CADA POEMA É UM FRAGMENTO DO POEMA GERAL QUE QUINTANA VEIO COMPONDO
DURANTE TODA A SUA VIDA

quinta-feira

A CIRANDA RODAVA


FOTO DANIEL DE ANDRADE SIMÕES

Mario Quintana tem cinco livros de poemas para a infância que foram publicados no livro “Poesia Completa”. Destes, somente "O Batalhão das Letras" e "Pé de Pilão" são compostos exclusivamente de poemas inéditos, os demais resultam do agrupamento de poemas anteriormente publicados em outros livros, com alguns poucos que ali se editaram pela primeira vez. Poemas para a Infância é composto de 5 livros: Batalhão das Letras (1948), Pé de Pilão (1978), Lili Inventa o Mundo(1983), Sapo Amarelo (1984) e Sapato Furado (1994). Também já vi contestações de que com excessão de “Pé de Pilão” e “Batalhão das letras” os outros livros sejam realmente voltados para a infância. Quem responde a essa questão é o próprio Quintana em “Sapato Furado” onde ele manda um recado pros leitores a partir dos dez anos: “Eu já escrevi o Sapato florido. Como, porém, nesta vida nem tudo são flores, apresento-vos agora o Sapato Furado, que tem grande significação, pois o seu texto foi escolhido exclusivamente pelos leitores a se destina a gurizada a partir dos dez anos...” (QUINTANA, 2005, p. 974).

Ai vai portanto um poema de Quintana destinado ao público que ele mais gostava:

A CIRANDA RODAVA


A ciranda rodava no meio do mundo,
No meio do mundo a ciranda rodava.
E quando a ciranda parava um segundo,
Um grilo, sozinho no mundo cantava...


Dali a três quadras o mundo acabava.
Dali a três quadras, num valo profundo...
Bem junto com a rua o mundo acabava.
Rodava a ciranda no meio do mundo...


E Nosso Senhor era ali que morava,
Por trás das estrelas, cuidando o seu mundo...
E quando a ciranda por fim terminava


E o silêncio, em tudo era mais profundo,
Nosso Senhor esperava ... esperava...
Cofiando as suas barbas de Pedro Segundo.

segunda-feira

ESPELHO MÁGICO I

Livro publicado por Quintana em 1951, Espelho Mágico é de uma riqueza ímpar. São ao todo 61 quadras das quais publico aqui as primeiras cinco:


1. DA OBSERVAÇÃO

Não te irrites, por mais que te fizerem...
Estuda a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio...


2. DO AMIGO

Olha! É como um vaso
De porcelana rara o teu amigo.
Nunca te sirvas dele... Que perigo!
Quebrar-se-ia, acaso...


3. DO ESTILO

Fere de leve a frase... E esquece... Nada
Convém que se repita...
Só em linguagem amorosa agrada
A mesma coisa cem mil vezes dita.


4. DA PREOCUPAÇÃO DE ESCREVER

Escrever... Mas por que? Por vaidade, está visto...
Pura vaidade, escrever!
Pegar da pena... Olhai que graça terá isto,
Se já se sabe tudo o que se vai dizer!...


5. DAS BELAS FRASES

foto Liane Neves

Frases felizes... Frases encantadas...
Ó festa dos ouvidos!
Sempre há tolices muito bem ordenadas...
Como há pacóvios bem vestidos.

quarta-feira

HAVIA


Pintura de Maurício Barbosa
 

Todas foram tão importantes, cada qual com sua característica, com seu modo de ser. A que escutava apenas...não apenas, não apenas. A que cortava suas unhas...carinho. A que " passava os poemas a ferro". Todas em seu momento significaram algo, que foi eternizado neste poema, mesmo aquela que em  algum canto ficou esquecida.
Bernardo

HAVIA
Havia naquele tempo tanta coisa,
Tanta coisa que subiria depois como um balão azul
Quando eu precisasse de um pretexto urgente para não me matar...
Havia
A que passava cuidadosamente os meus poemas a ferro
(e nisso eu vejo agora a maior poesia deles...)
Havia a que sabia fingir que me escutava,
Que parecia beber até, com seus grandes olhos,
Os meus solilóquios
(eram tão chatos que só podiam ser solilóquios mesmo...)
E havia, entre todas,
A Eleita,
A que cortava as unhas da minha mão direita
(agora tenho que recorrer a profissionais...)
E havia, entre as demais,
A que ficou não sei onde esquecida

MARIO QUINTANA In: Baú de Espantos

domingo

NO PRINCÍPIO DO FIM

O Grito - Edvard Munch


O som da locomotiva ao longe, interrompendo o silêncio da noite é uma doce lembrança da infância. O silêncio da noite tinha seus segredos e o som do trem trazia uma nostalgia, um sentimento não sei de que. Em "No Princípio do Fim" tudo nos reporta ao passado provincial, à simplicidade de um mundo que não mais existe.
Bernardo

Há ruídos que não se ouvem mais:
- o grito desgarrado de uma locomotiva na madrugada
- os apitos dos guardas noturnos quadriculando
como um mapa a cidade adormecida
- os barbeiros que faziam cantar no ar as suas tesouras
- a matraca do vendedor de cartuchos
- a gaitinha do afiador de facas
- todos esses ruídos que apenas rompiam o silêncio.
E hoje o que mais se precisa é de silêncios
que interrompam os ruídos
Mas que se há de fazer?
Há muitos – a grande maioria – que já nasceram no barulho. E nem sabem, nem notam, por que as suas mentes são tão atordoadas, seus pensamentos tão confusos. Tanto que, na sua bebedeira auricular, só conseguem entender as frases repetitivas da música Pop. E, se esta nossa “civilização” não arrebentar, acabamos um dia perdendo a fala – para que falar? Para que pensar? Ficaremos apenas no batuque:
Tan!tan!tan!tan!tan!

Mario Quintana
A Vaca e o Hipografo
1977

quinta-feira

O POETA E O ESPELHO

O texto abaixo é parte do prefácio escrito por Tânia Franco Carvalhal para o livro “Mario Quintana - Poesia Completa, 2005, Ed Nova Fronteira.
Professora Titular de Teoria Literária e Literatura Comparada e Professora Emérita da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Mestre em Literaturas da Língua Portuguesa pela UFRGS e Doutora (PhD) em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (1981) foi coordenadora e organizadora de inúmeras obras de Mário Quintana.
BERNARDO

QUINTANA COM TÂNIA CARVALHAL


O POETA NO ESPELHO
Esse estranho que mora no espelho
(e é tão mais velho do que eu) olha-me
De um jeito de quem procura advinhar quem sou.
(O antinarciso, Caderno H)

Entre os vários retratos que Mario pintou de si mesmo estão certamente os que povoam os sonetos inaugurais do livro A RUA DOS CATAVENTOS. Ora é um “pobre menino[...] que envelheceu , um dia, de repente!”(soneto VIII), ora o seu próprio Frankenstein “o belo monstro ingênuo e sem memória”(soneto XXVI) – ou “o Idiota desta Aldeia (soneto XXX), sempre um caminhante “rechinam meus sapatos rua em fora”, como dirá no mesmo soneto XXX cuja figura se esvai na ambição de alcançar “a displicência de um fantasma inglês”... (soneto XXXIII) Essas primeiras configurações o situam em uma posição à margem, adotando certa postura romântica, mais como um observador da vida que passa do que nela envolvido. Por isso busca a infância como paraíso eleito, a cidade antiga de pequenas ruas sossegadas, dos bondes, um mundo que, preservado em certos cantos da cidade provinciana, na verdade não existe mais. Daí a necessidade de criar um espaço próprio, uma espécie de Passargada tal qual a imaginada por Manuel Bandeira, como se lê no soneto V:

“E enquanto o mundo todo se esbarronda
Vivo regendo estranhas contradanças
No meu vago país de Trebizonda...”

Por vezes a sua Passargada será não um país mas uma rua especial, síntese das ruas da infância e daquelas por onde o poeta ainda nem andou mas que imagina, tal como está no poema “A minha rua”, de A VACA E O HIPOGRIFO:

É uma rua que tenho o vício
De nunca entrar, e onde eu nunca entrei,
E que vai dar na Babilônia, eu sei,
Ou nalgum porto fenício...


Se eu lá entrasse, seria Rei,
Ou morreria nalgum suplício...
Crimes que lá cometerei
Não deixariam nenhum indício...


Lá não se pensa, mas se responde
Conforme as rimas que um outro dá.
Exemplo: templo. É o templo onde


O senhor padre me casará
Com alguma filha de algum Visconde
Ou do Marques de Maricá!

segunda-feira

A GUERRA E O DESESPERO





ENCERROU-SE 2009. AQUELA LOUCA CHAMADA ESPERANÇA ( poesia da postagem anterior) JÁ ATERRIZOU NOVAMENTE MENININHA NO PRIMEIRO ANDAR DO ANO QUE SE INICIA. RENASCE A CADA ANO...TEIMOSAMENTE. ESPERAMOS QUE O NOVO ANO SEJA DE PAZ E QUE TODOS OS POVOS, TODAS AS RAÇAS, TODAS AS CLASSES SOCIAIS POSSAM VIVER COM MAIS DIGNIDADE EM UM PLANETA SAUDÁVEL... UM PLANETA AZUL...SEM GUERRAS E INJUSTIÇAS.



A GUERRA E O DESESPERO


As guerras tem aparentemente o fim de destruir o inimigo. O que elas conseguem afinal é destruir parte da humanidade – quando esta é atingida da psicose do suicídio. Isso não quer dizer que cada uma das partes se suicide pessoalmente. Nada de covardias. Para salvar as aparências cada uma delas suicida a outra. Seria ridículo atribuir qualquer idéia de expurgo à Natureza – com N maiúsculo. E, por outro lado, seria humor negro atribuí-lo a insondáveis desígnios da Divina Providência.


Deixemos as maiúsculas em paz. Agora, o último pretexto invocado é o das guerras ideológicas. Muito bonito! Mas quem foi que disse que se trata de idéias? Trata-se de convicções. As quais nada tem a ver com a lógica.


Eis um exemplo das convicções: eu sou gremista, tu és colorado. Ora, duvido que qualquer um de nós descubra alguma razão lógica para isso.


Agora, passando para um domínio mais amplo, universal, vamos procurar um exemplo das idéias.


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Esta linha de pontinhos quer dizer que ainda estou procurando. Em todo o caso, tenho que confessar que usar de idéias para examinar as guerras e as guerrilhas é recorrer a um instrumento inadequado – assim como quem se servisse de um microscópio para distinguir um rinoceronte que já vem vindo a toda pra cima da gente.


- E então, ó homo sapiens, que vais fazer nesta situação desesperada?


-Ora, alistar-me...Toda a opção é um ato de desespero.

Mario Quintana
A Vaca e o Hipografo

quarta-feira

2010 - ESPERANÇA - DE MARIO QUINTANA

Mais um ano se encerra. Chegamos novamente ao final do décimo segundo andar. A louca Esperança saltará novamente para reiniciar, tudo de novo, a partir do primeiro andar sua caminhada por mais um ano... renascida...agora e novamente uma menininha. Essa Esperança não desiste? Essa Esperança louca não morre? Sonhos e Esperanças... são os ingredientes de todo início de ano. (É preciso dizer-lhes tudo de novo Quintana.)
Bernardo

ESPERANÇA

MARIO QUINTANA

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...


Texto extraído do livro "Nova Antologia Poética"

segunda-feira

CONTO AZUL

Que dizer de O CONTO AZUL? Ao mesmo tempo irônico... engraçado...comovente...profundo. Este é Mário Quintana que é tudo isso e além de tudo isso... poeta.


A morte é tão antiquada
que sempre entra pela porta da rua
e sobe só pelas escadas.
Mandei pensando nisso fazer uma escada de caracol
para que ela chegasse tonta ao meu quarto
- coisa de rir!
Ela se deixaria então cair na primeira cadeira,
arfando...
Mas quem foi que disse que ela tem cara de caveira?
É uma simpática vovozinha.
Sorrio-lhe do meu leito,
embora me sinta um pouco triste...
porque é bom estar para morrer
da mesma forma que é bom estar numa sala de espera
folheando revistas velhas...
É isto! Folheio essas estampas
de minha memória,
meio desbotadas...
Súbito, um lábio vermelho desenha-se entre elas
como se acabasse de ser traçado a batom!
O resto, é tudo no mesmo tom.
Espio, para variar, o azul do céu lá fora,
para onde estão olhando outros que em breve
terão alta.
As visitas do médico têm sido cada vez mais espaçadas
e mais rápidas.
E sinto que em breve ele se cruzará no caminho com o padre:
“É a sua vez, agora!”
Qual! Isso seria melodramático
que nem novela de tevê...
Na sua cadeira a morte espera, paciente
(ela não é nenhuma assassina).
Ela deveria fazer tricô...
mas para que? Mas para quem?
Agora, uma asa paira no azul.
Paira no azul...
Não atribuas a isso qualquer intenção simbólica:
tudo é tão simples...
Aliás, eu me achava tão longe...
O que sempre salvou a morte (e a vida) da gente
é pensar em outras bobagens...

Mario Quintana, in
A Vaca e o Hipografo
1977

COPENHAGEN E O NINHO DO TUIUIU DE MÁRIO QUINTANA

Tuiuiu em seu ninho

Em tempos de Conferencia Mundial sobre o Clima, que se realiza em Copenhagen – a COP 15 - interessante lembrar do livro: ÁGUA – OS ÚLTIMOS TEXTOS DE MARIO QUINTANA -, publicado em 2001, organizado por Helena Quintana de Oliveira e Eduardo San Martin. São os últimos textos aprovados pelo autor para publicação editados postumamente.


Já foram postados aqui, anteriormente, alguns poemas do livro Água. O texto a seguir mostra a visão de Mario com relação aos bens naturais do planeta. Então vamos a ele:

NINHO DE TUIUIÚ NAS MARGENS DO RIO PARAGUAI


Dizem que a história é a mestre da vida. Mas como é que seus protagonistas incorrem sempre nos mesmos erros? Destruição. Fome. Guerra. Parece que não adiantou em nada os exemplos das reprovações anteriores. Que rede de segurança, pensamos nós, cheios de esperança, que rede de segurança nos aparará?


Quando a água desaparecer, que será do homem, que será das coisas, dos verdes e bichos? Que será de Deus?
Nós devemos ir movendo as peças, sem esquecer que, embora as partidas pareçam variar ao infinito, o movimento de cada peça é único e as regras do jogo são imutáveis.
Terra, te proteja o Homem conservando sempre:
O mais puro cristal das tuas fontes!
O verde único de tuas folhas.
O ninho do Tuiuiú no Pantanal...

Mário Quintana
ÁGUA, 2001

Quintana Cidadão Honorário de Porto Alegre 1967