quarta-feira
PARA DESPERTAR AS FANTASIAS
Há noites em que não posso dormir de remorso, por tudo o que deixei de cometer.
As pessoas sem imaginação podem ter tido as mais imprevistas aventuras, podem ter visitado as terras mais estranhas...Nada lhes ficou. Nada lhes sobrou. Uma vida não basta ser vivida é preciso ser sonhada.
Havia um tempo de cadeiras na calçada. Era um tempo em que havia mais estrelas. Tempo em que as crianças brincavam sob a clarabóia da lua.
Há noites em que o túnel silencioso do sono é unicamente iluminado, aqui e ali, pelos olhos verdes dos fantasmas.
O mais feroz dos animais domésticos é o relógio de parede: conheço um que já devorou três gerações de minha família.
Mario Quintana
sexta-feira
PARA LEVAR A INFÂNCIA A SÉRIO - MARIO QUINTANA
Ah, aquela confiança que tem uma criança rezando...Inocente confiança. Alegria. Quem é de nós que reza com alegria? Parece que só existe mesmo o Deus das crianças...Deus é impróprio para adultos.
Não importa o enredo das histórias: o que vale é o êxtase de quem as escuta. Por isso é que as crianças gostam mesmo de ouvir sempre as mesmas histórias, como se fosse da primeira vez.
Quando a gente era deste tamanhozinho, aí sim, Deus estava logo ali por detrás das estrelas, todas elas muito perto também. Depois nos aconteceu, com a sapiência adulta, essa infinita distância... Mas na verdade as crianças estavam mais a procura da verdade. Pois Deus não será a procura de Deus?
Que importa o asfalto, o cimento, isso tudo? As meninazinhas sempre saem da escola correndo descalças sobre a relva.
Nesses desenhos de crianças – vocês também repararam? Há alguns em que não aparece aquela costumeira estradinha que leva à porta de suas casas...
In: Para viver com poesia
segunda-feira
POEMAS CURTOS DE QUINTANA
O UMBIGO
O teu querido umbiguinho,
In: A Cor do Invisível
UMA SIMPLES ELEGIA
Caminhozinho por onde eu ia andando
e de repente te sumiste,
- o que seria que te aconteceu?
Eu sei... o tempo... as ervas más... a vida...
Não, não foi a morte que acabou contigo:
Foi a vida.
Ah, nunca a vida fez uma história mais triste
que a de um caminho que se perdeu...
In: A Vaca e o Hipogrifo
SEMPRE
Sou o dono dos tesouros perdidos no fundo do mar.
Só o que está perdido é nosso para sempre.
Nós só amamos os amigos mortos
e só as amadas mortas amam eternamente...
In: Apontamentos de História Sobrenatural
Quintana engraxando
O teu querido umbiguinho,
Doce ninho do meu beijo
Capital do meu desejo,
Em suas dobras misteriosas,
Ouço a voz da natureza
Num eco doce e profundo.
Não só o centro de um corpo,
Também o centro do mundo!
In: A Cor do Invisível
UMA SIMPLES ELEGIA
Caminhozinho por onde eu ia andando
e de repente te sumiste,
- o que seria que te aconteceu?
Eu sei... o tempo... as ervas más... a vida...
Não, não foi a morte que acabou contigo:
Foi a vida.
Ah, nunca a vida fez uma história mais triste
que a de um caminho que se perdeu...
In: A Vaca e o Hipogrifo
SEMPRE
Sou o dono dos tesouros perdidos no fundo do mar.
Só o que está perdido é nosso para sempre.
Nós só amamos os amigos mortos
e só as amadas mortas amam eternamente...
In: Apontamentos de História Sobrenatural
QUINTANA E VERÍSSIMO - ENCONTRO DE HUMOR E POESIA

Sentados no mesmo sofá de courvia na lanchonete de um modesto hotel em Copacabana, o Canadá, num encontro de arrancar exclamações, dois dos mais expressivos representantes da cultura gaúcha. De um lado, compenetrado, de poucos sorrisos e nenhuma piada, acompanhado da sorridente mulher Lúcia, o humorista Luis Fernando Verissimo, 47 anos. De outro, generoso nas tiradas irreverentes, sob os cuidados da sobrinha Helena (em lua-de-mel no mesmo hotel), o solitário poeta Mário Quintana, 78 anos.
Morando na mesma cidade, Porto Alegre (Quintana num quarto do Hotel Royal, cedido em usufruto pelo seu dono, o jogador Falcão, e Verissimo com a família na casa que foi de seu pai, Erico, no bairro de Petrópolis), eles não se viam desde a feira do livro em novembro, no Rio Grande do Sul. Nem mesmo na feira de seu Estado - montada no Fashion Mall e para a qual vieram convidados pela Editora Globo - os dois se cruzaram.
Visivelmente sofrendo um problema de surdez que se agravou nos últimos três meses (segundo a sobrinha Helena), o poeta quer certificar-se de que ouvirá todas as perguntas, interroga a Helena se elas estão sendo dirigidas ao ouvido certo, com uma expressão típica dos gaúchos. “Está do lado de monta?” Não perde a oportunidade de fazer uma piada, ao explicar o que significa aquele termo: “É o lado certo de montar a cavalo. Só o Maluf sobe de um lado e cai do outro”.
Se o humorista é um dos que preferem fugir do Centro da cidade, residindo numa casa e num bairro mais afastado, o poeta não arreda pé e se mantém fiel aos quartos de hotéis em pontos centrais. E se explica: "Desconfio de que não sou muito família. Não poderia ficar 24 horas com uma pessoa. Sempre morei em mim mesmo e podendo ler tantos livros nunca estou só."
O ponto de encontro dos dois - como diz agora Luis Fernando - tem sido as visitas de Quintana à sua mãe, dona Mafalda, ou ao amigo comum, o romancista Josué Guimarães. Ambos adoram o Rio, para passear. Mário comenta que vem aqui com freqüência, mas as pessoas sempre acham que é a primeira vez. Verissimo, casado com uma carioca (pai de três filhos, Fernanda, 19 anos, Mariana, 16, e Pedro), volta e meia aparece. Quintana tem paixão especial por andar nos túneis cariocas ("O Rio é um cartão-postal, os túneis me descansam de tanta paisagem"). Luis Fernando concorda com o "exagero das paisagens", mas não compartilha do prazer em passar pelos túneis.
Quintana adorava cinema, no passado um de seus lazeres preferidos. Agora não vai mais. “Sou do tempo das estrelas, de Greta Garbo, agora a estrela é a cama”. Verissimo é mais ligado em música, jazz. “Toco saxofone, outro dia mesmo fiz isso num baile em Bagé”. E indagado como ainda encontra tempo para animar bailes, a resposta vem de Mário Quintana: "É que ele fala pouco, quem não conversa tem tempo".
O poeta vive brigando com as palavras para dizerem o que ele quer que digam. “Sempre tive dificuldade de escrever, acho que estilo é a dificuldade de expressão de cada um e, para se dar a impressão de que se fez uma coisa pela primeira vez, é preciso reescrever muito.” Verissimo encara a criação do mesmo modo. “Tenho dificuldade de escrever” - repete - “para mim não é uma coisa natural. Levo horas para chegar a um piada. Gosto mais de desenhar e, quanto mais a gente escreve, mais difícil fica.”
Quintana fala de suas fiéis amizades femininas - entre elas a bela Bruna Lombardi e a cantora Diana Pequeno, presentes na noite de autógrafos. "Nunca me abandonaram, mas se casaram com outros. Nunca me lembrei de pedi-las em casamento", brinca.
Conversa terminada, os dois descem pela Rua Santa Clara, a caminho do mar. Não param de falar animadamente. De que não se sabe. São dois gaúchos admirados e respeitados pelo que já deram à cultura e ao humor brasileiros, passeando por Copacabana.
Quintana e Verissimo, um encontro feito de humor e poesia, De Cleusa Maria. Jornal do Brasil, 4/5/84

MARIO QUINTANA - EU FIZ UM POEMA

Eu fiz um poema belo
e alto
como um girassol de Van Gogh
como um copo de chope sobre o mármore
de um bar
que um raio de sol atravessa
eu fiz um poema belo como um vitral
claro como um adro...
Agora
não sei que chuva o escorreu
suas palavras estão apagadas
alheias uma à outra como as palavras de um dicionário.
Eu sou como um arqueólogo decifrando as cinzas de uma cidade morta.
O vulto de um velho arqueólogo curvado sobre a terra...
Em que estrela, amor, o teu riso estará cantando?
In: Esconderijos do Tempo

quinta-feira
A POESIA SEGUNDO MARIO QUINTANA

“O primeiro verso que um poeta faz é sempre o mais belo, porque toda a poesia do mundo está em ser aquele seu primeiro verso”
“A poesia, porque alcança a superioridade da inspiração e do espírito, perdura além das coisas sujeitas a sucatas, a poesia nunca, pois é um sopro de eternidade.”
Os Invasores
Há muito que os marcianos invadiram o mundo:
São os poetas
e
Como não sabem nada de nada
Limitam-se a ter os olhos muito abertos
E a disponibilidade de um marinheiro em terra...
Eles não sabem nada nada
E só por isso é que descobrem tudo.
“Os poetas jogam os poemas sobre as águas do mar. Na Praia do Mar do Tempo que versos irão chegar?
MARIO QUINTANA
segunda-feira
VIDA

Vida
Não sei
o que querem de mim essas árvores
essas velhas esquinas
para ficarem tão minhas só de as olhar um momento.
Ah ! Se exigirem documentos aí do Outro Lado,
extintas as outras memórias,
só poderei mostrar-lhes as folhas soltas de um álbum de imagens:
aqui uma pedra lisa, ali um cavalo parado
ou
uma
nuvem perdida,
perdida...
Meu Deus, que modo estranho de contar uma vida!
In: Esconderijos do Tempo
sexta-feira
BAU DE ESPANTOS

ESPANTOS
Neste mundo de tantos espantos,
Cheio das mágicas de Deus,
O que existe de mais sobrenatural
São os ateus
O maravilhoso espanto de viver por um só instante (in: Apontamentos de História Natural, 1976... em sua pobre eternidade os deuses desconhecem o preço único do instante...(in: Baú de espantos, 1986)
Analisando a obra Baú de espantos Antonio Hohlfeldt inicia pelo título: o baú é um objeto em geral, hermeticamente fechado, contendo coisas velhas e antigas. Nesse caso específico o baú contém espantos, espantos surgidos a partir da convivência com a realidade. Os espantos são uma espécie de revelação, um procedimento que ocorre repentinamente, por uma como que iluminação, e que poderá ser captada ou recriada (ou não) pelo leitor durante a prática do poema.
A morte e sua significação, bem como todo o jogo escatológico que animam toda a existência humana, persistem nesse volume, e por certo, não haveria razão para desaparecerem justamente aqui, quando o poeta se indaga (nós) a respeito do que é (somos).
Quem nunca quis morrer,
Não sabe o que é viver
Não sabe que viver é abrir uma janela
E pássaros pássaros sairão por ela
E hipocampos fosforescentes
Medusas translúcidas
Radiadas
Estrelas-do-mar
Assim Quintana prossegue criando , poema após poema, livro após livro, até o fim de sua vida porque:
(...) um poema não é também quando paras no fim,
porque um verdadeiro poema continua sempre...,
segunda-feira
A MENINA QUE AMA MARIO QUINTANA

O poema não é de Mario Quintana, é de André Martins, músico e compositor.
A MENINA QUE AMA MARIO QUINTANA
Doce é a menina que ama Mario Quintana.
Veio como um verso
Sem sinal ou prenúncio de chegada,
Tomou-me a mão, os olhos,
A alma.
Linda é a menina que ama Mario Quintana.
Que me fez moço, singelo e poeta
E pus-me a escrever, dedilhar, cantar
Enxugando-me a lágrima
Ensinou-me a amar.
E como menino fiquei,
Deixando-me encantar,
Por teus encontros com o sublime,
Por teus lábios sobre o Mar.
Que direi da menina que ama Mario Quintana?
Como os namorados que amam a bela Lua cheia
E os poetas que se deitam com a rima perfeita,
Ponho, de mãos dadas, a ofertar
A pequena rosa de um poema
Que fala e silencia num olhar.
Andre Martins, 2004
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