CADA POEMA É UM FRAGMENTO DO POEMA GERAL QUE QUINTANA VEIO COMPONDO
DURANTE TODA A SUA VIDA

segunda-feira

FORAM-SE ABRINDO AOS POUCOS AS ESTRELAS

O céu estrelado sempre encantou o ser humano. Quanto já não foi escrito sobre ele. Quanto já não se refletiu sob ele. Encantamento, mistério e poesia. Tudo isso um céu estrelado inspira. Um céu estrelado mostra nossa pequenez diante do universo infinito e uma beleza tão grande que jamais saberemos imitar com toda a tecnologia disponível, nem mesmo nos planetários.
Quintana também se encantou com o céu estrelado e revela seu encantamento neste poema fazendo alusão a um amor findo.
Certamente pode escrever estes versos nas primeiras décadas do século XX, pois a partir daí o céu foi perdendo seu encanto na sua Porto Alegre, como em todas as grandes metrópoles onde a luz artificial ofusca e encobre o brilho das estrelas.
Quintana mesmo mais tarde registraria:
“Cidade grande: dia sem pássaros, noite sem estrelas.”
Bernardo

Foram-se abrindo aos poucos as estrelas...
De margaridas lindo campo em flor!
Tão alto o céu!... Pudesse eu ir colhê-las...
Diria alguma si me tens amor...


Estrelas altas! Que me importam elas?
Tão longe estão!... Tão longe deste mundo...
Trêmulo bando de distantes velas
Ancoradas no azul do céu profundo...


Porém meu coração quase parou,
Lá foram voando as esperanças minhas
Quando uma, dentre aquelas estrelinhas,


Deus a guie! Do céu se despencou...
Com certeza era o amor que tu me tinhas
Que repentinamente se acabou!...


Foto Liane Neves

Mario Quintana in: A Rua dos Cataventos,

domingo

MARIO QUINTANA E LIANE NEVES



Mario Quintana e Liane Neves


O fotografo tem a mesma função do poeta:
Eternizar o momento que passa.
Mario Quintana

Este poema Mario dedicou a fotografa que dele tirou mais de 1000 fotos, eternizando a imagem do poeta. Que seria do mundo sem as imagens. Elas ao “eternizarem o momento”,
cumprem uma função histórica. E Quintana foi perfeito ao comparar as fotos de Liane Neves a poemas, poemas em imagens, porque Liane mais que eternizar o momento em cada foto, o eterniza com a beleza de uma poesia. Não são simples retratos, são retratos que transmitem sentimento. Liane diz que “ para fotografar pessoas é preciso compreendê-las, enxergar dentro delas”, e isso fica muito claro aos admiradores de Quintana, quando percorrem as fotos que Liane fez dele.
Visite o site de Liane Neves, há lá uma galeria de fotos de Mario Quintana além de conhecer melhor esta profissional que trabalha a muitos anos para a Editora Abril e Revista Caras.
Liane Neves, gentilmente permitiu que este blog utiliza-se suas fotos para enriquecê-lo, o que me deixa bastante honrado.

Site de Liane Neves:

http://www.lianeneves.com/

Bernardo

foto Liane Neves

segunda-feira

UM SIMPLES LUGAR COMUM

foto Liane Neves


Um poema que poderia ser escrito hoje. Teria o mesmo sentido e a mesmo impacto.

UM SIMPLES LUGAR COMUM


Todos esses roubos, todos esses assassinatos vêm apenas da fome
Que conturba esse nosso terrível mundo atual.
Ah, como seria bom se rebentasse uma nova Guerra Internacional!
Que fácil uma vida nova em um novo mundo
Para os que ficássemos sobrando do lado de cá!
(Velório sem defunto)

SÔBOLOS RIOS QUE VÃO

O título dado por Quintana a este poema foi tirado do poema de Camões: BABEL E SIÃO. A palavra "sôbolos" utilizada  no poema tem como significado: "sobre o". Eis a estrofe do poema de Camões  em que ela aparece:

Sôbolos rios que vão
por Babilónia, me achei,
Onde sentado chorei
as lembranças de Sião
e quanto nela passei.
Ali, o rio corrente
de meus olhos foi manado,
e, tudo bem comparado,
Babilónia ao mal presente,
Sião ao tempo passado.
[...]
e por aí se desenvolve um longo poema   reflexivo e filosófico, que reflete a precariedade do destino; a transitoriedade da vida; a fugacidade do tempo e da beleza;a desarmonia da vida e distância entre o que se vive e o que se sonha.

Bernardo

Quintana, 1976 -Arquivo Zero Hora


SÔBOLOS RIOS QUE VÃO

Olha, eu talvez seja esse
cadaver desconhecido
que avistam sob uma ponte
com relativo interesse:

Nem sei mais se me matei
se morri por distraido
se me atiraram do cais

--- o mistério é mais profundo,
muito mais...

Vida, sonho de um segundo
---isso é vulgar mas atroz ---
e tenho pena de mim
como a que eu tenho de voz...

e sigo
todo florido
destes nossos velhos sonhos
imortais

---o misterioso tão sem fim ---

eu sigo todo florido
cadáver desconhecido
vogando, lento, à deriva
nos rios todos do mundo!
Mario Quintana in: Esconderijos do Tempo.

O CHALÉ DA PRAÇA-QUINZE


O Chalé da Praça XV é um dos mais tradicionais Bar Chopp Restaurantes de Porto Alegre. Localiza-se em pleno centro da cidade, de frente ao Mercado Público, no meio da praça XV de Novembro.
O primeiro Chalé foi inaugurado em 22 de novembro de 1885, como um quiosque para venda de sorvetes. Foi reformado em 1909 e 1911, e novamente em 1971, após um incêndio. Entrando em processo de degradação, o contrato com o permissionário foi revogado, e em 25 de junho de 1998, o Chalé foi tombado pelo Patrimônio Histórico Municipal, mantendo contudo sua função de restaurante. Constitui uma área de encontros e lazer bastante freqüentada no centro da cidade, graças principalmente à sua localização, às árvores a seu redor, à sua culinária saborosa e à música ao vivo.

O CHALÉ DA PRAÇA-QUINZE
O Chalé fazia parte da gente. Me lembro do Bidu, com o seu perfil perpendicular de cegonho sábio, o longo bico mergulhado não no gargalo do gomil da fábula, não propriamente no canecão de chope, que era de fato o que estava acontecendo, mas no poço artesiano de si mesmo.
Me lembro do Reynaldo, redondo, pacato, tão amável, pacato e redondo que parecia um desses personagens de romance policial que ninguém desconfia que seja o autor do último crime da mala.
Me lembro do Cavalcanti, com a sua cara silenciosa e receptiva de mata-borrão.
Me lembro de mim, silencioso. Sim, a determinada hora éramos todos silenciosos... essa hora em que não é preciso dizer nada, nem mesmo o verso inesquecível de Valéry: “Oh mon bom compagnon de silence!”.
Esse silêncio era apenas quebrado quando chegava o Athos, o Athos centrífugo e pirotécnico. Mas isto não perturbava o nosso silêncio, nem o próprio silêncio do Athos...Pois havia um profundo e misterioso rio de silêncio que corria subterraneamente a todas as nossas palavras.
Era o rio da poesia?
O rio da harmoniosa confusão das almas?
Agora é apenas o rio do tempo que passou.
Mario Quintana - Caderno H

MAIS TEXTOS E IMAGENS DE QUINTANA, VISITE AO LADO A SALA DE IMAGENS.

domingo

O MEU POETA MARIO QUINTANA

fotos de Daniel de Andrade Simões*


TAIS LUSO DE CARVALHO*


Revelo que aprendi a gostar de poesia através de Mário Quintana. E como é delicioso ler seus poemas quando estamos tristes e amargas... Por sermos acarinhadas e envoltas por doces palavras, a tristeza vai se dispersando e a alma vai ficando leve...

Quando leio Quintana, sinto um poeta que entendeu a vida de uma maneira única, que falava da solidão, da bondade e da felicidade com a mesma tranqüilidade que falava na sua ‘doce prometida’ – a morte.
Falava com a sabedoria de quem não apenas passou pela vida; mas deixou que a vida passasse, que rolasse e que esperneasse... E seguia ele com suas musas, com seus sonhos e quem sabe com seus devaneios...
E que delícia são seus poemas que falam de tudo, de uma maneira translúcida, com uma deliciosa ironia e um sarcasmo ferino! Mas assim era ele; dava a impressão de que brincava com a vida.
Já andei esbarrando com muitos escritores nos shoppings, em livrarias, na Feira do Livro e nos eventos culturais de Porto Alegre e olhava ali... olhava lá... Via todos, falei com alguns, mas nunca vi o meu poeta. Nunca pude dizer olha ali o Quintana!!
Mas não sei se ao vê-lo não ficaria muda e parada! Sim, porque quem conheceu o poeta – ao menos pela televisão – lembra de sua ironia refinada e surpreendente. Dava seu recado sem tradução, e a gente que se virasse, que aprendesse a captar o espírito da coisa.
Aprendi com ele a ver as belezas de Porto Alegre, suas ruas antigas, suas ladeiras, a beleza do vento numa tarde de outono. Aprendi a amar a nossa gente. Aprendi como é linda a simplicidade. Aprendi que é na simplicidade que conseguimos tocar todas as almas. E ele conseguiu. E como conseguiu!
Quando leio o seu poema O Mapa , lembro que também passei pelas mesmas esquinas esquisitas, talvez as mesmas moças eu vi... E caminhei pelas mesmas ruas que ele caminhou. Também já pensei, se no dia em que eu for poeira ou folha lavada, também farei parte do nada?
Seus poemas consolam. Aprendi que um dia, quando a morte chegar de mansinho e disser: Anda, vem dormir... Talvez eu já esteja preparada.
Levarei a mágoa de nunca ter visto meu poeta de perto, levarei um ciúme de não ter sido uma de suas musas... Quem não gostaria de inspirar o poeta em suas noites de solidão e talvez de agonia, fazendo parte de seus eternos rabiscos?
Mas depois de ter lido muitos de seus poemas até já perdi minha aflição: que eu passarei e todos passarão, é certo: só não se repetirá o que aconteceu no dia em que Deus o levou: fez dele um PASSARINHO!
Poeminha do Contra

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!
(1978)







*Tais, artista plástica e cronista, escreve em um belíssimo blog sobre os mais variados temas. Admiradora de nosso poeta se propôs a elaborar esta crônica  na semana de aniversário de falecimento de Mario Quintana. Visite seu blog: http://www.taisluso.blogspot.com/
*Daniel de Andrade Simões, fotógrafo, cineasta e escritor, também detentor de um belíssimo e instigante blog onde não só as imagens são um forte mas também a luta dos excluidos, cedeu gentilmente as fotos desta página como várias outras do blog para homenagear o poeta. Visite seu blog: http://www.saitica.blogspot.com/.


terça-feira

ESSE GOSTO DE NUNCA E DE SEMPRE

foto Liane Neves

Dia 5 de maio próximo completar-se-ão 16 anos do falecimento de nosso poeta. Quintana Eterno, como nos anos anteriores trará um texto especial para a data, escrito por Tais Luso de Carvalho e fotos inéditas do poeta, gentilmente cedidas por Daniel de Andrade Simões. Acho que o poema que hoje vos apresento retrata bem claramente o que Quintana representa para nós, seus admiradores: esse gosto do nunca e do sempre. O tempo era uma de suas matérias, como para Drumond, mas não apenas o tempo presente, dos homens presentes, mas também o saudoso tempo da infância, com o silêncio dos velhos corredores e os detalhes guardados na memória, como as veias azuis das mãos do velho pai. No mais, basta apenas ler o poema. Está tudo alí tão claro e cristalino como a luz da lua que iluminava as esquinas noturnas da cidade interiorana por onde o poeta andou, anotando na memória os versos do próximo poema, retirado do perfume da noite, da neblina escura e por vezes misteriosa e do cantar do grilos... ah! os grilos...

Poesia, a minha velha amiga...

Eu entrego-lhe tudo
a saber: o silêncio dos velhos corredores
uma esquina, uma lua
(porque há muitas, muitas luas...)
o primeiro olhar daquela primeira namorada
que ainda ilumina, ó alma,
como uma tênue luz de lamparina, a tua câmara de horrores.
E os grilos? Não estão ouvindo, lá fora, os grilos? Sim, os grilos...
Os grilos são os poetas mortos.
Entrego-lhe grilos aos milhões
um lápis verde
um retrato amarelecido
um velho ovo de costura
os teus pecados
as reivindicações as explicações
menos o dar de ombros e os risos contidos
mas todas as lágrimas que o orgulho estancou na fonte
as explosões de cólera o ranger de dentes
as alegrias agudas até o grito
a dança dos ossos...
Pois bem, às vezes
de tudo quanto lhe entrego, a Poesia faz uma coisa que parece nada tem
 a ver com os ingredientes mas que tem por isso mesmo um sabor total:
eternamente esse gosto de nunca e de sempre

Mario Quintana

Foto Liane neves

sexta-feira

ESCADAS


Neste poema, admirável, encontramos diversos elementos que se unem: imaginação, realidade, passado (memória), presente (ruptura). A pesquisadora Tânia Carvalhal observa que “[...] nas velhas casas, os fantasmas que as habitam reiteram sentimentos que unificam passado e presente, em busca de uma unidade impossível”. Aqui a escada é o ponto de união, ou seria ruptura... entre passado e presente. O passado representado pelas velhas casas de madeira (infância) povoadas por fantasmas. De cima da escada é possível avistar o seu fosso. Mas nada nos diz o poeta da vista de baixo para cima. O poeta não vê mais a perspectiva de subir a escada: “hoje em dia todas as escadas são para descer”. Jeniffer Alves Cuty observa: "Talvez a poética do ato de subir tenha se perdido com a idade que só avança, sendo a mobilidade permitida apenas aos personagens que povoam a memória." Resta ainda um enigma: o abismo que separa o poeta e o leitor. Boa procura.

ESCADAS


Escadas de caracol
Sempre
São misteriosas; conturbam...
Quando as desce, a gente
Se desparafusa...
Quando a gente as sobe
Se parafusa
-o peito
estreito –
o teto descendo
Descendo descendo como nas histórias de imortal horror!
Mas de que jeito,
Mas como pode ser.
Morrer cair rolar por uma escada de parafuso?
Além disso não têm, pelo dizem nenhuma acústica...
Oh! Não há como as escadarias daqueles antigos
edifícios públicos
Para ser assassinado...
Porém não fiques tão eufórico,
- nem tudo são rosas:
Há,
No sonho das velhas casas de cômodos onde moras,
Passos que vêm subindo degrau por degrau em
direção ao teu quarto
E “sabes” que é um fantasma chamejante e fosfóreo
- o corpo todo feito de inconsumíveis labaredas verdes!
O melhor
Mesmo
É fechar os olhos
E pensar numa outra coisa...
Pensa, pensa
- o quanto antes!
Naquelas podres escadas de madeira das casas pobres
-escurinho dos teus primeiros aconchegos...
Pensa em cascatas de risos
Escada a baixo
De crianças deixando a escola...
Pensa na escada do poema
Que tu
comigo
vem descendo
agora...
(Hoje em dia todas as escadas são para descer)
Mas não! este poema não é
Nenhum
Abrigo
Antiaéreo...
Ah, tu querias que eu te embalasse?!
Eu estava , apenas, explorando uns abismos...

Mario Quintana in: Apontamentos de História Sobrenatural

segunda-feira

POEMA MARCIANO NÚMERO DOIS

A Cadeira
Vincent Van Gogh

“Nós os marcianos”, refere-se Quintana aos artistas: poetas, pintores, escultores, enfim, todos aqueles que tem a sensibilidade de ver o singular, o detalhe, o diferente, nas coisas que para a maioria dos mortais passam simplesmente despercebidas.

Nós, os marcianos,
não sabemos nada de nada,
por isso descobrimos coisas
que
de tão visíveis
vocês poderiam até sentar em cima delas...
Não brinco! Não minto! Um dia, um de nós (Van Gogh)
pintou uma cadeira vulgar.
Umas dessas cadeiras de palha trançada...
Mas, quando a viram na tela, foi aquela espantação:
“Uma cadeira!” exclamaram.
“Uma cadeira? Não, a cadeira.
Tudo é singular
Até as Autoridades sabem disso...
Se não, me explica
por que iriam fazer tanta questão
das tuas impressões digitais?!

Mario Quintana in:Esconderijos do Tempo