo. Parece que é este pensamente que nortei o poema de Quintana.
Não consta na bibliografia de Quintana haver feito a tradução da tragédia de Kazantzákis, autor de peças famosas como Zorba o Grego, A Odisséia, Cristo Recrucificado, A ùltima Tentação de Cristo, mas certamente deve ter nela se inspirado para escrever o poema abaixo.


POEMAS PARA JULIANO O APÓSTATA

No tempo dos deuses tudo
era simples como eles
e natural e humano
e eles reinavam no mundo.


Mas veio um deus usurpador e único
e tornou o mundo incompreensível
porque o seu reino não era deste mundo.


E até hoje ninguém soube por que ele expulsou
os outros deuses
e ficou reinando sozinho
e fez todos os homens pecarem
- coisas que eles jamais haviam feito antes –
porque pecar com inocência não é pecar...


E os homens conheceram o terror maravilhoso do pecado
-e assim o novo deus lhes trouxe uma volúpia nova.

Mario Quintana in:Apontamentos de História Sobrenatural

Mario Quintana - Foto Liane Neves

sexta-feira

De Mario Quintana: AEROPORTO

Foto: Daniel de Andrade Simões


A partida suave, silenciosa, sem nenhuma bagagem. Meu outro nome, minha outra imagem, não mais o ser terreno...outro, sim outro, que existe escondido nas profundezas da alma e que se revelará, súbito e maravilhosamente.
Bernardo

AEROPORTO

Eu também, eu também hei de estar no
Grande Aeroporto um dia,
Entre os outros viajantes sem bagagem...
Tu não imaginas como é bom, como é repousante
Não ter bagagem nenhuma!
Porém, no auto-falante,
Serei chamado por outro nome que não o meu...
Um nome conhecido apenas pelos anjos.
Mas eu reconhecerei o meu nome
Como reconheço no espelho a minha imagem de cada dia.
E cada chamada será uma súbita, uma maravilhosa revelação.
Menos
Para umas poucas criaturas...
Aquelas criaturas que mereceram ser conhecidas
Ainda neste mundo,
Ainda nesta vida
Pelo seu nome único e verdadeiro!
Mario Quintana in: Preparativos para a Viagem


As fotos acima são obra da lente sensível de Daniel de Andrade Simões postadas em seu excelente blog http://saitica.blogspot.com/

O APOIO FAMILIAR NA FORMAÇÃO DO POETA QUINTANA

Foto Liane Neves

"Ser poeta não é uma maneira de escrever. É uma maneirade ser. O leitor de poesia é também um poeta. Para mim o
poeta não é essa espécie saltitante que chamam de Relações
Públicas. O poeta é Relações Íntimas. Dele com o leitor. E
não é o leitor que descobre o poeta, mas o poeta é que descobre
o leitor, que o revela a si mesmo. O poeta que “me
descobriu” foi o Antônio Nobre do Só. Tínhamos lá em casa
aquela bela edição ilustrada por Antônio Carneiro, e não sei
em que mãos estará agora. A propósito, o jornalista e poeta
Egydio Squeff comprou num sebo um exemplar do Só
onde estava escrito: “Este é o quarto exemplar do Só que eu
compro. Os outros todos me roubaram.” E vinha assinado
em baixo: Álvaro Moreyra. Em meu primeiro livro, A Rua
dos Cataventos, tenho, por dever e devoção, um soneto a ele
dedicado e mais uma referência em outro poema. Isto bastou
para acusarem em mim a influência de Antônio Nobre.
Protesto: não há influência – há confluência, pois a gente só
gosta de quem se parece com a gente. Porém, mais remota do
que a presença de Antônio Nobre, está, entre as recordações
da infância, a voz grave e pausada de meu pai a recitar-me o
episódio do Gigante Adamastor. Aquele ritmo severo ensinava-
me a profundidade da poesia e até hoje me assombra
aquele verso: “Que o menor mal de todos seja a morte”. Em
compensação minha mãe, educada no Uruguai, recitava-me
Espronceda e Becquer: “Ya se van las oscuras golondrinas”.
A par disso aprendi a ler muito cedo, sem quase saber que
estava lendo. E ouso afirmar que as verdadeiras influências
na minha formação foram Camões e O tico-tico.
Não sei se tive infância. Fui um menino doente, por trás de
uma janela. Creio que foi a ele que eu dediquei depois um
soneto de A Rua dos Cataventos. O meu “elemento” era a poesia.
Comecei a ser poeta como um cachorro que cai n’água e
não sabia que sabia nadar. (Sabia.) E o meio fami liar ajudou.
Tanto meu pai e minha mãe, como meus irmãos Milton e
Marie ta, a quem dediquei meu primeiro livro, gostavam de
poesia. Nunca tive a clássica incompreensão da família, de
que tanto se vangloriam alguns poe tas. Aliás, foi meu próprio
irmão Milton, quinze anos mais velho do que eu, quem
me ensinou a metrificar. Como tive a infância muito presa,
devido à precariedade da saúde, quando pude soltei-me no
mundo. Um choque. Fui criado num aviário e solto num potreiro.
Daí talvez a explicação da minha posterior e prolongada
boemia.
Mario Quintana