CADA POEMA É UM FRAGMENTO DO POEMA GERAL QUE QUINTANA VEIO COMPONDO
DURANTE TODA A SUA VIDA

segunda-feira

O SONO


MARIO QUINTANA-FOTO DE LIANE NEVES

No prefácio do livro Preparativos de Viagem EDSON ROSA DA SILVA deixa este comentário para o poema “O Sono”:

Viagem na vida, viagem para a morte, porém sem angustia ou sofrimento [...] No belíssimo poema “O SONO” sono da morte, evidentemente, como já vimos – caminha-se em direção a uma estação luminosa que se encontra no fundo do túnel, indicada por “uma tabuleta ainda toda úmida de orvalho”, o que sugere todo o frescor de uma manhã de renascimento, onde se lê “aurora” – de volta, portanto, “à velha casa em que nasceu”. O Livro PREPARATIVOS DE VIAGEM, trata, pois, da viagem em busca da aurora. Seja de trem, barco ou avião, ou como um passarinho... mas sempre em movimento incessante.
Voa Mario. A Academia dos homens não te recebeu. Ela passará. Mas o Olimpo dos deuses, com certeza, te acolheu de braços abertos, e se diverte com teus versos.
Vai tu passarinho
O SONO
O sono é uma viagem noturna.
O corpo – horizontal – no escuro
E no silêncio do trem avança.
Imperceptivelmente
Avança. Apenas
O relógio picota a passagem do trem.
Sonha a alma deitada em seu ataúde:
Lá longe
Lá fora
(Ela sabe!)
Lá no fundo do túnel
Há uma estação de chegada
- anunciam-na os galos, agora –
Com a sua tabuleta ainda toda úmida de orvalho,
Há uma estação chamada
AURORA.
Mario Quintana in: Preparativos de Viagem

sexta-feira

CONFECIONAL

[...]A Vaca e o Hipogrifo, livro publicado em 1977, que reúne textos vários, editados anteriormente em jornal. Como o Caderno H, é uma seleção de poemas e crônicas ou pequenas histórias tomadas ao acaso devido ao interesse pelo tema, à oportunidade do assunto, à percepção única e característica do poeta que soube, como poucos, explorar o cotidiano e seu outro lado, mais encoberto e menos visível.

[...] os cenários se alternam na poesia de Quintana, mas guardam sempre uma linha comum que organiza o seu imaginário e surge muito cedo na imaginação infantil e permanece na memória do menino que ele foi, como está em...

CONFECIONAL

“Eu fui um menino por trás de uma vidraça – um menino de aquário.
Via o mundo passar como uma tela cinematográfica, mas que repetia sempre as mesmas cenas, as mesmas personagens.
Tudo tão chato que o desenrolar da rua acabava me parecendo apenas em preto-e-branco, como nos filmes daquele tempo.
O colorido todo se refugiava, então, nas ilustrações dos meus livros de histórias, com seus reis hieráticos e belos como os das cartas de jogar.
E suas filhas nas torres altas – inacessíveis princesas.
Com seus cavalos – uns verdadeiros príncipes na elegância e na riqueza dos jaezes.
Seus bravos pajens ( eu queria ser um deles...)
Porém, sobrevivi...
E aqui, do lado de fora, neste mundo em que vivo, como tudo é diferente!. Tudo, ó menino do aquário, é muito diferente do teu sonho...”
Mario Quintana

Obs: O comentário introdutório foi escrito por Tania Franco Carvalhal como introdução para o livro A Vaca e o Hipogrifo, Ed Globo, 3ª. Edição 2006.

segunda-feira

A MULHER NA VISÃO DE QUINTANA

Neste admirável poema Quintana fala da rosa e a relaciona à mulher. Afinal mulheres e rosas tem tanto em comum que não há poeta que não tenha feito essa comparação, e Quintana não deixa por menos em Motivo da Rosa, uma rosa paciente, ardente e pura.

O MOTIVO DA ROSA


A ROSA, bela Infanta das sete saias
E cuja estirpe não lhe rouba, entanto,
O ar de menina, o recato encanto
Da mais humilde de suas aias,
A rosa, essa presença feminina,
Que é toda feita de perfume e alma,
Que tanto excita como tanto acalma,
A rosa... é como estar junto da gente
Um corpo cuja posse se demora
- brutal que o tenhas nesta mesma hora,
Em sua virgindade inexperiente...
Rosa, ó fiel promessa de ventura
Em flor... rosa paciente, ardente, pura!

Mario Quintana
In: Apontamentos de História sobrenatural

quinta-feira

A CIRANDA RODAVA


FOTO DANIEL DE ANDRADE SIMÕES

Mario Quintana tem cinco livros de poemas para a infância que foram publicados no livro “Poesia Completa”. Destes, somente "O Batalhão das Letras" e "Pé de Pilão" são compostos exclusivamente de poemas inéditos, os demais resultam do agrupamento de poemas anteriormente publicados em outros livros, com alguns poucos que ali se editaram pela primeira vez. Poemas para a Infância é composto de 5 livros: Batalhão das Letras (1948), Pé de Pilão (1978), Lili Inventa o Mundo(1983), Sapo Amarelo (1984) e Sapato Furado (1994). Também já vi contestações de que com excessão de “Pé de Pilão” e “Batalhão das letras” os outros livros sejam realmente voltados para a infância. Quem responde a essa questão é o próprio Quintana em “Sapato Furado” onde ele manda um recado pros leitores a partir dos dez anos: “Eu já escrevi o Sapato florido. Como, porém, nesta vida nem tudo são flores, apresento-vos agora o Sapato Furado, que tem grande significação, pois o seu texto foi escolhido exclusivamente pelos leitores a se destina a gurizada a partir dos dez anos...” (QUINTANA, 2005, p. 974).

Ai vai portanto um poema de Quintana destinado ao público que ele mais gostava:

A CIRANDA RODAVA


A ciranda rodava no meio do mundo,
No meio do mundo a ciranda rodava.
E quando a ciranda parava um segundo,
Um grilo, sozinho no mundo cantava...


Dali a três quadras o mundo acabava.
Dali a três quadras, num valo profundo...
Bem junto com a rua o mundo acabava.
Rodava a ciranda no meio do mundo...


E Nosso Senhor era ali que morava,
Por trás das estrelas, cuidando o seu mundo...
E quando a ciranda por fim terminava


E o silêncio, em tudo era mais profundo,
Nosso Senhor esperava ... esperava...
Cofiando as suas barbas de Pedro Segundo.

segunda-feira

ESPELHO MÁGICO I

Livro publicado por Quintana em 1951, Espelho Mágico é de uma riqueza ímpar. São ao todo 61 quadras das quais publico aqui as primeiras cinco:


1. DA OBSERVAÇÃO

Não te irrites, por mais que te fizerem...
Estuda a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio...


2. DO AMIGO

Olha! É como um vaso
De porcelana rara o teu amigo.
Nunca te sirvas dele... Que perigo!
Quebrar-se-ia, acaso...


3. DO ESTILO

Fere de leve a frase... E esquece... Nada
Convém que se repita...
Só em linguagem amorosa agrada
A mesma coisa cem mil vezes dita.


4. DA PREOCUPAÇÃO DE ESCREVER

Escrever... Mas por que? Por vaidade, está visto...
Pura vaidade, escrever!
Pegar da pena... Olhai que graça terá isto,
Se já se sabe tudo o que se vai dizer!...


5. DAS BELAS FRASES

foto Liane Neves

Frases felizes... Frases encantadas...
Ó festa dos ouvidos!
Sempre há tolices muito bem ordenadas...
Como há pacóvios bem vestidos.

quarta-feira

HAVIA


Pintura de Maurício Barbosa
 

Todas foram tão importantes, cada qual com sua característica, com seu modo de ser. A que escutava apenas...não apenas, não apenas. A que cortava suas unhas...carinho. A que " passava os poemas a ferro". Todas em seu momento significaram algo, que foi eternizado neste poema, mesmo aquela que em  algum canto ficou esquecida.
Bernardo

HAVIA
Havia naquele tempo tanta coisa,
Tanta coisa que subiria depois como um balão azul
Quando eu precisasse de um pretexto urgente para não me matar...
Havia
A que passava cuidadosamente os meus poemas a ferro
(e nisso eu vejo agora a maior poesia deles...)
Havia a que sabia fingir que me escutava,
Que parecia beber até, com seus grandes olhos,
Os meus solilóquios
(eram tão chatos que só podiam ser solilóquios mesmo...)
E havia, entre todas,
A Eleita,
A que cortava as unhas da minha mão direita
(agora tenho que recorrer a profissionais...)
E havia, entre as demais,
A que ficou não sei onde esquecida

MARIO QUINTANA In: Baú de Espantos

domingo

NO PRINCÍPIO DO FIM

O Grito - Edvard Munch


O som da locomotiva ao longe, interrompendo o silêncio da noite é uma doce lembrança da infância. O silêncio da noite tinha seus segredos e o som do trem trazia uma nostalgia, um sentimento não sei de que. Em "No Princípio do Fim" tudo nos reporta ao passado provincial, à simplicidade de um mundo que não mais existe.
Bernardo

Há ruídos que não se ouvem mais:
- o grito desgarrado de uma locomotiva na madrugada
- os apitos dos guardas noturnos quadriculando
como um mapa a cidade adormecida
- os barbeiros que faziam cantar no ar as suas tesouras
- a matraca do vendedor de cartuchos
- a gaitinha do afiador de facas
- todos esses ruídos que apenas rompiam o silêncio.
E hoje o que mais se precisa é de silêncios
que interrompam os ruídos
Mas que se há de fazer?
Há muitos – a grande maioria – que já nasceram no barulho. E nem sabem, nem notam, por que as suas mentes são tão atordoadas, seus pensamentos tão confusos. Tanto que, na sua bebedeira auricular, só conseguem entender as frases repetitivas da música Pop. E, se esta nossa “civilização” não arrebentar, acabamos um dia perdendo a fala – para que falar? Para que pensar? Ficaremos apenas no batuque:
Tan!tan!tan!tan!tan!

Mario Quintana
A Vaca e o Hipografo
1977

quinta-feira

O POETA E O ESPELHO

O texto abaixo é parte do prefácio escrito por Tânia Franco Carvalhal para o livro “Mario Quintana - Poesia Completa, 2005, Ed Nova Fronteira.
Professora Titular de Teoria Literária e Literatura Comparada e Professora Emérita da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Mestre em Literaturas da Língua Portuguesa pela UFRGS e Doutora (PhD) em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (1981) foi coordenadora e organizadora de inúmeras obras de Mário Quintana.
BERNARDO

QUINTANA COM TÂNIA CARVALHAL


O POETA NO ESPELHO
Esse estranho que mora no espelho
(e é tão mais velho do que eu) olha-me
De um jeito de quem procura advinhar quem sou.
(O antinarciso, Caderno H)

Entre os vários retratos que Mario pintou de si mesmo estão certamente os que povoam os sonetos inaugurais do livro A RUA DOS CATAVENTOS. Ora é um “pobre menino[...] que envelheceu , um dia, de repente!”(soneto VIII), ora o seu próprio Frankenstein “o belo monstro ingênuo e sem memória”(soneto XXVI) – ou “o Idiota desta Aldeia (soneto XXX), sempre um caminhante “rechinam meus sapatos rua em fora”, como dirá no mesmo soneto XXX cuja figura se esvai na ambição de alcançar “a displicência de um fantasma inglês”... (soneto XXXIII) Essas primeiras configurações o situam em uma posição à margem, adotando certa postura romântica, mais como um observador da vida que passa do que nela envolvido. Por isso busca a infância como paraíso eleito, a cidade antiga de pequenas ruas sossegadas, dos bondes, um mundo que, preservado em certos cantos da cidade provinciana, na verdade não existe mais. Daí a necessidade de criar um espaço próprio, uma espécie de Passargada tal qual a imaginada por Manuel Bandeira, como se lê no soneto V:

“E enquanto o mundo todo se esbarronda
Vivo regendo estranhas contradanças
No meu vago país de Trebizonda...”

Por vezes a sua Passargada será não um país mas uma rua especial, síntese das ruas da infância e daquelas por onde o poeta ainda nem andou mas que imagina, tal como está no poema “A minha rua”, de A VACA E O HIPOGRIFO:

É uma rua que tenho o vício
De nunca entrar, e onde eu nunca entrei,
E que vai dar na Babilônia, eu sei,
Ou nalgum porto fenício...


Se eu lá entrasse, seria Rei,
Ou morreria nalgum suplício...
Crimes que lá cometerei
Não deixariam nenhum indício...


Lá não se pensa, mas se responde
Conforme as rimas que um outro dá.
Exemplo: templo. É o templo onde


O senhor padre me casará
Com alguma filha de algum Visconde
Ou do Marques de Maricá!

segunda-feira

A GUERRA E O DESESPERO





ENCERROU-SE 2009. AQUELA LOUCA CHAMADA ESPERANÇA ( poesia da postagem anterior) JÁ ATERRIZOU NOVAMENTE MENININHA NO PRIMEIRO ANDAR DO ANO QUE SE INICIA. RENASCE A CADA ANO...TEIMOSAMENTE. ESPERAMOS QUE O NOVO ANO SEJA DE PAZ E QUE TODOS OS POVOS, TODAS AS RAÇAS, TODAS AS CLASSES SOCIAIS POSSAM VIVER COM MAIS DIGNIDADE EM UM PLANETA SAUDÁVEL... UM PLANETA AZUL...SEM GUERRAS E INJUSTIÇAS.



A GUERRA E O DESESPERO


As guerras tem aparentemente o fim de destruir o inimigo. O que elas conseguem afinal é destruir parte da humanidade – quando esta é atingida da psicose do suicídio. Isso não quer dizer que cada uma das partes se suicide pessoalmente. Nada de covardias. Para salvar as aparências cada uma delas suicida a outra. Seria ridículo atribuir qualquer idéia de expurgo à Natureza – com N maiúsculo. E, por outro lado, seria humor negro atribuí-lo a insondáveis desígnios da Divina Providência.


Deixemos as maiúsculas em paz. Agora, o último pretexto invocado é o das guerras ideológicas. Muito bonito! Mas quem foi que disse que se trata de idéias? Trata-se de convicções. As quais nada tem a ver com a lógica.


Eis um exemplo das convicções: eu sou gremista, tu és colorado. Ora, duvido que qualquer um de nós descubra alguma razão lógica para isso.


Agora, passando para um domínio mais amplo, universal, vamos procurar um exemplo das idéias.


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Esta linha de pontinhos quer dizer que ainda estou procurando. Em todo o caso, tenho que confessar que usar de idéias para examinar as guerras e as guerrilhas é recorrer a um instrumento inadequado – assim como quem se servisse de um microscópio para distinguir um rinoceronte que já vem vindo a toda pra cima da gente.


- E então, ó homo sapiens, que vais fazer nesta situação desesperada?


-Ora, alistar-me...Toda a opção é um ato de desespero.

Mario Quintana
A Vaca e o Hipografo