CADA POEMA É UM FRAGMENTO DO POEMA GERAL QUE QUINTANA VEIO COMPONDO
DURANTE TODA A SUA VIDA

segunda-feira

O SONO


MARIO QUINTANA-FOTO DE LIANE NEVES

No prefácio do livro Preparativos de Viagem EDSON ROSA DA SILVA deixa este comentário para o poema “O Sono”:

Viagem na vida, viagem para a morte, porém sem angustia ou sofrimento [...] No belíssimo poema “O SONO” sono da morte, evidentemente, como já vimos – caminha-se em direção a uma estação luminosa que se encontra no fundo do túnel, indicada por “uma tabuleta ainda toda úmida de orvalho”, o que sugere todo o frescor de uma manhã de renascimento, onde se lê “aurora” – de volta, portanto, “à velha casa em que nasceu”. O Livro PREPARATIVOS DE VIAGEM, trata, pois, da viagem em busca da aurora. Seja de trem, barco ou avião, ou como um passarinho... mas sempre em movimento incessante.
Voa Mario. A Academia dos homens não te recebeu. Ela passará. Mas o Olimpo dos deuses, com certeza, te acolheu de braços abertos, e se diverte com teus versos.
Vai tu passarinho
O SONO
O sono é uma viagem noturna.
O corpo – horizontal – no escuro
E no silêncio do trem avança.
Imperceptivelmente
Avança. Apenas
O relógio picota a passagem do trem.
Sonha a alma deitada em seu ataúde:
Lá longe
Lá fora
(Ela sabe!)
Lá no fundo do túnel
Há uma estação de chegada
- anunciam-na os galos, agora –
Com a sua tabuleta ainda toda úmida de orvalho,
Há uma estação chamada
AURORA.
Mario Quintana in: Preparativos de Viagem

sexta-feira

CONFECIONAL

[...]A Vaca e o Hipogrifo, livro publicado em 1977, que reúne textos vários, editados anteriormente em jornal. Como o Caderno H, é uma seleção de poemas e crônicas ou pequenas histórias tomadas ao acaso devido ao interesse pelo tema, à oportunidade do assunto, à percepção única e característica do poeta que soube, como poucos, explorar o cotidiano e seu outro lado, mais encoberto e menos visível.

[...] os cenários se alternam na poesia de Quintana, mas guardam sempre uma linha comum que organiza o seu imaginário e surge muito cedo na imaginação infantil e permanece na memória do menino que ele foi, como está em...

CONFECIONAL

“Eu fui um menino por trás de uma vidraça – um menino de aquário.
Via o mundo passar como uma tela cinematográfica, mas que repetia sempre as mesmas cenas, as mesmas personagens.
Tudo tão chato que o desenrolar da rua acabava me parecendo apenas em preto-e-branco, como nos filmes daquele tempo.
O colorido todo se refugiava, então, nas ilustrações dos meus livros de histórias, com seus reis hieráticos e belos como os das cartas de jogar.
E suas filhas nas torres altas – inacessíveis princesas.
Com seus cavalos – uns verdadeiros príncipes na elegância e na riqueza dos jaezes.
Seus bravos pajens ( eu queria ser um deles...)
Porém, sobrevivi...
E aqui, do lado de fora, neste mundo em que vivo, como tudo é diferente!. Tudo, ó menino do aquário, é muito diferente do teu sonho...”
Mario Quintana

Obs: O comentário introdutório foi escrito por Tania Franco Carvalhal como introdução para o livro A Vaca e o Hipogrifo, Ed Globo, 3ª. Edição 2006.

segunda-feira

A MULHER NA VISÃO DE QUINTANA

Neste admirável poema Quintana fala da rosa e a relaciona à mulher. Afinal mulheres e rosas tem tanto em comum que não há poeta que não tenha feito essa comparação, e Quintana não deixa por menos em Motivo da Rosa, uma rosa paciente, ardente e pura.

O MOTIVO DA ROSA


A ROSA, bela Infanta das sete saias
E cuja estirpe não lhe rouba, entanto,
O ar de menina, o recato encanto
Da mais humilde de suas aias,
A rosa, essa presença feminina,
Que é toda feita de perfume e alma,
Que tanto excita como tanto acalma,
A rosa... é como estar junto da gente
Um corpo cuja posse se demora
- brutal que o tenhas nesta mesma hora,
Em sua virgindade inexperiente...
Rosa, ó fiel promessa de ventura
Em flor... rosa paciente, ardente, pura!

Mario Quintana
In: Apontamentos de História sobrenatural

quinta-feira

A CIRANDA RODAVA


FOTO DANIEL DE ANDRADE SIMÕES

Mario Quintana tem cinco livros de poemas para a infância que foram publicados no livro “Poesia Completa”. Destes, somente "O Batalhão das Letras" e "Pé de Pilão" são compostos exclusivamente de poemas inéditos, os demais resultam do agrupamento de poemas anteriormente publicados em outros livros, com alguns poucos que ali se editaram pela primeira vez. Poemas para a Infância é composto de 5 livros: Batalhão das Letras (1948), Pé de Pilão (1978), Lili Inventa o Mundo(1983), Sapo Amarelo (1984) e Sapato Furado (1994). Também já vi contestações de que com excessão de “Pé de Pilão” e “Batalhão das letras” os outros livros sejam realmente voltados para a infância. Quem responde a essa questão é o próprio Quintana em “Sapato Furado” onde ele manda um recado pros leitores a partir dos dez anos: “Eu já escrevi o Sapato florido. Como, porém, nesta vida nem tudo são flores, apresento-vos agora o Sapato Furado, que tem grande significação, pois o seu texto foi escolhido exclusivamente pelos leitores a se destina a gurizada a partir dos dez anos...” (QUINTANA, 2005, p. 974).

Ai vai portanto um poema de Quintana destinado ao público que ele mais gostava:

A CIRANDA RODAVA


A ciranda rodava no meio do mundo,
No meio do mundo a ciranda rodava.
E quando a ciranda parava um segundo,
Um grilo, sozinho no mundo cantava...


Dali a três quadras o mundo acabava.
Dali a três quadras, num valo profundo...
Bem junto com a rua o mundo acabava.
Rodava a ciranda no meio do mundo...


E Nosso Senhor era ali que morava,
Por trás das estrelas, cuidando o seu mundo...
E quando a ciranda por fim terminava


E o silêncio, em tudo era mais profundo,
Nosso Senhor esperava ... esperava...
Cofiando as suas barbas de Pedro Segundo.

segunda-feira

ESPELHO MÁGICO I

Livro publicado por Quintana em 1951, Espelho Mágico é de uma riqueza ímpar. São ao todo 61 quadras das quais publico aqui as primeiras cinco:


1. DA OBSERVAÇÃO

Não te irrites, por mais que te fizerem...
Estuda a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio...


2. DO AMIGO

Olha! É como um vaso
De porcelana rara o teu amigo.
Nunca te sirvas dele... Que perigo!
Quebrar-se-ia, acaso...


3. DO ESTILO

Fere de leve a frase... E esquece... Nada
Convém que se repita...
Só em linguagem amorosa agrada
A mesma coisa cem mil vezes dita.


4. DA PREOCUPAÇÃO DE ESCREVER

Escrever... Mas por que? Por vaidade, está visto...
Pura vaidade, escrever!
Pegar da pena... Olhai que graça terá isto,
Se já se sabe tudo o que se vai dizer!...


5. DAS BELAS FRASES

foto Liane Neves

Frases felizes... Frases encantadas...
Ó festa dos ouvidos!
Sempre há tolices muito bem ordenadas...
Como há pacóvios bem vestidos.

quarta-feira

HAVIA


Pintura de Maurício Barbosa
 

Todas foram tão importantes, cada qual com sua característica, com seu modo de ser. A que escutava apenas...não apenas, não apenas. A que cortava suas unhas...carinho. A que " passava os poemas a ferro". Todas em seu momento significaram algo, que foi eternizado neste poema, mesmo aquela que em  algum canto ficou esquecida.
Bernardo

HAVIA
Havia naquele tempo tanta coisa,
Tanta coisa que subiria depois como um balão azul
Quando eu precisasse de um pretexto urgente para não me matar...
Havia
A que passava cuidadosamente os meus poemas a ferro
(e nisso eu vejo agora a maior poesia deles...)
Havia a que sabia fingir que me escutava,
Que parecia beber até, com seus grandes olhos,
Os meus solilóquios
(eram tão chatos que só podiam ser solilóquios mesmo...)
E havia, entre todas,
A Eleita,
A que cortava as unhas da minha mão direita
(agora tenho que recorrer a profissionais...)
E havia, entre as demais,
A que ficou não sei onde esquecida

MARIO QUINTANA In: Baú de Espantos

domingo

NO PRINCÍPIO DO FIM

O Grito - Edvard Munch


O som da locomotiva ao longe, interrompendo o silêncio da noite é uma doce lembrança da infância. O silêncio da noite tinha seus segredos e o som do trem trazia uma nostalgia, um sentimento não sei de que. Em "No Princípio do Fim" tudo nos reporta ao passado provincial, à simplicidade de um mundo que não mais existe.
Bernardo

Há ruídos que não se ouvem mais:
- o grito desgarrado de uma locomotiva na madrugada
- os apitos dos guardas noturnos quadriculando
como um mapa a cidade adormecida
- os barbeiros que faziam cantar no ar as suas tesouras
- a matraca do vendedor de cartuchos
- a gaitinha do afiador de facas
- todos esses ruídos que apenas rompiam o silêncio.
E hoje o que mais se precisa é de silêncios
que interrompam os ruídos
Mas que se há de fazer?
Há muitos – a grande maioria – que já nasceram no barulho. E nem sabem, nem notam, por que as suas mentes são tão atordoadas, seus pensamentos tão confusos. Tanto que, na sua bebedeira auricular, só conseguem entender as frases repetitivas da música Pop. E, se esta nossa “civilização” não arrebentar, acabamos um dia perdendo a fala – para que falar? Para que pensar? Ficaremos apenas no batuque:
Tan!tan!tan!tan!tan!

Mario Quintana
A Vaca e o Hipografo
1977

quinta-feira

O POETA E O ESPELHO

O texto abaixo é parte do prefácio escrito por Tânia Franco Carvalhal para o livro “Mario Quintana - Poesia Completa, 2005, Ed Nova Fronteira.
Professora Titular de Teoria Literária e Literatura Comparada e Professora Emérita da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Mestre em Literaturas da Língua Portuguesa pela UFRGS e Doutora (PhD) em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (1981) foi coordenadora e organizadora de inúmeras obras de Mário Quintana.
BERNARDO

QUINTANA COM TÂNIA CARVALHAL


O POETA NO ESPELHO
Esse estranho que mora no espelho
(e é tão mais velho do que eu) olha-me
De um jeito de quem procura advinhar quem sou.
(O antinarciso, Caderno H)

Entre os vários retratos que Mario pintou de si mesmo estão certamente os que povoam os sonetos inaugurais do livro A RUA DOS CATAVENTOS. Ora é um “pobre menino[...] que envelheceu , um dia, de repente!”(soneto VIII), ora o seu próprio Frankenstein “o belo monstro ingênuo e sem memória”(soneto XXVI) – ou “o Idiota desta Aldeia (soneto XXX), sempre um caminhante “rechinam meus sapatos rua em fora”, como dirá no mesmo soneto XXX cuja figura se esvai na ambição de alcançar “a displicência de um fantasma inglês”... (soneto XXXIII) Essas primeiras configurações o situam em uma posição à margem, adotando certa postura romântica, mais como um observador da vida que passa do que nela envolvido. Por isso busca a infância como paraíso eleito, a cidade antiga de pequenas ruas sossegadas, dos bondes, um mundo que, preservado em certos cantos da cidade provinciana, na verdade não existe mais. Daí a necessidade de criar um espaço próprio, uma espécie de Passargada tal qual a imaginada por Manuel Bandeira, como se lê no soneto V:

“E enquanto o mundo todo se esbarronda
Vivo regendo estranhas contradanças
No meu vago país de Trebizonda...”

Por vezes a sua Passargada será não um país mas uma rua especial, síntese das ruas da infância e daquelas por onde o poeta ainda nem andou mas que imagina, tal como está no poema “A minha rua”, de A VACA E O HIPOGRIFO:

É uma rua que tenho o vício
De nunca entrar, e onde eu nunca entrei,
E que vai dar na Babilônia, eu sei,
Ou nalgum porto fenício...


Se eu lá entrasse, seria Rei,
Ou morreria nalgum suplício...
Crimes que lá cometerei
Não deixariam nenhum indício...


Lá não se pensa, mas se responde
Conforme as rimas que um outro dá.
Exemplo: templo. É o templo onde


O senhor padre me casará
Com alguma filha de algum Visconde
Ou do Marques de Maricá!

segunda-feira

A GUERRA E O DESESPERO





ENCERROU-SE 2009. AQUELA LOUCA CHAMADA ESPERANÇA ( poesia da postagem anterior) JÁ ATERRIZOU NOVAMENTE MENININHA NO PRIMEIRO ANDAR DO ANO QUE SE INICIA. RENASCE A CADA ANO...TEIMOSAMENTE. ESPERAMOS QUE O NOVO ANO SEJA DE PAZ E QUE TODOS OS POVOS, TODAS AS RAÇAS, TODAS AS CLASSES SOCIAIS POSSAM VIVER COM MAIS DIGNIDADE EM UM PLANETA SAUDÁVEL... UM PLANETA AZUL...SEM GUERRAS E INJUSTIÇAS.



A GUERRA E O DESESPERO


As guerras tem aparentemente o fim de destruir o inimigo. O que elas conseguem afinal é destruir parte da humanidade – quando esta é atingida da psicose do suicídio. Isso não quer dizer que cada uma das partes se suicide pessoalmente. Nada de covardias. Para salvar as aparências cada uma delas suicida a outra. Seria ridículo atribuir qualquer idéia de expurgo à Natureza – com N maiúsculo. E, por outro lado, seria humor negro atribuí-lo a insondáveis desígnios da Divina Providência.


Deixemos as maiúsculas em paz. Agora, o último pretexto invocado é o das guerras ideológicas. Muito bonito! Mas quem foi que disse que se trata de idéias? Trata-se de convicções. As quais nada tem a ver com a lógica.


Eis um exemplo das convicções: eu sou gremista, tu és colorado. Ora, duvido que qualquer um de nós descubra alguma razão lógica para isso.


Agora, passando para um domínio mais amplo, universal, vamos procurar um exemplo das idéias.


...................................................................................................................................................


Esta linha de pontinhos quer dizer que ainda estou procurando. Em todo o caso, tenho que confessar que usar de idéias para examinar as guerras e as guerrilhas é recorrer a um instrumento inadequado – assim como quem se servisse de um microscópio para distinguir um rinoceronte que já vem vindo a toda pra cima da gente.


- E então, ó homo sapiens, que vais fazer nesta situação desesperada?


-Ora, alistar-me...Toda a opção é um ato de desespero.

Mario Quintana
A Vaca e o Hipografo

quarta-feira

2010 - ESPERANÇA - DE MARIO QUINTANA

Mais um ano se encerra. Chegamos novamente ao final do décimo segundo andar. A louca Esperança saltará novamente para reiniciar, tudo de novo, a partir do primeiro andar sua caminhada por mais um ano... renascida...agora e novamente uma menininha. Essa Esperança não desiste? Essa Esperança louca não morre? Sonhos e Esperanças... são os ingredientes de todo início de ano. (É preciso dizer-lhes tudo de novo Quintana.)
Bernardo

ESPERANÇA

MARIO QUINTANA

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...


Texto extraído do livro "Nova Antologia Poética"

segunda-feira

CONTO AZUL

Que dizer de O CONTO AZUL? Ao mesmo tempo irônico... engraçado...comovente...profundo. Este é Mário Quintana que é tudo isso e além de tudo isso... poeta.


A morte é tão antiquada
que sempre entra pela porta da rua
e sobe só pelas escadas.
Mandei pensando nisso fazer uma escada de caracol
para que ela chegasse tonta ao meu quarto
- coisa de rir!
Ela se deixaria então cair na primeira cadeira,
arfando...
Mas quem foi que disse que ela tem cara de caveira?
É uma simpática vovozinha.
Sorrio-lhe do meu leito,
embora me sinta um pouco triste...
porque é bom estar para morrer
da mesma forma que é bom estar numa sala de espera
folheando revistas velhas...
É isto! Folheio essas estampas
de minha memória,
meio desbotadas...
Súbito, um lábio vermelho desenha-se entre elas
como se acabasse de ser traçado a batom!
O resto, é tudo no mesmo tom.
Espio, para variar, o azul do céu lá fora,
para onde estão olhando outros que em breve
terão alta.
As visitas do médico têm sido cada vez mais espaçadas
e mais rápidas.
E sinto que em breve ele se cruzará no caminho com o padre:
“É a sua vez, agora!”
Qual! Isso seria melodramático
que nem novela de tevê...
Na sua cadeira a morte espera, paciente
(ela não é nenhuma assassina).
Ela deveria fazer tricô...
mas para que? Mas para quem?
Agora, uma asa paira no azul.
Paira no azul...
Não atribuas a isso qualquer intenção simbólica:
tudo é tão simples...
Aliás, eu me achava tão longe...
O que sempre salvou a morte (e a vida) da gente
é pensar em outras bobagens...

Mario Quintana, in
A Vaca e o Hipografo
1977

COPENHAGEN E O NINHO DO TUIUIU DE MÁRIO QUINTANA

Tuiuiu em seu ninho

Em tempos de Conferencia Mundial sobre o Clima, que se realiza em Copenhagen – a COP 15 - interessante lembrar do livro: ÁGUA – OS ÚLTIMOS TEXTOS DE MARIO QUINTANA -, publicado em 2001, organizado por Helena Quintana de Oliveira e Eduardo San Martin. São os últimos textos aprovados pelo autor para publicação editados postumamente.


Já foram postados aqui, anteriormente, alguns poemas do livro Água. O texto a seguir mostra a visão de Mario com relação aos bens naturais do planeta. Então vamos a ele:

NINHO DE TUIUIÚ NAS MARGENS DO RIO PARAGUAI


Dizem que a história é a mestre da vida. Mas como é que seus protagonistas incorrem sempre nos mesmos erros? Destruição. Fome. Guerra. Parece que não adiantou em nada os exemplos das reprovações anteriores. Que rede de segurança, pensamos nós, cheios de esperança, que rede de segurança nos aparará?


Quando a água desaparecer, que será do homem, que será das coisas, dos verdes e bichos? Que será de Deus?
Nós devemos ir movendo as peças, sem esquecer que, embora as partidas pareçam variar ao infinito, o movimento de cada peça é único e as regras do jogo são imutáveis.
Terra, te proteja o Homem conservando sempre:
O mais puro cristal das tuas fontes!
O verde único de tuas folhas.
O ninho do Tuiuiú no Pantanal...

Mário Quintana
ÁGUA, 2001

Quintana Cidadão Honorário de Porto Alegre 1967

POEMINHA SENTIMENTAL


O POEMINHA SENTIMENTAL compõem um quadro cotidiano bem conhecido: os pássaros que vem pousar nos fios da cidade. O inesperado é que o “fio telegráfico” é a metáfora do amor e as andorinhas, as mulheres que passaram em sua vida: andorinhas que chegam e se vão, andorinhas que cantam, mas a última não cantou, “ limitou-se a fazer cocô/ no meu pobre fio da vida!”, o “fio” recupera aqui o sentido clássico de “existência”. Apesar do mote jocoso, o fecho retoma a idéia do grande amor: “No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:/ As andorinhas é que mudam.”.


O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.

Mario Quintana
Preparativos de Viagem, 1987

Quintana aos 34 anos

quinta-feira

O ESPÍRITO MILITAR NO POETA MARIO QUINTANA

Pouco conhecidas e divulgadas são as ligações do poeta Mário Quintana com a vida militar e a influência desta em seu espírito e em sua vida.




Ele era neto do Capitão Médico Cândido Manoel de Oliveira Quintana, herói da Retirada de Laguna, na Guerra do Paraguai, e chefe do Serviço de Saúde da tropa que participou daquela épica operação militar. Ele e o Capitão Médico Dr. Manoel de Aragão Gesteira, ao lado do qual foram depositados seus restos mortais no Monumento aos Heróis de Laguna e Dourados, na Praia Vermelha, no Rio, foram os dois heróis que resistiram até o fim da Retirada, dos 12 médicos que iniciaram aquela operação militar, imortalizada internacionalmente, em francês, na pena de Alfredo de Taunay.
Terminada a Guerra, o Capitão Manoel Quintana chegou em Alegrete incorporado ao 3º Regimento de Cavalaria, Unidade Militar que, terminada a Guerra do Paraguai, lá permaneceu até 1876 e que, por transformações, fusões e denominações posteriores, aquartelado em Jaguarão, resultou no atual Regimento Osório, de Porto Alegre. O Dr. Quintana passou a residir e a trabalhar na Enfermaria Militar de Alegrete, ali vivendo até falecer, onde deixou sua descendência e, nela, o hoje seu neto famoso Mário Quintana.
Mário Quintana nasceu em 1906, cerca de 18 anos depois do falecimento de seu heróico avô. E muito aprendeu sobre o avô com o seu pai farmacêutico, que também o alfabetizou usando como cartilha o jornal Correio do Povo.
E foi influenciado pelas histórias de seu heróico avô na Retirada da Laguna, na Guerra do Paraguai, e mais as da Revolução de 93 em Alegrete, como a Batalha de Inhanduí e a tomada e incêndio da ponte do Ibirapuitã. Nesta época, dos 13 aos 19 anos, de 1919 ao início de 1924, adolescente, o poeta Mário Quintana cursou, como interno contribuinte, o Colégio Militar de Porto Alegre, no Casarão da Várzea.
Foi no Colégio Militar de Porto Alegre que o poeta iniciou sua carreira literária como colaborador de sua histórica revista Hyloea.
E no Colégio Militar de Porto Alegre ficaram os seguintes registros burocráticos de sua passagem por ali, em sua adolescência, segundo dados fornecidos pelo Museu Casarão da Várzea, através do citado Cel Caminha, professor de História daquele Colégio Militar.
“Em 1º de abril de 1919, satisfeitas as exigências regulamentares Mário Miranda Quintana foi incluído no Colégio Militar de Porto Alegre como aluno interno contribuinte e classificado no 1º ano. Em Dezembro nos exames finais foi aprovado plenamente: Com grau 8 em Francês, grau 7 em Português, grau 6 em Aritmética, e simplesmente com grau 5 em Geografia e Desenho, tudo do primeiro ano. Nos exames práticos foi aprovado plenamente com grau 7 em Ginástica (hoje Educação Física) e simplesmente com grau 4 em Infantaria. Em 1º de abril de 1920, foi transferido da 1ªCompanhia para a 2,ª por conveniência do serviço. Em 20 de abril foi promovido a cabo de Esquadra de Infantaria, para o Batalhão Colegial. Em dezembro , nos exames finais foi reprovado em Desenho e aprovado simplesmente com grau 4 em Português e Aritmética e Geografia . Em 1921 nos exames de 2ª época foi reprovado em Desenho. Em setembro, a pedido de seu pai Celso de Oliveira Quintana foi desligado do Colégio Militar. Em abril de 1922 foi reencluido como aluno interno contribuinte. Em dezembro, nos exames finais foi reprovado em Álgebra e Geografia e aprovado simplesmente com grau 4 em Aritmética e plenamente com grau 7 em Português e com grau 8 em Francês. Em março de 1923 nos exames de 2ª época foi reprovado em Álgebra e aprovado simplesmente com grau 5 em Geografia. Em dezembro, nos exames finais foi reprovado em Álgebra do 3º ano. Em 28 de janeiro de 1924 foi desligado do Colégio Militar de Porto Alegre, conforme pedido de seu correspondente.”
Foram seus contemporâneos de 1919 a 1923 no Colégio Militar dois presidentes da República, Ernesto Geisel e Emílio Garrastazu Médici, e um vice-presidente, Adalberto Pereira dos Santos.
Um pouco antes de ele ingressar no Colégio Militar ali se formaram os futuros presidentes Arthur da Costa e Silva e Humberto de Alencar Castelo Branco. O presidente Eurico Gaspar Dutra estudou um ano no Casarão da Várzea, ao tempo em que ali funcionou a Escola de Guerra
Mário Quintana foi obrigado por motivos de saúde a desligar-se do Colégio Militar em janeiro de 1924. Em 1930 lhe surgiu nova oportunidade de retornar a vida militar. Apresentou-se como voluntário ao 7º Batalhão de Caçadores, atual 7º Batalhão de Infantaria Motorizado - Batalhão Gomes Carneiro, Santa Maria, que se encontrava em Porto Alegre em 3 de outubro de 1930, atendendo ao apelo “O Rio Grande de pé pelo Brasil!”. E seguiu para o Rio de Janeiro, via ferroviária, para apoiar a derrubada do presidente Whashington Luiz e a consolidação da Revolução de 30 na capital federal.
Na capital permaneceu por cerca de 6 meses como soldado da Revolução de 30, retornando em 1931, onde retomou, em Porto Alegre, a sua consagrada carreira de poeta.
Em 1978 ele retornou ao Rio de Janeiro representando a sua família nos atos de translado de seu heróico avô de Alegrete para o Rio de Janeiro onde nascera, e para ser colocado, com pompa e circunstância, no Monumento dos Heróis da Laguna, na Praça General Tibúrcio na Praia Vermelha.
Na ocasião fez entrega às autoridades que organizaram a cerimônia, de toda a documentação militar do avô, conservada com orgulho por sua descendência.
E o poeta acompanhou todo o cerimonial de translado desde Alegrete, passando por Porto Alegre e até o Rio de Janeiro, a bordo de um avião da FAB.



Na foto, da esquerda para a direita, o terceiro é o poeta Mário Quintana, representando a sua família no translado de seu avô, herói da Retirada da Laguna, cuja urna com seus restos mortais estão à frente do Gen Ex José Pinto, presidente da cerimônia e comandante do I Exército, atual comando Militar do Leste e ex presidente do Clube Militar.
E contou-nos o acadêmico General Lyra Tavares que ele recebeu o poeta com imensa satisfação. E que na ocasião sua senhora, filha de Cachoeira do Sul, preparou-se para receber o poeta com um café e um prato de sonhos, tradição gaúcha. E ao passar o prato de sonhos ao poeta ele saiu com esta tirada: - “Muito obrigado minha senhora. Como eu, um poeta, poderia comer sonhos? Seria um sacrilégio?”

segunda-feira

A CASA GRANDE


Os esconderijos da casa grande e assustadora continuam sendo desvendados pelo menino Quintana.

...mas eu queria ter nascido numa dessas casas de meia-água
com o telhado descendo logo após as fachadas
só de porta e janela
e que tinham, no século, o carinhoso apelido
de cachorros sentados.
Porém nasci em um solar de leões.
(...escadarias, corredores, sótãos, porões, tudo isso...)
Não pude ser um menino de rua...
Aliás, a casa me assustava mais do que o mundo, lá fora.
A casa era maior do que o mundo!
E até hoje
- mesmo depois que destruíram a casa grande –
até hoje eu vivo explorando os seus esconderijos...

Mario Quintana

quarta-feira

QUINTANA SONHAVA EM ALFABETIZAR FUTUROS POETAS


Este Blog com sua pretensão de apresentar Mario Quintana em todas as suas facetas não poderia esquecer a literatura infantil. Foi grande, imensa, a contribuição de Quintana nessa área.


O Batalhão das Letras é num primeiro olhar uma cartilha. Mas o nosso poeta não se propôs a simplesmente criar uma cartilha, sua visão foi muito mais além. Que tal alfabetizar e ao mesmo tempo formar poetinhas? Sim esse é o objetivo de “O Batalhão das Letras” apresentar o alfabeto propondo às crianças que aprendam a ler, escrever e fazer poesia e para fazer poesia nada como ser alfabetizado com poesias.Temos que ter em mente que a obra foi publicada em 1948, quando o ensino ainda era terrivelmente tradicional. Em 1948 também começou a ser usada a cartilha da educadora Branca Alves de Lima, “Caminho Suave” que ficou quase 50 anos no catálogo do Mec. Basta comparar “Caminho Suave” com “O Batalhão das Letras” para percebermos a tremenda distância entre as duas. Se Caminho Suave era revolucionária, O Batalhão das Letras era em dobro. Alfabetizar por versos, aprendendo as primeiras rimas junto com as primeiras letras, as primeiras construções poéticas, era duplamente revolucionário. Essa é mais uma prova da grandeza de nosso poeta, de sua visão pedagógica e de seu amor pela poesia.

Abaixo algumas letras apresentadas na obra “O Batalhão das Letras” lançado em 1948 pela Editora Globo. Para ver as imagens ampliadas e ler os poeminhas clique sobre cada uma delas.














segunda-feira

HISTÓRIA MÁGICA


Era um perfume tão pesado que os corpos se amolentavam, rendidos, e uma névoa de banho de vapor esfumava o contorno das flores de pétalas abertas, dos frutos enormes, que pareciam prestes a cair. Não se sabiam se eram cobras dormentes, ou lianas semi-vivas, aquelas coisas pendidas das galharias... Pássaros não se viam, nem sáurios furtivos, nem grandes ou pequenos quadrúpedes. Mas gritos misteriosos, que a gente não podia identificar, feriam de quando em quando os ouvidos, acordando-os do torpor em que os adormecia o zumbir ininterruptp dos insetos. Os pés chapinhavam, como em barro, no musgo verdoengo que tapetava o chão.
Caminháva-mos, arquejávamos, sem dizer palavra. O nosso guia e rei seguia à frente, invisível, sua presença acusando-se (nas horas de maior angustia, parecia) por um agitar frenético de guizos. Um dia, não mais o escutamos e cada qual, com um ingrato alívio, seguiu seu próprio caminho. Cada qual se extraviou, sentou-se, enfim, para morrer.
E cada um morria pensando invejosamente que os outros houvessem encontrado alguma coisa, uma fonte de virtudes nunca imaginadas, uma princesa, um mágico, algum Deus ainda bárbaro ou no seu mais adiantado estágio, mas sempre um Deus, mas sempre alguma coisa. Pensava em tudo isto, sim... e sentia, no entanto, um monstruoso orgulho de morrer sozinho...

Mario Quintana
Antologia Poética
Pág 120

terça-feira

QUANDO EU MORRER

Mais um poema da obra A Rua dos Cataventos publicado em 1940. Mais um poema em que Quintana imagina-se morto e se diverte com a idéia de ter toda a eternidade para consertar alguns poemas tortos.


QUANDO EU MORRER

Quando eu morrer e no frescor da lua
Da casa nova me quedar a sós,
Deixai-me em paz na minha quieta rua...
Nada mais quero com nenhum de vós!


Quero é ficar com alguns poemas tortos
Que andei tentando endireitar em vão...
Que linda a Eternidade, amigos mortos,
Para as torturas lentas da expressão!...


Eu levarei comigo as madrugadas,
Por-de-sóis, algum luar, asas em bando,
Mais o rir das primeiras namoradas.


E um dia a morte há de fitar com espanto
Os fios da vida que eu urdi, cantando,
Na orla negra de seu negro manto.

In: A Rua dos Cataventos

FOTO DANIEL ANDRADE SIMÕES

segunda-feira

ESSES INQUIETOS VENTOS


Esses inquietos ventos andarilhos
Passam e dizem: “Vamos caminhar.
Nós conhecemos misteriosos trilhos,
Bosques antigos onde é bom cismar...


E há tantas virgens a sonhar idílios!
E tu não vieste, sob a paz lunar
Beijar os seus entrefechados cílios
E as dolorosas bocas a ofegar...”


Os ventos vêm e batem-me a janela:
“A tua vida: Que fizeste dela?”
E chaga a morte: “Anda! Vem dormir...


Faz tanto frio...e é tão macia a cama...”
Mas toda a longa noite ainda hei de ouvir
A inquieta voz dos ventos que me chama!...

Mario Quintana

sexta-feira

PORQUE AMAMOS OS POETAS?


Esta postagem é a de número 233. São 233 poemas, crônicas, textos e curiosidades sobre Mario Quintana postados neste blog em mais de 1 ano de existência. Ao preparar-me para fazer esta postagem me pus a refletir no valor e na importância que os poetas tem para nós e no carinho e admiração que tenho por Quintana, carinho que só cresceu desde o momento em que decidi construir este blog. De repente decidi que era hora, não de Quintana escrever para mim mais um poema, mais uma crônica, mas de eu dedicar a ele um poema por tudo que ele deixou para nós. Assim meu caro Poeta, dedico a você estes versos, evidentemente não são escritos por um poeta como tu, mas palavras sinceras de um admirador de todos os poetas do mundo e em particular...seu admirador.

PORQUE AMAMOS OS POETAS?

Quem pinta o céu com palavras azuis e infinitas
E descreve o movimento e forma das nuvens?
Quem revela o encanto das flores
Como se as desenha-se com letras
E nos faz sentir seu perfume?

Quem constrói sentimentos com os tijolos do alfabeto,
Letra por letra... lágrima por lágrima,
Exprimindo a dor e o sorriso?
A agitação do dia e o romantismo da noite?
A dor do nascimento e o alívio da morte?

Apenas os poetas constroem com suas letras mágicas.
Retratistas do mundo... do homem,
Da luz e das trevas.
Nos demonstram a cada poema
A força incrível das palavras.
Bernardo