Vivemos numa paisagem, ou antes, num cenário de demolições – o que faria da atual Porto Alegre uma ótima tomada para os filmes que se passassem em Londres ou Berlim depois de bombardeadas. Isto – quem é que não sabe? – é o Progresso. Mas que desolação, que confusão! Quando é que viveremos numa cidade pronta? Não estou mandando contra Porto Alegre. Quando estive, há pouco, em São Paulo, era a mesma coisa e, na rua, aquela agitação de formigueiro às tontas, como se alguém lhe houvesse pisado em cima.
Uma cidade pronta, disse eu? Mas não, não me falem em Brasília. Essa é pronta demais. Tão pronta, tão limpa, tão exata que parece uma maquete em tamanho natural. Falta-lhe a pátina do tempo, isto que alguns chamam de historicidade e que eu chamaria simplesmente de tradição – que é coisa que não se inventa, como andaram querendo inventar o Vovô Índio para substituir o Papai Noel que nossos avós europeus importaram consigo, não de contrabando, mas dentro de seus corações, única bagagem indevassável aos fiscais da Alfândega.
Pois bem, dentro do programa de demolição e construção em que estava incluído muito velho pardieiro a pedir caridosa eutanásia, mas onde se cometeu também muito crime como o assassinato do velho templo barroco da Igreja do Rosário – acontece que, ao fundo daquele bloco de velhas casas que foram demolidas na Praça da Alfândega – que é que se vê, ao olhar à esquerda por cima do tapume? Uma palmeira! Lá, bem no fundo, enfim liberta dos paredões entre os quais estivera enterrada.
Que teria levado o empreiteiro de demolições a poupá-la? Porque era uma coisa viva, saída da natureza e não de mãos humanas? Bem sei que se têm destruído florestas, como na guerra se destroem exércitos, cidades. Tão fácil esta última façanha... basta apertar um botão. O difícil é fazer a coisa individualmente, com uma só criatura. Embora a guerra não seja considerada crime, pois é feita coletivamente. Esta a diferença entre nós e os totalitarismos. Porque estes desconhecem a unicidade do indivíduo humano. E, da mesma forma que executa friamente a destruição de florestas, o homem hesita em destruir uma árvore – tão sozinha como ele e com o mesmo direito de subsistir. Enfim, não sei se por esquecimento, ou por sentimento, é que foi poupada entre escombros, mas lá está ela sobre o tumulto da cidade – alta, viva, verde como uma esperança de melhores dias
Mario Quintana
Na Volta da Esquina (1979)
segunda-feira
CANÇÃO DA PRIMAVERA
Dancemos saudando a primavera que chega cruzando nossos sonhos. Dancemos em torno do cataventos até que as paineiras tenham por sobre os muros...florido!!!
(Para Érico Veríssimo)
Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.
Catavento enloqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.
Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até
Não mais saber-se o motivo...
Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!
Mario Quintana
(Para Érico Veríssimo)
Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.
Catavento enloqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.
Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até
Não mais saber-se o motivo...
Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!
Mario Quintana
quarta-feira
MARIO QUINTANA - REGRESSO À CASA PATERNA
Em 1953, Mario Quintana ingressa no Correio do Povo, onde permanece até seu fechamento, em 1984. Começa com a tradução de telegramas e com uma coluna semanal que se tornaria famosa, “Caderno H” que já vinha publicando na revista Província de São Pedro.
Sem dúvida, o jornalismo estava no seu sangue. Foi logo no início que ocorreu um episódio pitoresco, lembrado recentemente numa palestra pelo jornalista Walter Galvani. O novo chefe do departamento de pessoal decidiu que Mario deveria bater o cartão ponto, como os demais colegas, na entrada e na saída do expediente. O poeta se queixou na redação, o diretor Breno Caldas ficou sabendo e, de imediato, chamou o funcionário do setor e passou-lhe uma reprimenda:
- Olha, o “ponto” do Mario aqui no Correio é o que ele produz, poesia, crônica, conto ou o que quiser fazer. Nós muito nos orgulhamos dele. Não precisa outro tipo de controle.
Mesmo esse tratamento diferenciado não impediu que Quintana aderisse, no final de 1983, à greve que culminou com o fechamento do jornal, a única da história da empresa Caldas Júnior. E seu nome foi usado como bandeira pelos colegas do movimento. Quando a empresa foi adquirida por um novo grupo, Mario continuou colaborando até sua morte, dez anos depois, no dia 5 de maio de 1994.
Ao retornar ao jornal, sob nova direção, Mario Quintana deixou este registro:
REGRESSO À CASA PATERNA
De volta a estas páginas, a esta minha velha seção no Correio, voltando enfim aos meus fregueses de caderno, confesso que não tenho palavras para dizer tudo o que sinto – nem adianta sugerirem que neste caso eu poderia latir, uivar, ganir. Mas, por que não?!
Espero encontrar os leitores tal como sempre foram, embora eu mesmo já não seja o mesmo. Apresso-me a explicar: devido a um acidente de tráfego, colocaram-me no quadril esquerdo um parafuso de aço. Portanto, não pertenço unicamente ao reino animal: também faço parte do reino mineral...
Em todo o caso, o que mais importa é dizer o que significa o Correio do Povo, para a minha geração e para as gerações seguintes. Foi no Correio do Povo que aprendi as primeiras letras, antes de todas o “O” do título, que meu pai apontou com o dedo, por ser a mais simples, depois as mais complicadas. Até que, quando dei por mim, já sabia ler! Aqui estou de volta, pois, devidamente alfabetizado. Eu e os da Velha Guarda. E, como eu declarei ao Dr. Breno Caldas, da última vez que nos encontramos: “A Velha Guarda não morre e não se entrega!”.
Disse-lhe eu isto quando a gente vivia tão só de esperanças... Mas, agora, estamos ante a confortadora realidade de pertencer a um velho órgão que faz parte integrante da História do Rio Grande do Sul e, por conseguinte, da História do Brasil.
Mario Quintana
In: Porta Giratória
Ed. Globo, 1988
Texto introdutória de Antônio Goulart: “O jornalista Mario Quintana”
Revista Press – Edição 106
foto Liane Neves
Sem dúvida, o jornalismo estava no seu sangue. Foi logo no início que ocorreu um episódio pitoresco, lembrado recentemente numa palestra pelo jornalista Walter Galvani. O novo chefe do departamento de pessoal decidiu que Mario deveria bater o cartão ponto, como os demais colegas, na entrada e na saída do expediente. O poeta se queixou na redação, o diretor Breno Caldas ficou sabendo e, de imediato, chamou o funcionário do setor e passou-lhe uma reprimenda:
- Olha, o “ponto” do Mario aqui no Correio é o que ele produz, poesia, crônica, conto ou o que quiser fazer. Nós muito nos orgulhamos dele. Não precisa outro tipo de controle.
Mesmo esse tratamento diferenciado não impediu que Quintana aderisse, no final de 1983, à greve que culminou com o fechamento do jornal, a única da história da empresa Caldas Júnior. E seu nome foi usado como bandeira pelos colegas do movimento. Quando a empresa foi adquirida por um novo grupo, Mario continuou colaborando até sua morte, dez anos depois, no dia 5 de maio de 1994.
Ao retornar ao jornal, sob nova direção, Mario Quintana deixou este registro:
REGRESSO À CASA PATERNA
De volta a estas páginas, a esta minha velha seção no Correio, voltando enfim aos meus fregueses de caderno, confesso que não tenho palavras para dizer tudo o que sinto – nem adianta sugerirem que neste caso eu poderia latir, uivar, ganir. Mas, por que não?!
Espero encontrar os leitores tal como sempre foram, embora eu mesmo já não seja o mesmo. Apresso-me a explicar: devido a um acidente de tráfego, colocaram-me no quadril esquerdo um parafuso de aço. Portanto, não pertenço unicamente ao reino animal: também faço parte do reino mineral...
Em todo o caso, o que mais importa é dizer o que significa o Correio do Povo, para a minha geração e para as gerações seguintes. Foi no Correio do Povo que aprendi as primeiras letras, antes de todas o “O” do título, que meu pai apontou com o dedo, por ser a mais simples, depois as mais complicadas. Até que, quando dei por mim, já sabia ler! Aqui estou de volta, pois, devidamente alfabetizado. Eu e os da Velha Guarda. E, como eu declarei ao Dr. Breno Caldas, da última vez que nos encontramos: “A Velha Guarda não morre e não se entrega!”.
Disse-lhe eu isto quando a gente vivia tão só de esperanças... Mas, agora, estamos ante a confortadora realidade de pertencer a um velho órgão que faz parte integrante da História do Rio Grande do Sul e, por conseguinte, da História do Brasil.
Mario Quintana
In: Porta Giratória
Ed. Globo, 1988
Texto introdutória de Antônio Goulart: “O jornalista Mario Quintana”
Revista Press – Edição 106
segunda-feira
PARA CHEGAR MAIS PERTO DOS POETAS - MARIO QUINTANA
Há certas coisas que não haveria mesmo ocasião de as colocarmos sensatamente numa conversa – e que só num poema estão em seu lugar.
Poesia é insatisfação, num anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz.
Teus poemas não os date nunca...um poema não pertence ao tempo...em seu país estranho, se existe hora, é sempre a hora extrema.
A função de um poeta não é explicar-se. A função de um poeta é expressar-se.
Repara como o poeta humaniza as coisas: dá hesitação às folhas, anseios ao vento. Talvez seja assim que Deus dá alma aos homens.
Mario Quintana
in: Para Viver com Poesia
Ed Globo - 2007
Poesia é insatisfação, num anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz.
Teus poemas não os date nunca...um poema não pertence ao tempo...em seu país estranho, se existe hora, é sempre a hora extrema.
A função de um poeta não é explicar-se. A função de um poeta é expressar-se.
Repara como o poeta humaniza as coisas: dá hesitação às folhas, anseios ao vento. Talvez seja assim que Deus dá alma aos homens.
Mario Quintana
in: Para Viver com Poesia
Ed Globo - 2007
quarta-feira
PARA DESPERTAR AS FANTASIAS
Há noites em que não posso dormir de remorso, por tudo o que deixei de cometer.
As pessoas sem imaginação podem ter tido as mais imprevistas aventuras, podem ter visitado as terras mais estranhas...Nada lhes ficou. Nada lhes sobrou. Uma vida não basta ser vivida é preciso ser sonhada.
Havia um tempo de cadeiras na calçada. Era um tempo em que havia mais estrelas. Tempo em que as crianças brincavam sob a clarabóia da lua.
Há noites em que o túnel silencioso do sono é unicamente iluminado, aqui e ali, pelos olhos verdes dos fantasmas.
O mais feroz dos animais domésticos é o relógio de parede: conheço um que já devorou três gerações de minha família.
Mario Quintana
sexta-feira
PARA LEVAR A INFÂNCIA A SÉRIO - MARIO QUINTANA
Ah, aquela confiança que tem uma criança rezando...Inocente confiança. Alegria. Quem é de nós que reza com alegria? Parece que só existe mesmo o Deus das crianças...Deus é impróprio para adultos.
Não importa o enredo das histórias: o que vale é o êxtase de quem as escuta. Por isso é que as crianças gostam mesmo de ouvir sempre as mesmas histórias, como se fosse da primeira vez.
Quando a gente era deste tamanhozinho, aí sim, Deus estava logo ali por detrás das estrelas, todas elas muito perto também. Depois nos aconteceu, com a sapiência adulta, essa infinita distância... Mas na verdade as crianças estavam mais a procura da verdade. Pois Deus não será a procura de Deus?
Que importa o asfalto, o cimento, isso tudo? As meninazinhas sempre saem da escola correndo descalças sobre a relva.
Nesses desenhos de crianças – vocês também repararam? Há alguns em que não aparece aquela costumeira estradinha que leva à porta de suas casas...
In: Para viver com poesia
segunda-feira
POEMAS CURTOS DE QUINTANA
O UMBIGO
O teu querido umbiguinho,
In: A Cor do Invisível
UMA SIMPLES ELEGIA
Caminhozinho por onde eu ia andando
e de repente te sumiste,
- o que seria que te aconteceu?
Eu sei... o tempo... as ervas más... a vida...
Não, não foi a morte que acabou contigo:
Foi a vida.
Ah, nunca a vida fez uma história mais triste
que a de um caminho que se perdeu...
In: A Vaca e o Hipogrifo
SEMPRE
Sou o dono dos tesouros perdidos no fundo do mar.
Só o que está perdido é nosso para sempre.
Nós só amamos os amigos mortos
e só as amadas mortas amam eternamente...
In: Apontamentos de História Sobrenatural
Quintana engraxando
O teu querido umbiguinho,
Doce ninho do meu beijo
Capital do meu desejo,
Em suas dobras misteriosas,
Ouço a voz da natureza
Num eco doce e profundo.
Não só o centro de um corpo,
Também o centro do mundo!
In: A Cor do Invisível
UMA SIMPLES ELEGIA
Caminhozinho por onde eu ia andando
e de repente te sumiste,
- o que seria que te aconteceu?
Eu sei... o tempo... as ervas más... a vida...
Não, não foi a morte que acabou contigo:
Foi a vida.
Ah, nunca a vida fez uma história mais triste
que a de um caminho que se perdeu...
In: A Vaca e o Hipogrifo
SEMPRE
Sou o dono dos tesouros perdidos no fundo do mar.
Só o que está perdido é nosso para sempre.
Nós só amamos os amigos mortos
e só as amadas mortas amam eternamente...
In: Apontamentos de História Sobrenatural
QUINTANA E VERÍSSIMO - ENCONTRO DE HUMOR E POESIA

Sentados no mesmo sofá de courvia na lanchonete de um modesto hotel em Copacabana, o Canadá, num encontro de arrancar exclamações, dois dos mais expressivos representantes da cultura gaúcha. De um lado, compenetrado, de poucos sorrisos e nenhuma piada, acompanhado da sorridente mulher Lúcia, o humorista Luis Fernando Verissimo, 47 anos. De outro, generoso nas tiradas irreverentes, sob os cuidados da sobrinha Helena (em lua-de-mel no mesmo hotel), o solitário poeta Mário Quintana, 78 anos.
Morando na mesma cidade, Porto Alegre (Quintana num quarto do Hotel Royal, cedido em usufruto pelo seu dono, o jogador Falcão, e Verissimo com a família na casa que foi de seu pai, Erico, no bairro de Petrópolis), eles não se viam desde a feira do livro em novembro, no Rio Grande do Sul. Nem mesmo na feira de seu Estado - montada no Fashion Mall e para a qual vieram convidados pela Editora Globo - os dois se cruzaram.
Visivelmente sofrendo um problema de surdez que se agravou nos últimos três meses (segundo a sobrinha Helena), o poeta quer certificar-se de que ouvirá todas as perguntas, interroga a Helena se elas estão sendo dirigidas ao ouvido certo, com uma expressão típica dos gaúchos. “Está do lado de monta?” Não perde a oportunidade de fazer uma piada, ao explicar o que significa aquele termo: “É o lado certo de montar a cavalo. Só o Maluf sobe de um lado e cai do outro”.
Se o humorista é um dos que preferem fugir do Centro da cidade, residindo numa casa e num bairro mais afastado, o poeta não arreda pé e se mantém fiel aos quartos de hotéis em pontos centrais. E se explica: "Desconfio de que não sou muito família. Não poderia ficar 24 horas com uma pessoa. Sempre morei em mim mesmo e podendo ler tantos livros nunca estou só."
O ponto de encontro dos dois - como diz agora Luis Fernando - tem sido as visitas de Quintana à sua mãe, dona Mafalda, ou ao amigo comum, o romancista Josué Guimarães. Ambos adoram o Rio, para passear. Mário comenta que vem aqui com freqüência, mas as pessoas sempre acham que é a primeira vez. Verissimo, casado com uma carioca (pai de três filhos, Fernanda, 19 anos, Mariana, 16, e Pedro), volta e meia aparece. Quintana tem paixão especial por andar nos túneis cariocas ("O Rio é um cartão-postal, os túneis me descansam de tanta paisagem"). Luis Fernando concorda com o "exagero das paisagens", mas não compartilha do prazer em passar pelos túneis.
Quintana adorava cinema, no passado um de seus lazeres preferidos. Agora não vai mais. “Sou do tempo das estrelas, de Greta Garbo, agora a estrela é a cama”. Verissimo é mais ligado em música, jazz. “Toco saxofone, outro dia mesmo fiz isso num baile em Bagé”. E indagado como ainda encontra tempo para animar bailes, a resposta vem de Mário Quintana: "É que ele fala pouco, quem não conversa tem tempo".
O poeta vive brigando com as palavras para dizerem o que ele quer que digam. “Sempre tive dificuldade de escrever, acho que estilo é a dificuldade de expressão de cada um e, para se dar a impressão de que se fez uma coisa pela primeira vez, é preciso reescrever muito.” Verissimo encara a criação do mesmo modo. “Tenho dificuldade de escrever” - repete - “para mim não é uma coisa natural. Levo horas para chegar a um piada. Gosto mais de desenhar e, quanto mais a gente escreve, mais difícil fica.”
Quintana fala de suas fiéis amizades femininas - entre elas a bela Bruna Lombardi e a cantora Diana Pequeno, presentes na noite de autógrafos. "Nunca me abandonaram, mas se casaram com outros. Nunca me lembrei de pedi-las em casamento", brinca.
Conversa terminada, os dois descem pela Rua Santa Clara, a caminho do mar. Não param de falar animadamente. De que não se sabe. São dois gaúchos admirados e respeitados pelo que já deram à cultura e ao humor brasileiros, passeando por Copacabana.
Quintana e Verissimo, um encontro feito de humor e poesia, De Cleusa Maria. Jornal do Brasil, 4/5/84

MARIO QUINTANA - EU FIZ UM POEMA

Eu fiz um poema belo
e alto
como um girassol de Van Gogh
como um copo de chope sobre o mármore
de um bar
que um raio de sol atravessa
eu fiz um poema belo como um vitral
claro como um adro...
Agora
não sei que chuva o escorreu
suas palavras estão apagadas
alheias uma à outra como as palavras de um dicionário.
Eu sou como um arqueólogo decifrando as cinzas de uma cidade morta.
O vulto de um velho arqueólogo curvado sobre a terra...
Em que estrela, amor, o teu riso estará cantando?
In: Esconderijos do Tempo

quinta-feira
A POESIA SEGUNDO MARIO QUINTANA

“O primeiro verso que um poeta faz é sempre o mais belo, porque toda a poesia do mundo está em ser aquele seu primeiro verso”
“A poesia, porque alcança a superioridade da inspiração e do espírito, perdura além das coisas sujeitas a sucatas, a poesia nunca, pois é um sopro de eternidade.”
Os Invasores
Há muito que os marcianos invadiram o mundo:
São os poetas
e
Como não sabem nada de nada
Limitam-se a ter os olhos muito abertos
E a disponibilidade de um marinheiro em terra...
Eles não sabem nada nada
E só por isso é que descobrem tudo.
“Os poetas jogam os poemas sobre as águas do mar. Na Praia do Mar do Tempo que versos irão chegar?
MARIO QUINTANA
segunda-feira
VIDA

Vida
Não sei
o que querem de mim essas árvores
essas velhas esquinas
para ficarem tão minhas só de as olhar um momento.
Ah ! Se exigirem documentos aí do Outro Lado,
extintas as outras memórias,
só poderei mostrar-lhes as folhas soltas de um álbum de imagens:
aqui uma pedra lisa, ali um cavalo parado
ou
uma
nuvem perdida,
perdida...
Meu Deus, que modo estranho de contar uma vida!
In: Esconderijos do Tempo
sexta-feira
BAU DE ESPANTOS

ESPANTOS
Neste mundo de tantos espantos,
Cheio das mágicas de Deus,
O que existe de mais sobrenatural
São os ateus
O maravilhoso espanto de viver por um só instante (in: Apontamentos de História Natural, 1976... em sua pobre eternidade os deuses desconhecem o preço único do instante...(in: Baú de espantos, 1986)
Analisando a obra Baú de espantos Antonio Hohlfeldt inicia pelo título: o baú é um objeto em geral, hermeticamente fechado, contendo coisas velhas e antigas. Nesse caso específico o baú contém espantos, espantos surgidos a partir da convivência com a realidade. Os espantos são uma espécie de revelação, um procedimento que ocorre repentinamente, por uma como que iluminação, e que poderá ser captada ou recriada (ou não) pelo leitor durante a prática do poema.
A morte e sua significação, bem como todo o jogo escatológico que animam toda a existência humana, persistem nesse volume, e por certo, não haveria razão para desaparecerem justamente aqui, quando o poeta se indaga (nós) a respeito do que é (somos).
Quem nunca quis morrer,
Não sabe o que é viver
Não sabe que viver é abrir uma janela
E pássaros pássaros sairão por ela
E hipocampos fosforescentes
Medusas translúcidas
Radiadas
Estrelas-do-mar
Assim Quintana prossegue criando , poema após poema, livro após livro, até o fim de sua vida porque:
(...) um poema não é também quando paras no fim,
porque um verdadeiro poema continua sempre...,
segunda-feira
A MENINA QUE AMA MARIO QUINTANA

O poema não é de Mario Quintana, é de André Martins, músico e compositor.
A MENINA QUE AMA MARIO QUINTANA
Doce é a menina que ama Mario Quintana.
Veio como um verso
Sem sinal ou prenúncio de chegada,
Tomou-me a mão, os olhos,
A alma.
Linda é a menina que ama Mario Quintana.
Que me fez moço, singelo e poeta
E pus-me a escrever, dedilhar, cantar
Enxugando-me a lágrima
Ensinou-me a amar.
E como menino fiquei,
Deixando-me encantar,
Por teus encontros com o sublime,
Por teus lábios sobre o Mar.
Que direi da menina que ama Mario Quintana?
Como os namorados que amam a bela Lua cheia
E os poetas que se deitam com a rima perfeita,
Ponho, de mãos dadas, a ofertar
A pequena rosa de um poema
Que fala e silencia num olhar.
Andre Martins, 2004
sexta-feira
ESTRANHAS AVENTURAS DA INFÂNCIA

Era um caminho tão pequenino
Que nem sabia aonde ia,
Por entre uns morros se perdia
Que ele pensava que eram montanhas...
Enquanto a tarde, lenta, caía,
Aflitamente o procuramos.
Sozinho assim, aonde iria?
Porém, deixamos para um outro dia...
Perdido e só, nós o deixamos!
E quando, enfim, ali voltamos
Já nada havia, só ervas más...
Tão vasto e triste sentiste o mundo
Que te achegaste, desamparada...
E foi bem juntos que regressamos,
Ombro com ombro, a mão na mão,
Enquanto, lenta, caía a tarde
E nos espiava a bruxa negra...
E nos seguia a bruxa negra
Que hoje se chama Solidão!
In: Baú de Espantos
terça-feira
MARIO QUINTANA - CADERNO H
O Caderno H não tem continuidade e deve ser lido como foi escrito – ao léu das horas, “que não são apenas passageiras, mas de humor variado”. E pode ser aberto em qualquer ponto. Aberto e interrompido. Não é Quintana quem assegura o valor das pausas? "Livro é aquele de que às vezes interrompemos a leitura para seguir – até onde? Uma estrelinha...Leitura interrompida? Não. Esta é a verdadeira leitura continuada”. É a melhor maneira de se aproveitar o Caderno H – livro contido na palavra e penetrante no dizer, pródigo em refletida ironia, alegre, melancólico às vezes, ora impiedoso e ora amável, sempre novo, inesperado e elegante, e sempre, a cada linha e a cada pensamento, iluminado de poesia.

NA SOLIDÃO DA NOITE
“Os velhos espelhos adoram ficar no escuro das salas desertas.
Porque todo o seu problema, que até parece humano, é apenas o seguinte:
- reflexos? ou reflexões?”
A MESTRA E OS ALUNOS
Dizem que a História é a mestra da vida. Mas como é que os seus protagonistas incorrem sempre nos mesmos erros? Não lhes aproveitou em nada o exemplo das reprovações anteriores.
Ou talvez lhes aconteça o mesmo que com os leitores de novelas policiais: cada qual sonha com o crime perfeito. O crime que compensa.
Mario Quintana – Caderno H – Ed. Globo

NA SOLIDÃO DA NOITE
“Os velhos espelhos adoram ficar no escuro das salas desertas.
Porque todo o seu problema, que até parece humano, é apenas o seguinte:
- reflexos? ou reflexões?”
A MESTRA E OS ALUNOS
Dizem que a História é a mestra da vida. Mas como é que os seus protagonistas incorrem sempre nos mesmos erros? Não lhes aproveitou em nada o exemplo das reprovações anteriores.
Ou talvez lhes aconteça o mesmo que com os leitores de novelas policiais: cada qual sonha com o crime perfeito. O crime que compensa.
Mario Quintana – Caderno H – Ed. Globo
sexta-feira
De: A RUA DOS CATAVENTOS - MARIO QUINTANA

XXX
Rechinam meus sapatos rua em fora.
Tão leve estou que já nem sombra tenho
E há tantos anos de tão longe venho
Que nem me lembro de mais nada agora!
Tinha um surrão todo de penas cheio...
Um peso enorme para carregar!
Porém as penas, quando o vento veio,
Penas que eram...esvoaçaram no ar...
Todo de Deus me iluminei então.
Que os Doutores Sutis se escandalizem:
“Como é possível sem doutrinação?1”
Mas entendem-me o Céu e as criancinhas.
E ao ver-me assim, num poste as andorinhas:
“Olha! É o Idiota desta Aldeia!” dizem...
in: A Rua dos Cataventos
terça-feira
A PORTA GIRATÓRIA DE MARIO QUINTANA
PORTA GIRATÓRIA, 1988 é uma seleção de crônicas – como o próprio autor designou os textos alí reunidos – antes publicados no jornal Correio do Povo, Porto Alegre. [...] Tais crônicas, ligadas ao tempo, expressam perfeitamente a origem do gênero. Na expressão “porta giratória” está inclusa também a noção de movimento, de voltas rápidas, de giros bruscos que apontam a idéia de variedade.
[...] Igualmente alí Quintana utilizara textos antes editados no jornal.
Esse procedimento, característico do autor, identifica sua atuação como poeta e jornalista. Habituado à escrita rápida, captando a poesia diretamente do cotidiano, ele encontra nos fatos mais simples sentidos inusitados. Seu olhar ocupado com o lado humano da realidade, extrai seu lado oculto e que não é percebido pelos demais.
(Trecho do prefácio de "Porta giratória", escrito por Tânia Franco Carvalhal que coordenava a edição das obras completas do poeta, falecida em 2006)
UMBRAL
...mas eis que havia no fundo daquele quase infindável corredor de meu sonho, uma porta com a seguinte placa: BATA SEM ENTRAR. É sempre assim, pensei, o mistério só existe do outro lado das portas. Minto. O mistério está mesmo é do lado de cá. Para que procurar o outro mundo, se o nosso já é tão incompreensível como ele?
Incompreensível mas evidente. Como qualquer milagre. Como qualquer revelação.
A VELHA SURPRESA
Quando, ao café da manhã, lemos a notícia do súbito falecimento de algum amigo ou simples conhecido, ainda sentimos aquele mesmo espanto do homem que primeiro palpou, sem nada compreender, o corpo frio do primeiro morto.
Tanto assim que logo nos escapa uma exclamação estúpida, comovente, legítima:
“Mas como! Ainda anteontem eu conversei com ele...”
Sim, a velha e eterna surpresa...
Porque mesmo depois que nada mais nos espanta neste mundo, resta-nos ainda uma aventura inédita: a morte.
Mario Quintana
sexta-feira
CAMINHO

Era um caminho que de tão velho, minha filha,
já nem mais sabia aonde ia...
Era um caminho
velhinho,
perdido...
Não havia traços
de passos no dia
em que por acaso o descobri:
pedras e urzes iam cobrindo tudo.
O caminho agonizava, morria
sozinho...
Eu vi...
Porque são os passos que fazem os caminhos!
quinta-feira
POEMA EM TRÊS MOVIMENTOS

I
Nossos gestos eram simples e transcendentais.
Não dissemos nada
nada de mais...
Mas a tarde ficou transfigurada
- como se Deus houvesse mudado
imperceptivelmente
um invisível cenário.
II
Eu te amo tanto que
sou capaz de nos atirarmos os dois na cratera do Fuji-Yama!
Mas, aqui,
o amor é um barato romance pornô esquecido em cima da cama
depois que cada um partiu - sem saionara nem nada -
por uma porta diferente.
III
E em que mundo? Em que outro mundo vim parar,
que nada reconheço?
Agora, a tua voz nas minhas veias corre...
o teu olhar imensamente verde ilumina o meu quarto.
In: Esconderijos do tempo
quarta-feira
ANJO MALAQUIAS

Retirado o tema inicial do texto de tradição católica, o anjinho rechonchudo é recriado com o humor característico do poeta, com um nome comum – Malaquias – e as asas em lugar errado. Entretanto, na releitura de Mario Quintana, existe um sentido maior para esse anjo pois ele tem a pureza, a inocência e a voz dos inocentes, das crianças (anjos) e dos desamparados. Seu pranto é ouvido por seres humanos adultos que cometem faltas e ficam em situações constrangedoras ou de muita culpa pelos erros cometidos. Da grande à pequena culpa, os homens criam seus problemas e tem de solucioná-los. Chora neles o inocente anjinho, prestes a ser “devorado” e sem saída, ou será que esperam a ação e a voz de Nossa Senhora para, num milagre, salvá-los de um perigo iminente? O conto assume o pensamento humano universal, que se faz de pecados e de perdão, de dor e de esperança...
O ANJO MALAQUIAS
O Ogre rilhava os dentes agudos e lambia os beiços grossos,
com esse exagerado ar de ferocidade que os monstros gostam de
aparentar, por esporte.
Diante dele, sobre a mesa posta, o Inocentinho balava, imbele.
Chamava-se Malaquias – tão pequenino e reconchudo, pelado,
a barriguinha pra baixo, na tocante posição de certos retratos da
primeira infância...
O Ogre atou o guardanapo ao pescoço. Já ia o miserável devorar o
Inocentinho, quando Nossa Senhora interferiu com um milagre.
Malaquias criou asas e saiu voando, voando, pelo ar atônito...
saiu voando janela em fora...
Dada, porém, a urgência da operação, as asinhas brotaram-lhe
apressadamente na bunda, em vez de ser um pouco mais acima,
atrás dos ombros. Pois quem nasceu para mártir, nem mesmo a
Mãe de Deus lhe vale!
Que o digam as nuvens, esses lerdos e desmesurados cágados
das alturas, quando, pela noite morta, o Inocentinho passa por entre
elas, voando em esquadro, o pobre, de cabeça pra baixo.
E o homem que, no dia do ordenado, está jogando os sapatos dos
filhos, o vestido da mulher e a conta do vendeiro, esse ouve, no
entrechocar das fichas, o desatado pranto do Anjo Malaquias!
E a mundana que pinta o seu rosto de ídolo... E o empregadinho
em falta que sente as palavras de emergência fugirem-lhe como
cabelos de afogado... E o orador que pára em meio de uma frase...
E o tenor que dá, de súbito, uma nota em falso... Todos escutam,
no seu imenso desamparo, o choro agudo do Anjo Malaquias!
E quantas vezes um de nós, ao levantar o copo ao lábio,
interrompe o gesto e empalidece... – O Anjo! O Anjo Malaquias! –
... E então, pra disfarçar, a gente faz literatura... e diz aos amigos
que foi apenas uma folha morta que se desprendeu... ou que um
pneu estourou, longe... na estrela Aldebaran...
(Melhores poemas Mario Quintana, São Paulo: Global, 2003, pp. 87-88)
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