CADA POEMA É UM FRAGMENTO DO POEMA GERAL QUE QUINTANA VEIO COMPONDO
DURANTE TODA A SUA VIDA

segunda-feira

VIDA


Vida

Não sei
o que querem de mim essas árvores
essas velhas esquinas
para ficarem tão minhas só de as olhar um momento.

Ah ! Se exigirem documentos aí do Outro Lado,
extintas as outras memórias,
só poderei mostrar-lhes as folhas soltas de um álbum de imagens:
aqui uma pedra lisa, ali um cavalo parado
ou
uma
nuvem perdida,
perdida...

Meu Deus, que modo estranho de contar uma vida!

In: Esconderijos do Tempo

sexta-feira

BAU DE ESPANTOS


ESPANTOS

Neste mundo de tantos espantos,
Cheio das mágicas de Deus,
O que existe de mais sobrenatural
São os ateus



O maravilhoso espanto de viver por um só instante (in: Apontamentos de História Natural, 1976... em sua pobre eternidade os deuses desconhecem o preço único do instante...(in: Baú de espantos, 1986)

Analisando a obra Baú de espantos Antonio Hohlfeldt inicia pelo título: o baú é um objeto em geral, hermeticamente fechado, contendo coisas velhas e antigas. Nesse caso específico o baú contém espantos, espantos surgidos a partir da convivência com a realidade. Os espantos são uma espécie de revelação, um procedimento que ocorre repentinamente, por uma como que iluminação, e que poderá ser captada ou recriada (ou não) pelo leitor durante a prática do poema.
A morte e sua significação, bem como todo o jogo escatológico que animam toda a existência humana, persistem nesse volume, e por certo, não haveria razão para desaparecerem justamente aqui, quando o poeta se indaga (nós) a respeito do que é (somos).

Quem nunca quis morrer,
Não sabe o que é viver
Não sabe que viver é abrir uma janela
E pássaros pássaros sairão por ela
E hipocampos fosforescentes
Medusas translúcidas
Radiadas
Estrelas-do-mar


Assim Quintana prossegue criando , poema após poema, livro após livro, até o fim de sua vida porque:

(...) um poema não é também quando paras no fim,
porque um verdadeiro poema continua sempre...,

segunda-feira

A MENINA QUE AMA MARIO QUINTANA



O poema não é de Mario Quintana, é de André Martins, músico e compositor.

A MENINA QUE AMA MARIO QUINTANA

Doce é a menina que ama Mario Quintana.

Veio como um verso
Sem sinal ou prenúncio de chegada,
Tomou-me a mão, os olhos,
A alma.

Linda é a menina que ama Mario Quintana.

Que me fez moço, singelo e poeta
E pus-me a escrever, dedilhar, cantar
Enxugando-me a lágrima
Ensinou-me a amar.

E como menino fiquei,
Deixando-me encantar,
Por teus encontros com o sublime,
Por teus lábios sobre o Mar.

Que direi da menina que ama Mario Quintana?

Como os namorados que amam a bela Lua cheia
E os poetas que se deitam com a rima perfeita,
Ponho, de mãos dadas, a ofertar
A pequena rosa de um poema
Que fala e silencia num olhar.

Andre Martins, 2004

sexta-feira

ESTRANHAS AVENTURAS DA INFÂNCIA



Era um caminho tão pequenino
Que nem sabia aonde ia,
Por entre uns morros se perdia
Que ele pensava que eram montanhas...

Enquanto a tarde, lenta, caía,
Aflitamente o procuramos.
Sozinho assim, aonde iria?
Porém, deixamos para um outro dia...

Perdido e só, nós o deixamos!

E quando, enfim, ali voltamos
Já nada havia, só ervas más...
Tão vasto e triste sentiste o mundo
Que te achegaste, desamparada...

E foi bem juntos que regressamos,
Ombro com ombro, a mão na mão,
Enquanto, lenta, caía a tarde
E nos espiava a bruxa negra...

E nos seguia a bruxa negra
Que hoje se chama Solidão!

In: Baú de Espantos

terça-feira

MARIO QUINTANA - CADERNO H

O Caderno H não tem continuidade e deve ser lido como foi escrito – ao léu das horas, “que não são apenas passageiras, mas de humor variado”. E pode ser aberto em qualquer ponto. Aberto e interrompido. Não é Quintana quem assegura o valor das pausas? "Livro é aquele de que às vezes interrompemos a leitura para seguir – até onde? Uma estrelinha...Leitura interrompida? Não. Esta é a verdadeira leitura continuada”. É a melhor maneira de se aproveitar o Caderno H – livro contido na palavra e penetrante no dizer, pródigo em refletida ironia, alegre, melancólico às vezes, ora impiedoso e ora amável, sempre novo, inesperado e elegante, e sempre, a cada linha e a cada pensamento, iluminado de poesia.


NA SOLIDÃO DA NOITE

“Os velhos espelhos adoram ficar no escuro das salas desertas.
Porque todo o seu problema, que até parece humano, é apenas o seguinte:
- reflexos? ou reflexões?”


A MESTRA E OS ALUNOS

Dizem que a História é a mestra da vida. Mas como é que os seus protagonistas incorrem sempre nos mesmos erros? Não lhes aproveitou em nada o exemplo das reprovações anteriores.
Ou talvez lhes aconteça o mesmo que com os leitores de novelas policiais: cada qual sonha com o crime perfeito. O crime que compensa.

Mario Quintana – Caderno H – Ed. Globo

sexta-feira

De: A RUA DOS CATAVENTOS - MARIO QUINTANA


XXX

Rechinam meus sapatos rua em fora.
Tão leve estou que já nem sombra tenho
E há tantos anos de tão longe venho
Que nem me lembro de mais nada agora!

Tinha um surrão todo de penas cheio...
Um peso enorme para carregar!
Porém as penas, quando o vento veio,
Penas que eram...esvoaçaram no ar...

Todo de Deus me iluminei então.
Que os Doutores Sutis se escandalizem:
“Como é possível sem doutrinação?1”

Mas entendem-me o Céu e as criancinhas.
E ao ver-me assim, num poste as andorinhas:
“Olha! É o Idiota desta Aldeia!” dizem...

in: A Rua dos Cataventos

terça-feira

A PORTA GIRATÓRIA DE MARIO QUINTANA


PORTA GIRATÓRIA, 1988 é uma seleção de crônicas – como o próprio autor designou os textos alí reunidos – antes publicados no jornal Correio do Povo, Porto Alegre. [...] Tais crônicas, ligadas ao tempo, expressam perfeitamente a origem do gênero. Na expressão “porta giratória” está inclusa também a noção de movimento, de voltas rápidas, de giros bruscos que apontam a idéia de variedade.
[...] Igualmente alí Quintana utilizara textos antes editados no jornal.
Esse procedimento, característico do autor, identifica sua atuação como poeta e jornalista. Habituado à escrita rápida, captando a poesia diretamente do cotidiano, ele encontra nos fatos mais simples sentidos inusitados. Seu olhar ocupado com o lado humano da realidade, extrai seu lado oculto e que não é percebido pelos demais.
(Trecho do prefácio de "Porta giratória", escrito por Tânia Franco Carvalhal que coordenava a edição das obras completas do poeta, falecida em 2006)



UMBRAL

...mas eis que havia no fundo daquele quase infindável corredor de meu sonho, uma porta com a seguinte placa: BATA SEM ENTRAR. É sempre assim, pensei, o mistério só existe do outro lado das portas. Minto. O mistério está mesmo é do lado de cá. Para que procurar o outro mundo, se o nosso já é tão incompreensível como ele?
Incompreensível mas evidente. Como qualquer milagre. Como qualquer revelação.

A VELHA SURPRESA

Quando, ao café da manhã, lemos a notícia do súbito falecimento de algum amigo ou simples conhecido, ainda sentimos aquele mesmo espanto do homem que primeiro palpou, sem nada compreender, o corpo frio do primeiro morto.
Tanto assim que logo nos escapa uma exclamação estúpida, comovente, legítima:
“Mas como! Ainda anteontem eu conversei com ele...”
Sim, a velha e eterna surpresa...
Porque mesmo depois que nada mais nos espanta neste mundo, resta-nos ainda uma aventura inédita: a morte.
Mario Quintana

sexta-feira

CAMINHO


Era um caminho que de tão velho, minha filha,
já nem mais sabia aonde ia...
Era um caminho
velhinho,
perdido...
Não havia traços
de passos no dia
em que por acaso o descobri:
pedras e urzes iam cobrindo tudo.
O caminho agonizava, morria
sozinho...
Eu vi...
Porque são os passos que fazem os caminhos!

quinta-feira

POEMA EM TRÊS MOVIMENTOS


I

Nossos gestos eram simples e transcendentais.
Não dissemos nada
nada de mais...
Mas a tarde ficou transfigurada
- como se Deus houvesse mudado
imperceptivelmente
um invisível cenário.

II

Eu te amo tanto que
sou capaz de nos atirarmos os dois na cratera do Fuji-Yama!
Mas, aqui,
o amor é um barato romance pornô esquecido em cima da cama
depois que cada um partiu - sem saionara nem nada -
por uma porta diferente.

III

E em que mundo? Em que outro mundo vim parar,
que nada reconheço?
Agora, a tua voz nas minhas veias corre...
o teu olhar imensamente verde ilumina o meu quarto.

In: Esconderijos do tempo