CADA POEMA É UM FRAGMENTO DO POEMA GERAL QUE QUINTANA VEIO COMPONDO
DURANTE TODA A SUA VIDA

sexta-feira

MARIO QUINTANA, PÉ DE PILÃO...E EU. (Érico Veríssimo)

Edgar Koetz

“Ser poeta é saber ver o mundo como o vêem os anjos, as fadas, e ao mesmo tempo possuir o dom de comunicar a quem o lê o que ele vê e sente”... Erico Veríssimo escreveu esta frase ao se referir a Mario Quintana como um dos cinco maiores poetas do Brasil.
No dia do aniversário do poeta nada melhor que ler este comentário de Érico Veríssimo ao livro PÉ DE PILÃO que Mario publicou em 1975:

Meus amigos, na minha opinião Mário Quintana é hoje em dia um dos cinco maiores poetas de todo o Brasil. Pé de Pilão é um livro que ele escreveu para crianças de várias idades, mas que também pode – e deve! – ser lido por gente grande. Mas... como é que eu entro nessa história toda? Ora, eu não entro. Fico cá de fora da casa do livro, gritando para todos os ouvidos e a todos os ventos que o livro é bonito, divertido, faz a gente rir e querer saber “que é que vem depois...” Os desenhos são muito bons e foram feitos por um famoso artista, Edgar Koetz, , gaucho como o autor da aventura.
Desenho Edgar Koetz

Conheço Mario Quintana faz uns bons quarenta anos. É o sujeito mais “diferente” que tenho encontrado na vida. Antes de tudo é um poeta, e ser poeta não é apenas fazer versos, prosa com rima (carvão – coração...carinho-passarinho...etc...) Ser poeta é saber ver o mundo como o vêem os anjos, as fadas, e ao mesmo tempo possuir o dom de comunicar a quem o lê o que ele vê e sente, em resumo, é ter os olhos para revelar a face secreta das pessoas e das coisas. Mario Quintana é um homem que caminha sozinho, como aquele gato do conto inglês. Bom, vou revelar a vocês um segredo. Descobri outro dia que o Quintana na verdade é um anjo disfarçado de homem. Às vezes quando ele se descuida ao vestir o casaco, suas asas ficam de fora.
(Ah! Como anjo seu nome não é Mario e sim Malaquias.)
O Anjo Quintana - Henrique Rodrigues Pinto

Quintana é também mágico, só que suas mágicas são feitas com palavras. Agora, amigos, prestem atenção. Pé de Pilão foi feito todo em versos, isto é, com frases que tem compasso de música, e com rimas. Quem já souber ler, que leia este conto em voz alta e clara. Se não souber, peça a outra pessoa – mãe, pai, irmão ou irmã mais velha, baba, alguma titia... – que se encarregue disso. E, se durante a leitura por acaso aparecer na história alguma palavra que vocês nunca tenham visto antes, perguntem a quem sabe o que ela significa. É assim que a gente aprende sua própria língua... e a dos estrangeiros.
Pois é. Deixo com vocês o caso do Pé de Pilão, que se vai transformando, de verso em verso, no caso de outros personagens, bem como um rio que vai correndo para o mar e encontrando no caminho pessoas, animais e coisas que o leitor não esperava. Leiam esta história – ou escutem sua leitura – mais de uma vez. E se alguém um dia perguntar quem é Mario Quintana, podem responder sem medo de errar que ele é um dos maiores poetas do nosso Brasil. È isto que pensa quem gosta dele como de um irmão, um tal de
Érico Veríssimo
“Mas a infância, ó poetas, não é mesmo azul?
Quanto a mim, eu venho há muito desconfiando de que a infância é uma invenção do adulto.E o passado, uma invenção do presente. Por isso é tão bonito sempre, ainda quando foi uma lástima... A memória vai tudo colorindo”
Mario Quintana – Caderno H
foto Liane Neves

segunda-feira

104 anos de Mário Quintana

Foto Dulce Helfer

Dia 30 de julho Quintana completaria 104 anos de idade. O poeta de Alegrete que dedicou sua vida à poesia nasceu dia 30 de julho de 1906.

O VELHO

O que eu mais temo não é o Sono Eterno, mas a possibilidade de uma insônia eterna, o que seria uma verdadeira estopada, um suplício sem fim. Porém, em uma das minhas costumeiras noites de sonho acordado, o meu amigo morto me pediu um cigarro, e disse-me:
- Não é como tu pensas, todos nós trabalhamos numa série infinita de escritórios (cada geração de mortos num deles) onde a gente se entrega a um sério trabalho de estatística: tem-se que anotar a chegada de cada um e comunicar-lhe o respectivo número, pois isso de nomes é mera convenção terrena. O pior são os que atrapalham a escrita, morrendo antes do tempo, ou porque se mataram ou por culpa dos médicos, e estes ainda são culpados quando fazem os doentes morrer depois da hora, numa espécie de sobrevida artificial, já que os médicos (diga-se em sua honra) julgam criminosa a prática da eutanásia...uma pena!
- E fora do expediente, o que fazem vocês?
- Bem, a hora do almoço não deixa de ser divertida por causa dos Santos: põem-se a discutis acaloradamente qual deles fez na Terra o maior número de milagres e outras futilidades.
- E nos serões, eles jogam prenda?
- Mais respeito, seu vivo!... Bem! Nos serões eles fazem concursos para ver quem é que diz de cor mais versículos da Bíblia. Uma bobagem! Todo mundo sabe que o único que sabe a Bíblia de cor, tintim por tintim, é o Diabo.
- E Deus ? Me conta como é Ele...
- Ah, o Velho? Desconfio que certa vez O vi...
- Só certa vez? Mas ele não está sempre no céu?
- Bem, tu deves compreender que Ele se preocupa principalmente com os vivos. O Velho está quase sempre e na Terra, lidando com os assuntos humanos. Ele e o Diabo. Sim, os dois vivem a maior parte do tempo na Terra.
- Ora, eu pensava que vocês soubessem mais do que nós... Mas conta lá como foi que desconfiaste de ter visto o Velho?
- Foi a tempos, eu era recém chegado, quando uma tarde apareceu de surpresa no escritório um velhinho muito simpático. Com as mãos nas costas, curvava-se sobre cada mesa, inspecionando o nosso trabalho, por sinal que me atrapalhei, errei uma palavra. Ele bate-me confortadoramente no ombro, como quem diz: “Não foi nada...não foi nada...” Ao retirar-se, já com a mão no trinco da porta, virou-se para nós e abanou: “Até outra vez, se Eu quiser!”.
Mario Quintana in: Poemas para a Infância

REFLEXÕES DO CADERNO H

Foto Liane Neves

Selecionei alguns textos que Quintana publicou no CADERNO H . Cada um deles nos leva a viajar por  muitas reflexões. Boa viagem.
COISAS DO TEMPO
Com o tempo, não vamos ficando sozinhos apenas pelos que se foram: vamos ficando sozinhos uns dos outros.


CUIDADO!
A nossa própria alma apanha-nos em flagrante nos espelhos que olhamos sem querer.


TENHO PENA DA MORTE
Tenho pena da morte – cadela faminta – a que deixamos a carne doente e finalmente os ossos, miseráveis que somos... O resto é indevorável


MAS TUDO É NOVO DEBAIXO DO SOL
Resmungam os velhos – “Não há nada de novo debaixo do sol” – e nem se lembram dos que, neste momento, estão recriando o mundo: os poetas, as artistas, os recém-nascidos.


DA SAUDADE
A saudade que dói mais fundo – e irremediavelmente – é a saudade que temos de nós.


DO CONHECIMENTO
Tudo já está nas enciclopédias e todas dizem as mesmas coisas. Nenhuma delas nos podem dar uma visão inédita do mundo. Por isso é que leio os poetas. Só com os poetas se pode aprender algo novo.

NADA SOBROU
As pessoas sem imaginação podem ter tido as mais imprevistas aventuras, podem ter visitado as terras mais estranhas...Nada lhes ficou. Nada lhes sobrou.  Uma vida não basta apenas ser vivida: também precisa ser sonhada.
Mario Quintana in: CADERNO H

ADMIRAÇÃO DE QUINTANA POR ANTONIO NOBRE

Mario Quintana - Foto Liane Neves

Apesar da morte prematura, e de só ter publicado em vida uma obra, a coletânea Só, António Nobre influenciou os grandes nomes do modernismo português, Nasceu na cidade do Porto em 1867 e faleceu em 1900 de tuberculose. António Nobre referindo-se ao seu único livro publicado em vida, Só (1892), declara que é o livro mais triste que há em Portugal. Apesar disso, e de ser real o sentimento de tristeza e de exílio que perpassa em toda a sua obra, ela aparece marcada pela memória de uma infância feliz no norte de Portugal. Quintana lhe dedica o poema XI de A Rua dos Cataventos:

POEMA XI
Para Antonio Nobre

Contigo fiz, ainda em menininho,
Todo o meu Curso d’Alma... E desde cedo
Aprendi a sofrer devagarinho,
A guardar meu amor como um segredo...

Nas minhas chagas vinhas por o dedo
E eu era o Triste, o Doido, o Pobrezinho!
Amava, à noite, as Luas de bruxedo,
Chamava o Pôr-do-sol de Meu Padrinho...

Anto querido, esse teu livro “Só”
Encheu de luar a minha infância triste!
E ninguém mais há de ficar tão só:

Sofreste a nossa dor, como Jesus...
E nesta Costa d’África surgiste
Para ajudar-nos a levar a Cruz!...

Mario Quintana in: A Rua dos Cataventos

Também no poema abaixo Quintana fala de sua admiração por Antonio Nobre:

POEMA XXIX
Para o Sebastião

Olha! Eu folheio o nosso Livro Santo...
Lembras-te? O “Só”! Que vida, aquela vida...
Vivíamos os dois na Torre de Anto...
Torre tão alta... em pleno azul erguida!...

O resto, que importava?... E no entretanto
Tu deixaste a leitura interrompida...
E em vão, nos versos que tu lias tanto,
Inda procuro a tua voz perdida...


E continuo a ler, nessa ilusão
De que talvez me estejas escutando...
Porém tu dormes... Que dormir profundo!


E os pobres versos do Anto lá se vão...
Um por um... como folhas...despencando...
Sobre as águas tristonhas do Outro Mundo...
Mario Quintana in A Rua dos Cataventos

Talvez nos ajude a entender a admiração de Quintana por Antonio Nobre
lendo um dos sonetos de SÓ:


E a vida foi, e é assim, e não melhora.
Esforço inútil. Tudo é ilusão.
Quantos não cismam nisso mesmo a esta hora
Com uma taça, ou um punhal na mão!

Mas a arte, o lar, um filho, António? Embora!
Quimeras, sonhos, bolas de sabão.
E a tortura do Além e quem lá mora!
Isso é, talvez, minha única aflição.

Toda a dor pode suportar-se, toda!
Mesmo a da noiva morta em plena boda,
Que por mortalha leva...essa que traz.

Mas uma mão: é a dor do pensamento!
Ai quem me dera entrar nesse convento
Que há além da morte e que se chama A PAZ!


Antonio Nobre in: SÓ, 1892

domingo

POEMA XXVIII de A RUA DOS CATAVENTOS

Foto Liane Neves

Novamente os momentos que antecedem a morte surgem na poesia de Quintana. Não como medo, dor ou pesar; “minha alma louca há de sair cantando naquela nuvem...” E os castelos de sonhos e delírios ele os vai construindo ao som do realejo, até os últimos momentos de vida.

Sobre a coberta o lívido marfim
Dos meus dedos compridos, amarelos...
Fora, um realejo toca para mim
Valsas antigas, velhos ritornelos.


E esquecido que vou morrer enfim,
Eu me distraio a construir castelos...
Tão altos sempre...cada vez mais belos!...
Nem D. Quixote teve morte assim...


Mas que ouço? Quem será que está chorando?
Se soubésseis o quanto isto me enfada!
...E eu fico a olhar o céu pela janela...


Minha alma louca há de sair cantando
Naquela nuvem que lá está parada
E mais parece um lindo barco a vela!...

segunda-feira

O MURO

Foto Liane Neves

Quem já não encontrou um amigo de infância e descobre desencantado que daquele menino alegre, brincalhão nada restou.É outro agora construido com esse mesmo material dos anos.
Quintana consegue retratar esse desencanto de forma poética em:

O MURO


E eis que, depois de longos, longos anos, encontrei o amigo.
E vi que ele, com esse mesmo material dos anos, havia construído a sua vida...
No entanto, através daquele muro caiado e sólido, como descobrir agora a voz antiga, o sorriso bom do Emparedado?
Dele só restava o nome, como numa lápide.

O OVO SAPIENS

Mãos do poeta externando pensamentos - foto Liane Neves


"O homem pensa para dentro", não é capaz de enxergar a totalidade, apenas o que está em sua ótica, em sua ideologia. O homem, esse limitado ser, incapaz de, como a árvore, criar inumeráveis folhas, diferentes umas das outras, algumas maiores e mais verdes, outras menores e mais claras. "O homem tem a estreita cabeça fechada", mas Quintana tem esperanças, e acredita no humano quando conclui: "Porém não para sempre meu Deus...não para sempre!"

O OVO SAPIENS


O homem não pode pensar os longos pensamentos
esparsos e dispersos das árvores rumorejando,
das árvores criando inumeravelmente as folhas,
o homem não pode distendê-los irresponsáveis e
belos como as nuvens cardadas pelo vento,
o homem pensa para dentro, e disto orgulha-se,
porque
na sua cabeça cabe o universo
como num ovo.
Na sua cabeça está o universo
- aprisionado -
tal como estava dentro da mão de Deus
antes que seus dedos se abrissem na infinita
distensibilidade da Criação.
O homem tem a pobre, a estreita cabeça
fechada...
(Porém não para sempre, meu Deus...Não para sempre!)

Mario Quintana in: Apontamentos de História Sobrenatural

OS CAMINHOS DE QUINTANA

Foto Liane Neves


Os pés do poeta, que caminha por sua Porto Alegre, certamente maquinando novos versos. Os sapatos gastos e a sua bengala, amiga inseparável de seus últimos anos, retratados poeticamente por Liane Neves. Os poemas abaixo, do dono dos sapatos, dizem tudo desses momentos de caminhadas pela sua "Porto Alegre de incríveis subidas e descidas"
Bernardo

SAPATOS, ETC.
Os sapatos, de preferência velhos e informes, com irregulares placas de barro ou apenas foscos, são muito mais belos que os sapatos lustradinhos, brilhantes que nem parquês. Qual o esteta que não sabe dessas coisas? Nem há de ser por outro motivo que os escultores jamais passam a ferro as calças de suas estátuas. Aqui em Porto Alegre só conheço uma delas, com caprichosos vincos de bronze - é o que logo se nota, porque não parece natural. Natural é a natureza. E a natureza é hippie. Onde já se viu uma árvore ridiculamente simétrica? E qual foi a Brasília que jamais teve esse incomparável imprevisto "ao Deus dará" de uma Itaoca? Bem, nunca falta um leitor para indagar que moralidade a tirar disso tudo... Nenhuma! Eu estava falando de beleza.
(Caderno H)

UM PÉ DEPOIS DO OUTRO
Será do tempo? Será do quê? Os meus sapatos rincham, os meus sapatos cantam de alegria. E eu vou andando e aguardando – cá de cima – que o seu oculto motivo chegue afinal até o meu coração.
(Poemas para a infância)

CALÇADO DE VERÃO
Quando o tempo está seco, os sapatos ficam tão contentes que se põem a cantar.
(Poemas para a infância)

ACHADOS E PERDIDOS
Eu conduzo minha poesia como um burro sem rabo
Nesta minha Porto Alegre de incríveis subidas e descidas.
Suo como o Diabo
E desconfio
Que meus melhores poemas terão caído pelo caminho...
Mas como saber quais são?!
Alguém por acaso os pegará do chão
E vai ficar pensando que o espantoso achado
Pertence a ele...unicamente a ele!
(Velório sem defunto)

FORAM-SE ABRINDO AOS POUCOS AS ESTRELAS

O céu estrelado sempre encantou o ser humano. Quanto já não foi escrito sobre ele. Quanto já não se refletiu sob ele. Encantamento, mistério e poesia. Tudo isso um céu estrelado inspira. Um céu estrelado mostra nossa pequenez diante do universo infinito e uma beleza tão grande que jamais saberemos imitar com toda a tecnologia disponível, nem mesmo nos planetários.
Quintana também se encantou com o céu estrelado e revela seu encantamento neste poema fazendo alusão a um amor findo.
Certamente pode escrever estes versos nas primeiras décadas do século XX, pois a partir daí o céu foi perdendo seu encanto na sua Porto Alegre, como em todas as grandes metrópoles onde a luz artificial ofusca e encobre o brilho das estrelas.
Quintana mesmo mais tarde registraria:
“Cidade grande: dia sem pássaros, noite sem estrelas.”
Bernardo

Foram-se abrindo aos poucos as estrelas...
De margaridas lindo campo em flor!
Tão alto o céu!... Pudesse eu ir colhê-las...
Diria alguma si me tens amor...


Estrelas altas! Que me importam elas?
Tão longe estão!... Tão longe deste mundo...
Trêmulo bando de distantes velas
Ancoradas no azul do céu profundo...


Porém meu coração quase parou,
Lá foram voando as esperanças minhas
Quando uma, dentre aquelas estrelinhas,


Deus a guie! Do céu se despencou...
Com certeza era o amor que tu me tinhas
Que repentinamente se acabou!...


Foto Liane Neves

Mario Quintana in: A Rua dos Cataventos,