CADA POEMA É UM FRAGMENTO DO POEMA GERAL QUE QUINTANA VEIO COMPONDO
DURANTE TODA A SUA VIDA

segunda-feira

POEMINHA SENTIMENTAL


O POEMINHA SENTIMENTAL compõem um quadro cotidiano bem conhecido: os pássaros que vem pousar nos fios da cidade. O inesperado é que o “fio telegráfico” é a metáfora do amor e as andorinhas, as mulheres que passaram em sua vida: andorinhas que chegam e se vão, andorinhas que cantam, mas a última não cantou, “ limitou-se a fazer cocô/ no meu pobre fio da vida!”, o “fio” recupera aqui o sentido clássico de “existência”. Apesar do mote jocoso, o fecho retoma a idéia do grande amor: “No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:/ As andorinhas é que mudam.”.


O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.

Mario Quintana
Preparativos de Viagem, 1987

Quintana aos 34 anos

quinta-feira

O ESPÍRITO MILITAR NO POETA MARIO QUINTANA

Pouco conhecidas e divulgadas são as ligações do poeta Mário Quintana com a vida militar e a influência desta em seu espírito e em sua vida.




Ele era neto do Capitão Médico Cândido Manoel de Oliveira Quintana, herói da Retirada de Laguna, na Guerra do Paraguai, e chefe do Serviço de Saúde da tropa que participou daquela épica operação militar. Ele e o Capitão Médico Dr. Manoel de Aragão Gesteira, ao lado do qual foram depositados seus restos mortais no Monumento aos Heróis de Laguna e Dourados, na Praia Vermelha, no Rio, foram os dois heróis que resistiram até o fim da Retirada, dos 12 médicos que iniciaram aquela operação militar, imortalizada internacionalmente, em francês, na pena de Alfredo de Taunay.
Terminada a Guerra, o Capitão Manoel Quintana chegou em Alegrete incorporado ao 3º Regimento de Cavalaria, Unidade Militar que, terminada a Guerra do Paraguai, lá permaneceu até 1876 e que, por transformações, fusões e denominações posteriores, aquartelado em Jaguarão, resultou no atual Regimento Osório, de Porto Alegre. O Dr. Quintana passou a residir e a trabalhar na Enfermaria Militar de Alegrete, ali vivendo até falecer, onde deixou sua descendência e, nela, o hoje seu neto famoso Mário Quintana.
Mário Quintana nasceu em 1906, cerca de 18 anos depois do falecimento de seu heróico avô. E muito aprendeu sobre o avô com o seu pai farmacêutico, que também o alfabetizou usando como cartilha o jornal Correio do Povo.
E foi influenciado pelas histórias de seu heróico avô na Retirada da Laguna, na Guerra do Paraguai, e mais as da Revolução de 93 em Alegrete, como a Batalha de Inhanduí e a tomada e incêndio da ponte do Ibirapuitã. Nesta época, dos 13 aos 19 anos, de 1919 ao início de 1924, adolescente, o poeta Mário Quintana cursou, como interno contribuinte, o Colégio Militar de Porto Alegre, no Casarão da Várzea.
Foi no Colégio Militar de Porto Alegre que o poeta iniciou sua carreira literária como colaborador de sua histórica revista Hyloea.
E no Colégio Militar de Porto Alegre ficaram os seguintes registros burocráticos de sua passagem por ali, em sua adolescência, segundo dados fornecidos pelo Museu Casarão da Várzea, através do citado Cel Caminha, professor de História daquele Colégio Militar.
“Em 1º de abril de 1919, satisfeitas as exigências regulamentares Mário Miranda Quintana foi incluído no Colégio Militar de Porto Alegre como aluno interno contribuinte e classificado no 1º ano. Em Dezembro nos exames finais foi aprovado plenamente: Com grau 8 em Francês, grau 7 em Português, grau 6 em Aritmética, e simplesmente com grau 5 em Geografia e Desenho, tudo do primeiro ano. Nos exames práticos foi aprovado plenamente com grau 7 em Ginástica (hoje Educação Física) e simplesmente com grau 4 em Infantaria. Em 1º de abril de 1920, foi transferido da 1ªCompanhia para a 2,ª por conveniência do serviço. Em 20 de abril foi promovido a cabo de Esquadra de Infantaria, para o Batalhão Colegial. Em dezembro , nos exames finais foi reprovado em Desenho e aprovado simplesmente com grau 4 em Português e Aritmética e Geografia . Em 1921 nos exames de 2ª época foi reprovado em Desenho. Em setembro, a pedido de seu pai Celso de Oliveira Quintana foi desligado do Colégio Militar. Em abril de 1922 foi reencluido como aluno interno contribuinte. Em dezembro, nos exames finais foi reprovado em Álgebra e Geografia e aprovado simplesmente com grau 4 em Aritmética e plenamente com grau 7 em Português e com grau 8 em Francês. Em março de 1923 nos exames de 2ª época foi reprovado em Álgebra e aprovado simplesmente com grau 5 em Geografia. Em dezembro, nos exames finais foi reprovado em Álgebra do 3º ano. Em 28 de janeiro de 1924 foi desligado do Colégio Militar de Porto Alegre, conforme pedido de seu correspondente.”
Foram seus contemporâneos de 1919 a 1923 no Colégio Militar dois presidentes da República, Ernesto Geisel e Emílio Garrastazu Médici, e um vice-presidente, Adalberto Pereira dos Santos.
Um pouco antes de ele ingressar no Colégio Militar ali se formaram os futuros presidentes Arthur da Costa e Silva e Humberto de Alencar Castelo Branco. O presidente Eurico Gaspar Dutra estudou um ano no Casarão da Várzea, ao tempo em que ali funcionou a Escola de Guerra
Mário Quintana foi obrigado por motivos de saúde a desligar-se do Colégio Militar em janeiro de 1924. Em 1930 lhe surgiu nova oportunidade de retornar a vida militar. Apresentou-se como voluntário ao 7º Batalhão de Caçadores, atual 7º Batalhão de Infantaria Motorizado - Batalhão Gomes Carneiro, Santa Maria, que se encontrava em Porto Alegre em 3 de outubro de 1930, atendendo ao apelo “O Rio Grande de pé pelo Brasil!”. E seguiu para o Rio de Janeiro, via ferroviária, para apoiar a derrubada do presidente Whashington Luiz e a consolidação da Revolução de 30 na capital federal.
Na capital permaneceu por cerca de 6 meses como soldado da Revolução de 30, retornando em 1931, onde retomou, em Porto Alegre, a sua consagrada carreira de poeta.
Em 1978 ele retornou ao Rio de Janeiro representando a sua família nos atos de translado de seu heróico avô de Alegrete para o Rio de Janeiro onde nascera, e para ser colocado, com pompa e circunstância, no Monumento dos Heróis da Laguna, na Praça General Tibúrcio na Praia Vermelha.
Na ocasião fez entrega às autoridades que organizaram a cerimônia, de toda a documentação militar do avô, conservada com orgulho por sua descendência.
E o poeta acompanhou todo o cerimonial de translado desde Alegrete, passando por Porto Alegre e até o Rio de Janeiro, a bordo de um avião da FAB.



Na foto, da esquerda para a direita, o terceiro é o poeta Mário Quintana, representando a sua família no translado de seu avô, herói da Retirada da Laguna, cuja urna com seus restos mortais estão à frente do Gen Ex José Pinto, presidente da cerimônia e comandante do I Exército, atual comando Militar do Leste e ex presidente do Clube Militar.
E contou-nos o acadêmico General Lyra Tavares que ele recebeu o poeta com imensa satisfação. E que na ocasião sua senhora, filha de Cachoeira do Sul, preparou-se para receber o poeta com um café e um prato de sonhos, tradição gaúcha. E ao passar o prato de sonhos ao poeta ele saiu com esta tirada: - “Muito obrigado minha senhora. Como eu, um poeta, poderia comer sonhos? Seria um sacrilégio?”

segunda-feira

A CASA GRANDE


Os esconderijos da casa grande e assustadora continuam sendo desvendados pelo menino Quintana.

...mas eu queria ter nascido numa dessas casas de meia-água
com o telhado descendo logo após as fachadas
só de porta e janela
e que tinham, no século, o carinhoso apelido
de cachorros sentados.
Porém nasci em um solar de leões.
(...escadarias, corredores, sótãos, porões, tudo isso...)
Não pude ser um menino de rua...
Aliás, a casa me assustava mais do que o mundo, lá fora.
A casa era maior do que o mundo!
E até hoje
- mesmo depois que destruíram a casa grande –
até hoje eu vivo explorando os seus esconderijos...

Mario Quintana

quarta-feira

QUINTANA SONHAVA EM ALFABETIZAR FUTUROS POETAS


Este Blog com sua pretensão de apresentar Mario Quintana em todas as suas facetas não poderia esquecer a literatura infantil. Foi grande, imensa, a contribuição de Quintana nessa área.


O Batalhão das Letras é num primeiro olhar uma cartilha. Mas o nosso poeta não se propôs a simplesmente criar uma cartilha, sua visão foi muito mais além. Que tal alfabetizar e ao mesmo tempo formar poetinhas? Sim esse é o objetivo de “O Batalhão das Letras” apresentar o alfabeto propondo às crianças que aprendam a ler, escrever e fazer poesia e para fazer poesia nada como ser alfabetizado com poesias.Temos que ter em mente que a obra foi publicada em 1948, quando o ensino ainda era terrivelmente tradicional. Em 1948 também começou a ser usada a cartilha da educadora Branca Alves de Lima, “Caminho Suave” que ficou quase 50 anos no catálogo do Mec. Basta comparar “Caminho Suave” com “O Batalhão das Letras” para percebermos a tremenda distância entre as duas. Se Caminho Suave era revolucionária, O Batalhão das Letras era em dobro. Alfabetizar por versos, aprendendo as primeiras rimas junto com as primeiras letras, as primeiras construções poéticas, era duplamente revolucionário. Essa é mais uma prova da grandeza de nosso poeta, de sua visão pedagógica e de seu amor pela poesia.

Abaixo algumas letras apresentadas na obra “O Batalhão das Letras” lançado em 1948 pela Editora Globo. Para ver as imagens ampliadas e ler os poeminhas clique sobre cada uma delas.














segunda-feira

HISTÓRIA MÁGICA


Era um perfume tão pesado que os corpos se amolentavam, rendidos, e uma névoa de banho de vapor esfumava o contorno das flores de pétalas abertas, dos frutos enormes, que pareciam prestes a cair. Não se sabiam se eram cobras dormentes, ou lianas semi-vivas, aquelas coisas pendidas das galharias... Pássaros não se viam, nem sáurios furtivos, nem grandes ou pequenos quadrúpedes. Mas gritos misteriosos, que a gente não podia identificar, feriam de quando em quando os ouvidos, acordando-os do torpor em que os adormecia o zumbir ininterruptp dos insetos. Os pés chapinhavam, como em barro, no musgo verdoengo que tapetava o chão.
Caminháva-mos, arquejávamos, sem dizer palavra. O nosso guia e rei seguia à frente, invisível, sua presença acusando-se (nas horas de maior angustia, parecia) por um agitar frenético de guizos. Um dia, não mais o escutamos e cada qual, com um ingrato alívio, seguiu seu próprio caminho. Cada qual se extraviou, sentou-se, enfim, para morrer.
E cada um morria pensando invejosamente que os outros houvessem encontrado alguma coisa, uma fonte de virtudes nunca imaginadas, uma princesa, um mágico, algum Deus ainda bárbaro ou no seu mais adiantado estágio, mas sempre um Deus, mas sempre alguma coisa. Pensava em tudo isto, sim... e sentia, no entanto, um monstruoso orgulho de morrer sozinho...

Mario Quintana
Antologia Poética
Pág 120

terça-feira

QUANDO EU MORRER

Mais um poema da obra A Rua dos Cataventos publicado em 1940. Mais um poema em que Quintana imagina-se morto e se diverte com a idéia de ter toda a eternidade para consertar alguns poemas tortos.


QUANDO EU MORRER

Quando eu morrer e no frescor da lua
Da casa nova me quedar a sós,
Deixai-me em paz na minha quieta rua...
Nada mais quero com nenhum de vós!


Quero é ficar com alguns poemas tortos
Que andei tentando endireitar em vão...
Que linda a Eternidade, amigos mortos,
Para as torturas lentas da expressão!...


Eu levarei comigo as madrugadas,
Por-de-sóis, algum luar, asas em bando,
Mais o rir das primeiras namoradas.


E um dia a morte há de fitar com espanto
Os fios da vida que eu urdi, cantando,
Na orla negra de seu negro manto.

In: A Rua dos Cataventos

FOTO DANIEL ANDRADE SIMÕES

segunda-feira

ESSES INQUIETOS VENTOS


Esses inquietos ventos andarilhos
Passam e dizem: “Vamos caminhar.
Nós conhecemos misteriosos trilhos,
Bosques antigos onde é bom cismar...


E há tantas virgens a sonhar idílios!
E tu não vieste, sob a paz lunar
Beijar os seus entrefechados cílios
E as dolorosas bocas a ofegar...”


Os ventos vêm e batem-me a janela:
“A tua vida: Que fizeste dela?”
E chaga a morte: “Anda! Vem dormir...


Faz tanto frio...e é tão macia a cama...”
Mas toda a longa noite ainda hei de ouvir
A inquieta voz dos ventos que me chama!...

Mario Quintana

sexta-feira

PORQUE AMAMOS OS POETAS?


Esta postagem é a de número 233. São 233 poemas, crônicas, textos e curiosidades sobre Mario Quintana postados neste blog em mais de 1 ano de existência. Ao preparar-me para fazer esta postagem me pus a refletir no valor e na importância que os poetas tem para nós e no carinho e admiração que tenho por Quintana, carinho que só cresceu desde o momento em que decidi construir este blog. De repente decidi que era hora, não de Quintana escrever para mim mais um poema, mais uma crônica, mas de eu dedicar a ele um poema por tudo que ele deixou para nós. Assim meu caro Poeta, dedico a você estes versos, evidentemente não são escritos por um poeta como tu, mas palavras sinceras de um admirador de todos os poetas do mundo e em particular...seu admirador.

PORQUE AMAMOS OS POETAS?

Quem pinta o céu com palavras azuis e infinitas
E descreve o movimento e forma das nuvens?
Quem revela o encanto das flores
Como se as desenha-se com letras
E nos faz sentir seu perfume?

Quem constrói sentimentos com os tijolos do alfabeto,
Letra por letra... lágrima por lágrima,
Exprimindo a dor e o sorriso?
A agitação do dia e o romantismo da noite?
A dor do nascimento e o alívio da morte?

Apenas os poetas constroem com suas letras mágicas.
Retratistas do mundo... do homem,
Da luz e das trevas.
Nos demonstram a cada poema
A força incrível das palavras.
Bernardo

segunda-feira

UMA SURPRESA -


Vivemos numa paisagem, ou antes, num cenário de demolições – o que faria da atual Porto Alegre uma ótima tomada para os filmes que se passassem em Londres ou Berlim depois de bombardeadas. Isto – quem é que não sabe? – é o Progresso. Mas que desolação, que confusão! Quando é que viveremos numa cidade pronta? Não estou mandando contra Porto Alegre. Quando estive, há pouco, em São Paulo, era a mesma coisa e, na rua, aquela agitação de formigueiro às tontas, como se alguém lhe houvesse pisado em cima.

Uma cidade pronta, disse eu? Mas não, não me falem em Brasília. Essa é pronta demais. Tão pronta, tão limpa, tão exata que parece uma maquete em tamanho natural. Falta-lhe a pátina do tempo, isto que alguns chamam de historicidade e que eu chamaria simplesmente de tradição – que é coisa que não se inventa, como andaram querendo inventar o Vovô Índio para substituir o Papai Noel que nossos avós europeus importaram consigo, não de contrabando, mas dentro de seus corações, única bagagem indevassável aos fiscais da Alfândega.
Pois bem, dentro do programa de demolição e construção em que estava incluído muito velho pardieiro a pedir caridosa eutanásia, mas onde se cometeu também muito crime como o assassinato do velho templo barroco da Igreja do Rosário – acontece que, ao fundo daquele bloco de velhas casas que foram demolidas na Praça da Alfândega – que é que se vê, ao olhar à esquerda por cima do tapume? Uma palmeira! Lá, bem no fundo, enfim liberta dos paredões entre os quais estivera enterrada.
Que teria levado o empreiteiro de demolições a poupá-la? Porque era uma coisa viva, saída da natureza e não de mãos humanas? Bem sei que se têm destruído florestas, como na guerra se destroem exércitos, cidades. Tão fácil esta última façanha... basta apertar um botão. O difícil é fazer a coisa individualmente, com uma só criatura. Embora a guerra não seja considerada crime, pois é feita coletivamente. Esta a diferença entre nós e os totalitarismos. Porque estes desconhecem a unicidade do indivíduo humano. E, da mesma forma que executa friamente a destruição de florestas, o homem hesita em destruir uma árvore – tão sozinha como ele e com o mesmo direito de subsistir. Enfim, não sei se por esquecimento, ou por sentimento, é que foi poupada entre escombros, mas lá está ela sobre o tumulto da cidade – alta, viva, verde como uma esperança de melhores dias
Mario Quintana
Na Volta da Esquina (1979)