CADA POEMA É UM FRAGMENTO DO POEMA GERAL QUE QUINTANA VEIO COMPONDO
DURANTE TODA A SUA VIDA

segunda-feira

A MENINA QUE AMA MARIO QUINTANA



O poema não é de Mario Quintana, é de André Martins, músico e compositor.

A MENINA QUE AMA MARIO QUINTANA

Doce é a menina que ama Mario Quintana.

Veio como um verso
Sem sinal ou prenúncio de chegada,
Tomou-me a mão, os olhos,
A alma.

Linda é a menina que ama Mario Quintana.

Que me fez moço, singelo e poeta
E pus-me a escrever, dedilhar, cantar
Enxugando-me a lágrima
Ensinou-me a amar.

E como menino fiquei,
Deixando-me encantar,
Por teus encontros com o sublime,
Por teus lábios sobre o Mar.

Que direi da menina que ama Mario Quintana?

Como os namorados que amam a bela Lua cheia
E os poetas que se deitam com a rima perfeita,
Ponho, de mãos dadas, a ofertar
A pequena rosa de um poema
Que fala e silencia num olhar.

Andre Martins, 2004

sexta-feira

ESTRANHAS AVENTURAS DA INFÂNCIA



Era um caminho tão pequenino
Que nem sabia aonde ia,
Por entre uns morros se perdia
Que ele pensava que eram montanhas...

Enquanto a tarde, lenta, caía,
Aflitamente o procuramos.
Sozinho assim, aonde iria?
Porém, deixamos para um outro dia...

Perdido e só, nós o deixamos!

E quando, enfim, ali voltamos
Já nada havia, só ervas más...
Tão vasto e triste sentiste o mundo
Que te achegaste, desamparada...

E foi bem juntos que regressamos,
Ombro com ombro, a mão na mão,
Enquanto, lenta, caía a tarde
E nos espiava a bruxa negra...

E nos seguia a bruxa negra
Que hoje se chama Solidão!

In: Baú de Espantos

terça-feira

MARIO QUINTANA - CADERNO H

O Caderno H não tem continuidade e deve ser lido como foi escrito – ao léu das horas, “que não são apenas passageiras, mas de humor variado”. E pode ser aberto em qualquer ponto. Aberto e interrompido. Não é Quintana quem assegura o valor das pausas? "Livro é aquele de que às vezes interrompemos a leitura para seguir – até onde? Uma estrelinha...Leitura interrompida? Não. Esta é a verdadeira leitura continuada”. É a melhor maneira de se aproveitar o Caderno H – livro contido na palavra e penetrante no dizer, pródigo em refletida ironia, alegre, melancólico às vezes, ora impiedoso e ora amável, sempre novo, inesperado e elegante, e sempre, a cada linha e a cada pensamento, iluminado de poesia.


NA SOLIDÃO DA NOITE

“Os velhos espelhos adoram ficar no escuro das salas desertas.
Porque todo o seu problema, que até parece humano, é apenas o seguinte:
- reflexos? ou reflexões?”


A MESTRA E OS ALUNOS

Dizem que a História é a mestra da vida. Mas como é que os seus protagonistas incorrem sempre nos mesmos erros? Não lhes aproveitou em nada o exemplo das reprovações anteriores.
Ou talvez lhes aconteça o mesmo que com os leitores de novelas policiais: cada qual sonha com o crime perfeito. O crime que compensa.

Mario Quintana – Caderno H – Ed. Globo

sexta-feira

De: A RUA DOS CATAVENTOS - MARIO QUINTANA


XXX

Rechinam meus sapatos rua em fora.
Tão leve estou que já nem sombra tenho
E há tantos anos de tão longe venho
Que nem me lembro de mais nada agora!

Tinha um surrão todo de penas cheio...
Um peso enorme para carregar!
Porém as penas, quando o vento veio,
Penas que eram...esvoaçaram no ar...

Todo de Deus me iluminei então.
Que os Doutores Sutis se escandalizem:
“Como é possível sem doutrinação?1”

Mas entendem-me o Céu e as criancinhas.
E ao ver-me assim, num poste as andorinhas:
“Olha! É o Idiota desta Aldeia!” dizem...

in: A Rua dos Cataventos

terça-feira

A PORTA GIRATÓRIA DE MARIO QUINTANA


PORTA GIRATÓRIA, 1988 é uma seleção de crônicas – como o próprio autor designou os textos alí reunidos – antes publicados no jornal Correio do Povo, Porto Alegre. [...] Tais crônicas, ligadas ao tempo, expressam perfeitamente a origem do gênero. Na expressão “porta giratória” está inclusa também a noção de movimento, de voltas rápidas, de giros bruscos que apontam a idéia de variedade.
[...] Igualmente alí Quintana utilizara textos antes editados no jornal.
Esse procedimento, característico do autor, identifica sua atuação como poeta e jornalista. Habituado à escrita rápida, captando a poesia diretamente do cotidiano, ele encontra nos fatos mais simples sentidos inusitados. Seu olhar ocupado com o lado humano da realidade, extrai seu lado oculto e que não é percebido pelos demais.
(Trecho do prefácio de "Porta giratória", escrito por Tânia Franco Carvalhal que coordenava a edição das obras completas do poeta, falecida em 2006)



UMBRAL

...mas eis que havia no fundo daquele quase infindável corredor de meu sonho, uma porta com a seguinte placa: BATA SEM ENTRAR. É sempre assim, pensei, o mistério só existe do outro lado das portas. Minto. O mistério está mesmo é do lado de cá. Para que procurar o outro mundo, se o nosso já é tão incompreensível como ele?
Incompreensível mas evidente. Como qualquer milagre. Como qualquer revelação.

A VELHA SURPRESA

Quando, ao café da manhã, lemos a notícia do súbito falecimento de algum amigo ou simples conhecido, ainda sentimos aquele mesmo espanto do homem que primeiro palpou, sem nada compreender, o corpo frio do primeiro morto.
Tanto assim que logo nos escapa uma exclamação estúpida, comovente, legítima:
“Mas como! Ainda anteontem eu conversei com ele...”
Sim, a velha e eterna surpresa...
Porque mesmo depois que nada mais nos espanta neste mundo, resta-nos ainda uma aventura inédita: a morte.
Mario Quintana

sexta-feira

CAMINHO


Era um caminho que de tão velho, minha filha,
já nem mais sabia aonde ia...
Era um caminho
velhinho,
perdido...
Não havia traços
de passos no dia
em que por acaso o descobri:
pedras e urzes iam cobrindo tudo.
O caminho agonizava, morria
sozinho...
Eu vi...
Porque são os passos que fazem os caminhos!

quinta-feira

POEMA EM TRÊS MOVIMENTOS


I

Nossos gestos eram simples e transcendentais.
Não dissemos nada
nada de mais...
Mas a tarde ficou transfigurada
- como se Deus houvesse mudado
imperceptivelmente
um invisível cenário.

II

Eu te amo tanto que
sou capaz de nos atirarmos os dois na cratera do Fuji-Yama!
Mas, aqui,
o amor é um barato romance pornô esquecido em cima da cama
depois que cada um partiu - sem saionara nem nada -
por uma porta diferente.

III

E em que mundo? Em que outro mundo vim parar,
que nada reconheço?
Agora, a tua voz nas minhas veias corre...
o teu olhar imensamente verde ilumina o meu quarto.

In: Esconderijos do tempo

quarta-feira

ANJO MALAQUIAS


Retirado o tema inicial do texto de tradição católica, o anjinho rechonchudo é recriado com o humor característico do poeta, com um nome comum – Malaquias – e as asas em lugar errado. Entretanto, na releitura de Mario Quintana, existe um sentido maior para esse anjo pois ele tem a pureza, a inocência e a voz dos inocentes, das crianças (anjos) e dos desamparados. Seu pranto é ouvido por seres humanos adultos que cometem faltas e ficam em situações constrangedoras ou de muita culpa pelos erros cometidos. Da grande à pequena culpa, os homens criam seus problemas e tem de solucioná-los. Chora neles o inocente anjinho, prestes a ser “devorado” e sem saída, ou será que esperam a ação e a voz de Nossa Senhora para, num milagre, salvá-los de um perigo iminente? O conto assume o pensamento humano universal, que se faz de pecados e de perdão, de dor e de esperança...


O ANJO MALAQUIAS

O Ogre rilhava os dentes agudos e lambia os beiços grossos,
com esse exagerado ar de ferocidade que os monstros gostam de
aparentar, por esporte.
Diante dele, sobre a mesa posta, o Inocentinho balava, imbele.
Chamava-se Malaquias – tão pequenino e reconchudo, pelado,
a barriguinha pra baixo, na tocante posição de certos retratos da
primeira infância...
O Ogre atou o guardanapo ao pescoço. Já ia o miserável devorar o
Inocentinho, quando Nossa Senhora interferiu com um milagre.
Malaquias criou asas e saiu voando, voando, pelo ar atônito...
saiu voando janela em fora...
Dada, porém, a urgência da operação, as asinhas brotaram-lhe
apressadamente na bunda, em vez de ser um pouco mais acima,
atrás dos ombros. Pois quem nasceu para mártir, nem mesmo a
Mãe de Deus lhe vale!
Que o digam as nuvens, esses lerdos e desmesurados cágados
das alturas, quando, pela noite morta, o Inocentinho passa por entre
elas, voando em esquadro, o pobre, de cabeça pra baixo.
E o homem que, no dia do ordenado, está jogando os sapatos dos
filhos, o vestido da mulher e a conta do vendeiro, esse ouve, no
entrechocar das fichas, o desatado pranto do Anjo Malaquias!
E a mundana que pinta o seu rosto de ídolo... E o empregadinho
em falta que sente as palavras de emergência fugirem-lhe como
cabelos de afogado... E o orador que pára em meio de uma frase...
E o tenor que dá, de súbito, uma nota em falso... Todos escutam,
no seu imenso desamparo, o choro agudo do Anjo Malaquias!
E quantas vezes um de nós, ao levantar o copo ao lábio,
interrompe o gesto e empalidece... – O Anjo! O Anjo Malaquias! –
... E então, pra disfarçar, a gente faz literatura... e diz aos amigos
que foi apenas uma folha morta que se desprendeu... ou que um
pneu estourou, longe... na estrela Aldebaran...


(Melhores poemas Mario Quintana, São Paulo: Global, 2003, pp. 87-88)

terça-feira

RELEITURA BÍBLICA


Os textos bíblicos compõem outra fonte para as releituras que Mario Quintana faz. Homem cristão, sem dúvida criado com fortes valores, cita passagens e personagens bíblicas, às quais faz a releitura, transformando-as com sua visão de mundo. Nesta semana vamos nos dedicar a algumas dessas releituras bíblicas.
É lírica a conceituação de poesia e lugar dos poetas no mundo criado por Deus (de Caderno H. Porto Alegre: Globo, 1973, p.53.):


VERSÍCULO INÉDITO DO GÊNESIS

“E eis que, tendo Deus descansado no sétimo dia, os poetas continuaram a obra da Criação.”


Entretanto, na mesma obra, há o poema em prosa carregado de humor contra o ser humano em geral (op.cit.,p.53):

A GRANDE CATASTROFE

No princípio era o verbo. O verbo ser. Conjugava-se
apenas no infinito. Ser, e nada mais.
Intransitivo absoluto.
Isso foi no princípio. Depois transigiu, e muito. Em
vários modos, tempos e pessoas. Ah, nem queiras saber
o que são as pessoas: eu, tu, ele, nós, vós, eles...
Principalmente eles!
E, ante essa dispersão lamentável, essa verdadeira
Explosão do SER em seres, até hoje os anjos
ingenuamente se interrogam por que motivo as referidas pessoas
chamam isso de Criação.


O homem religioso lê a Bíblia e acredita em Deus Absoluto, no Ato da Criação. O poeta descrente acha que a “Grande Catástrofe” foi Deus ter criado os seres humanos, que se multiplicaram e tornaram-se os “Outros” (os “Eles”) e não se reconhecem como irmãos.
Nesse humor triste e descrente de seus semelhantes, o poeta qualifica como um “pecado” divino ter multiplicado tanto o homem na Terra.
(Análise extraída da Obra: Mario Quintana: Cotidiano, Lirismo e Ironia.)