segunda-feira
ESSES INQUIETOS VENTOS
Esses inquietos ventos andarilhos
Passam e dizem: “Vamos caminhar.
Nós conhecemos misteriosos trilhos,
Bosques antigos onde é bom cismar...
E há tantas virgens a sonhar idílios!
E tu não vieste, sob a paz lunar
Beijar os seus entrefechados cílios
E as dolorosas bocas a ofegar...”
Os ventos vêm e batem-me a janela:
“A tua vida: Que fizeste dela?”
E chaga a morte: “Anda! Vem dormir...
Faz tanto frio...e é tão macia a cama...”
Mas toda a longa noite ainda hei de ouvir
A inquieta voz dos ventos que me chama!...
Mario Quintana
sexta-feira
PORQUE AMAMOS OS POETAS?
Esta postagem é a de número 233. São 233 poemas, crônicas, textos e curiosidades sobre Mario Quintana postados neste blog em mais de 1 ano de existência. Ao preparar-me para fazer esta postagem me pus a refletir no valor e na importância que os poetas tem para nós e no carinho e admiração que tenho por Quintana, carinho que só cresceu desde o momento em que decidi construir este blog. De repente decidi que era hora, não de Quintana escrever para mim mais um poema, mais uma crônica, mas de eu dedicar a ele um poema por tudo que ele deixou para nós. Assim meu caro Poeta, dedico a você estes versos, evidentemente não são escritos por um poeta como tu, mas palavras sinceras de um admirador de todos os poetas do mundo e em particular...seu admirador.
PORQUE AMAMOS OS POETAS?
Quem pinta o céu com palavras azuis e infinitas
E descreve o movimento e forma das nuvens?
Quem revela o encanto das flores
Como se as desenha-se com letras
E nos faz sentir seu perfume?
Quem constrói sentimentos com os tijolos do alfabeto,
Letra por letra... lágrima por lágrima,
Exprimindo a dor e o sorriso?
A agitação do dia e o romantismo da noite?
A dor do nascimento e o alívio da morte?
Apenas os poetas constroem com suas letras mágicas.
Retratistas do mundo... do homem,
Da luz e das trevas.
Nos demonstram a cada poema
A força incrível das palavras.
Bernardo
segunda-feira
UMA SURPRESA -
Vivemos numa paisagem, ou antes, num cenário de demolições – o que faria da atual Porto Alegre uma ótima tomada para os filmes que se passassem em Londres ou Berlim depois de bombardeadas. Isto – quem é que não sabe? – é o Progresso. Mas que desolação, que confusão! Quando é que viveremos numa cidade pronta? Não estou mandando contra Porto Alegre. Quando estive, há pouco, em São Paulo, era a mesma coisa e, na rua, aquela agitação de formigueiro às tontas, como se alguém lhe houvesse pisado em cima.
Uma cidade pronta, disse eu? Mas não, não me falem em Brasília. Essa é pronta demais. Tão pronta, tão limpa, tão exata que parece uma maquete em tamanho natural. Falta-lhe a pátina do tempo, isto que alguns chamam de historicidade e que eu chamaria simplesmente de tradição – que é coisa que não se inventa, como andaram querendo inventar o Vovô Índio para substituir o Papai Noel que nossos avós europeus importaram consigo, não de contrabando, mas dentro de seus corações, única bagagem indevassável aos fiscais da Alfândega.
Pois bem, dentro do programa de demolição e construção em que estava incluído muito velho pardieiro a pedir caridosa eutanásia, mas onde se cometeu também muito crime como o assassinato do velho templo barroco da Igreja do Rosário – acontece que, ao fundo daquele bloco de velhas casas que foram demolidas na Praça da Alfândega – que é que se vê, ao olhar à esquerda por cima do tapume? Uma palmeira! Lá, bem no fundo, enfim liberta dos paredões entre os quais estivera enterrada.
Que teria levado o empreiteiro de demolições a poupá-la? Porque era uma coisa viva, saída da natureza e não de mãos humanas? Bem sei que se têm destruído florestas, como na guerra se destroem exércitos, cidades. Tão fácil esta última façanha... basta apertar um botão. O difícil é fazer a coisa individualmente, com uma só criatura. Embora a guerra não seja considerada crime, pois é feita coletivamente. Esta a diferença entre nós e os totalitarismos. Porque estes desconhecem a unicidade do indivíduo humano. E, da mesma forma que executa friamente a destruição de florestas, o homem hesita em destruir uma árvore – tão sozinha como ele e com o mesmo direito de subsistir. Enfim, não sei se por esquecimento, ou por sentimento, é que foi poupada entre escombros, mas lá está ela sobre o tumulto da cidade – alta, viva, verde como uma esperança de melhores dias
Mario Quintana
Na Volta da Esquina (1979)
Uma cidade pronta, disse eu? Mas não, não me falem em Brasília. Essa é pronta demais. Tão pronta, tão limpa, tão exata que parece uma maquete em tamanho natural. Falta-lhe a pátina do tempo, isto que alguns chamam de historicidade e que eu chamaria simplesmente de tradição – que é coisa que não se inventa, como andaram querendo inventar o Vovô Índio para substituir o Papai Noel que nossos avós europeus importaram consigo, não de contrabando, mas dentro de seus corações, única bagagem indevassável aos fiscais da Alfândega.
Pois bem, dentro do programa de demolição e construção em que estava incluído muito velho pardieiro a pedir caridosa eutanásia, mas onde se cometeu também muito crime como o assassinato do velho templo barroco da Igreja do Rosário – acontece que, ao fundo daquele bloco de velhas casas que foram demolidas na Praça da Alfândega – que é que se vê, ao olhar à esquerda por cima do tapume? Uma palmeira! Lá, bem no fundo, enfim liberta dos paredões entre os quais estivera enterrada.
Que teria levado o empreiteiro de demolições a poupá-la? Porque era uma coisa viva, saída da natureza e não de mãos humanas? Bem sei que se têm destruído florestas, como na guerra se destroem exércitos, cidades. Tão fácil esta última façanha... basta apertar um botão. O difícil é fazer a coisa individualmente, com uma só criatura. Embora a guerra não seja considerada crime, pois é feita coletivamente. Esta a diferença entre nós e os totalitarismos. Porque estes desconhecem a unicidade do indivíduo humano. E, da mesma forma que executa friamente a destruição de florestas, o homem hesita em destruir uma árvore – tão sozinha como ele e com o mesmo direito de subsistir. Enfim, não sei se por esquecimento, ou por sentimento, é que foi poupada entre escombros, mas lá está ela sobre o tumulto da cidade – alta, viva, verde como uma esperança de melhores dias
Mario Quintana
Na Volta da Esquina (1979)
CANÇÃO DA PRIMAVERA
Dancemos saudando a primavera que chega cruzando nossos sonhos. Dancemos em torno do cataventos até que as paineiras tenham por sobre os muros...florido!!!
(Para Érico Veríssimo)
Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.
Catavento enloqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.
Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até
Não mais saber-se o motivo...
Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!
Mario Quintana
(Para Érico Veríssimo)
Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.
Catavento enloqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.
Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até
Não mais saber-se o motivo...
Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!
Mario Quintana
quarta-feira
MARIO QUINTANA - REGRESSO À CASA PATERNA
Em 1953, Mario Quintana ingressa no Correio do Povo, onde permanece até seu fechamento, em 1984. Começa com a tradução de telegramas e com uma coluna semanal que se tornaria famosa, “Caderno H” que já vinha publicando na revista Província de São Pedro.
Sem dúvida, o jornalismo estava no seu sangue. Foi logo no início que ocorreu um episódio pitoresco, lembrado recentemente numa palestra pelo jornalista Walter Galvani. O novo chefe do departamento de pessoal decidiu que Mario deveria bater o cartão ponto, como os demais colegas, na entrada e na saída do expediente. O poeta se queixou na redação, o diretor Breno Caldas ficou sabendo e, de imediato, chamou o funcionário do setor e passou-lhe uma reprimenda:
- Olha, o “ponto” do Mario aqui no Correio é o que ele produz, poesia, crônica, conto ou o que quiser fazer. Nós muito nos orgulhamos dele. Não precisa outro tipo de controle.
Mesmo esse tratamento diferenciado não impediu que Quintana aderisse, no final de 1983, à greve que culminou com o fechamento do jornal, a única da história da empresa Caldas Júnior. E seu nome foi usado como bandeira pelos colegas do movimento. Quando a empresa foi adquirida por um novo grupo, Mario continuou colaborando até sua morte, dez anos depois, no dia 5 de maio de 1994.
Ao retornar ao jornal, sob nova direção, Mario Quintana deixou este registro:
REGRESSO À CASA PATERNA
De volta a estas páginas, a esta minha velha seção no Correio, voltando enfim aos meus fregueses de caderno, confesso que não tenho palavras para dizer tudo o que sinto – nem adianta sugerirem que neste caso eu poderia latir, uivar, ganir. Mas, por que não?!
Espero encontrar os leitores tal como sempre foram, embora eu mesmo já não seja o mesmo. Apresso-me a explicar: devido a um acidente de tráfego, colocaram-me no quadril esquerdo um parafuso de aço. Portanto, não pertenço unicamente ao reino animal: também faço parte do reino mineral...
Em todo o caso, o que mais importa é dizer o que significa o Correio do Povo, para a minha geração e para as gerações seguintes. Foi no Correio do Povo que aprendi as primeiras letras, antes de todas o “O” do título, que meu pai apontou com o dedo, por ser a mais simples, depois as mais complicadas. Até que, quando dei por mim, já sabia ler! Aqui estou de volta, pois, devidamente alfabetizado. Eu e os da Velha Guarda. E, como eu declarei ao Dr. Breno Caldas, da última vez que nos encontramos: “A Velha Guarda não morre e não se entrega!”.
Disse-lhe eu isto quando a gente vivia tão só de esperanças... Mas, agora, estamos ante a confortadora realidade de pertencer a um velho órgão que faz parte integrante da História do Rio Grande do Sul e, por conseguinte, da História do Brasil.
Mario Quintana
In: Porta Giratória
Ed. Globo, 1988
Texto introdutória de Antônio Goulart: “O jornalista Mario Quintana”
Revista Press – Edição 106
foto Liane Neves
Sem dúvida, o jornalismo estava no seu sangue. Foi logo no início que ocorreu um episódio pitoresco, lembrado recentemente numa palestra pelo jornalista Walter Galvani. O novo chefe do departamento de pessoal decidiu que Mario deveria bater o cartão ponto, como os demais colegas, na entrada e na saída do expediente. O poeta se queixou na redação, o diretor Breno Caldas ficou sabendo e, de imediato, chamou o funcionário do setor e passou-lhe uma reprimenda:
- Olha, o “ponto” do Mario aqui no Correio é o que ele produz, poesia, crônica, conto ou o que quiser fazer. Nós muito nos orgulhamos dele. Não precisa outro tipo de controle.
Mesmo esse tratamento diferenciado não impediu que Quintana aderisse, no final de 1983, à greve que culminou com o fechamento do jornal, a única da história da empresa Caldas Júnior. E seu nome foi usado como bandeira pelos colegas do movimento. Quando a empresa foi adquirida por um novo grupo, Mario continuou colaborando até sua morte, dez anos depois, no dia 5 de maio de 1994.
Ao retornar ao jornal, sob nova direção, Mario Quintana deixou este registro:
REGRESSO À CASA PATERNA
De volta a estas páginas, a esta minha velha seção no Correio, voltando enfim aos meus fregueses de caderno, confesso que não tenho palavras para dizer tudo o que sinto – nem adianta sugerirem que neste caso eu poderia latir, uivar, ganir. Mas, por que não?!
Espero encontrar os leitores tal como sempre foram, embora eu mesmo já não seja o mesmo. Apresso-me a explicar: devido a um acidente de tráfego, colocaram-me no quadril esquerdo um parafuso de aço. Portanto, não pertenço unicamente ao reino animal: também faço parte do reino mineral...
Em todo o caso, o que mais importa é dizer o que significa o Correio do Povo, para a minha geração e para as gerações seguintes. Foi no Correio do Povo que aprendi as primeiras letras, antes de todas o “O” do título, que meu pai apontou com o dedo, por ser a mais simples, depois as mais complicadas. Até que, quando dei por mim, já sabia ler! Aqui estou de volta, pois, devidamente alfabetizado. Eu e os da Velha Guarda. E, como eu declarei ao Dr. Breno Caldas, da última vez que nos encontramos: “A Velha Guarda não morre e não se entrega!”.
Disse-lhe eu isto quando a gente vivia tão só de esperanças... Mas, agora, estamos ante a confortadora realidade de pertencer a um velho órgão que faz parte integrante da História do Rio Grande do Sul e, por conseguinte, da História do Brasil.
Mario Quintana
In: Porta Giratória
Ed. Globo, 1988
Texto introdutória de Antônio Goulart: “O jornalista Mario Quintana”
Revista Press – Edição 106
segunda-feira
PARA CHEGAR MAIS PERTO DOS POETAS - MARIO QUINTANA
Há certas coisas que não haveria mesmo ocasião de as colocarmos sensatamente numa conversa – e que só num poema estão em seu lugar.
Poesia é insatisfação, num anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz.
Teus poemas não os date nunca...um poema não pertence ao tempo...em seu país estranho, se existe hora, é sempre a hora extrema.
A função de um poeta não é explicar-se. A função de um poeta é expressar-se.
Repara como o poeta humaniza as coisas: dá hesitação às folhas, anseios ao vento. Talvez seja assim que Deus dá alma aos homens.
Mario Quintana
in: Para Viver com Poesia
Ed Globo - 2007
Poesia é insatisfação, num anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz.
Teus poemas não os date nunca...um poema não pertence ao tempo...em seu país estranho, se existe hora, é sempre a hora extrema.
A função de um poeta não é explicar-se. A função de um poeta é expressar-se.
Repara como o poeta humaniza as coisas: dá hesitação às folhas, anseios ao vento. Talvez seja assim que Deus dá alma aos homens.
Mario Quintana
in: Para Viver com Poesia
Ed Globo - 2007
quarta-feira
PARA DESPERTAR AS FANTASIAS
Há noites em que não posso dormir de remorso, por tudo o que deixei de cometer.
As pessoas sem imaginação podem ter tido as mais imprevistas aventuras, podem ter visitado as terras mais estranhas...Nada lhes ficou. Nada lhes sobrou. Uma vida não basta ser vivida é preciso ser sonhada.
Havia um tempo de cadeiras na calçada. Era um tempo em que havia mais estrelas. Tempo em que as crianças brincavam sob a clarabóia da lua.
Há noites em que o túnel silencioso do sono é unicamente iluminado, aqui e ali, pelos olhos verdes dos fantasmas.
O mais feroz dos animais domésticos é o relógio de parede: conheço um que já devorou três gerações de minha família.
Mario Quintana
sexta-feira
PARA LEVAR A INFÂNCIA A SÉRIO - MARIO QUINTANA
Ah, aquela confiança que tem uma criança rezando...Inocente confiança. Alegria. Quem é de nós que reza com alegria? Parece que só existe mesmo o Deus das crianças...Deus é impróprio para adultos.
Não importa o enredo das histórias: o que vale é o êxtase de quem as escuta. Por isso é que as crianças gostam mesmo de ouvir sempre as mesmas histórias, como se fosse da primeira vez.
Quando a gente era deste tamanhozinho, aí sim, Deus estava logo ali por detrás das estrelas, todas elas muito perto também. Depois nos aconteceu, com a sapiência adulta, essa infinita distância... Mas na verdade as crianças estavam mais a procura da verdade. Pois Deus não será a procura de Deus?
Que importa o asfalto, o cimento, isso tudo? As meninazinhas sempre saem da escola correndo descalças sobre a relva.
Nesses desenhos de crianças – vocês também repararam? Há alguns em que não aparece aquela costumeira estradinha que leva à porta de suas casas...
In: Para viver com poesia
segunda-feira
POEMAS CURTOS DE QUINTANA
O UMBIGO
O teu querido umbiguinho,
In: A Cor do Invisível
UMA SIMPLES ELEGIA
Caminhozinho por onde eu ia andando
e de repente te sumiste,
- o que seria que te aconteceu?
Eu sei... o tempo... as ervas más... a vida...
Não, não foi a morte que acabou contigo:
Foi a vida.
Ah, nunca a vida fez uma história mais triste
que a de um caminho que se perdeu...
In: A Vaca e o Hipogrifo
SEMPRE
Sou o dono dos tesouros perdidos no fundo do mar.
Só o que está perdido é nosso para sempre.
Nós só amamos os amigos mortos
e só as amadas mortas amam eternamente...
In: Apontamentos de História Sobrenatural
Quintana engraxando
O teu querido umbiguinho,
Doce ninho do meu beijo
Capital do meu desejo,
Em suas dobras misteriosas,
Ouço a voz da natureza
Num eco doce e profundo.
Não só o centro de um corpo,
Também o centro do mundo!
In: A Cor do Invisível
UMA SIMPLES ELEGIA
Caminhozinho por onde eu ia andando
e de repente te sumiste,
- o que seria que te aconteceu?
Eu sei... o tempo... as ervas más... a vida...
Não, não foi a morte que acabou contigo:
Foi a vida.
Ah, nunca a vida fez uma história mais triste
que a de um caminho que se perdeu...
In: A Vaca e o Hipogrifo
SEMPRE
Sou o dono dos tesouros perdidos no fundo do mar.
Só o que está perdido é nosso para sempre.
Nós só amamos os amigos mortos
e só as amadas mortas amam eternamente...
In: Apontamentos de História Sobrenatural
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