CADA POEMA É UM FRAGMENTO DO POEMA GERAL QUE QUINTANA VEIO COMPONDO
DURANTE TODA A SUA VIDA

quarta-feira

Nunca Ninguém Sabe

FOTO DANIEL DE ANDRADE SIMÕES

Nunca ninguém sabe se estou louco para
rir ou para chorar.
Por isso o meu verso tem
Esse quase imperceptível tremor...
A vida é louca, o mundo é triste:
Vale a pena matar-se por isso?
Nem por ninguém!
Só se deve morrer de puro amor...

Preparativos de viagem (1989)

terça-feira

O MORTO

Morto - Portinari 1958

"Eu estava dormindo e me acordaram
E me encontrei, assim, num mundo estranho e louco...
Quando eu começava a compreendê-lo
Um pouco
Já eram horas de dormir de novo.
Mario Quintana
FOTO DANIEL DE ANDRADE SIMÕES

sábado

Um dia acordarás



Um dia acordarás num quarto novo
Sem saber como foste para lá
E as vestes que acharás ao pé do leito
De tão estranhas te farão pasmar,
A janela abrirás, devagarinho:
Fará nevoeiro e tu nada verás...
Hás de tocar, a medo, a campainha
E, silenciosa, a porta se abrirá.


E um ser, que nunca viste, em um sorriso
Triste, te abraçará com seu maior carinho
E há de dizer-te para o teu assombro:


- Não te assustes de mim, que sofro há tanto!
Quero chorar - apenas - no teu ombro
E devorar teus olhos, meu amor...
Mario Quintana

sexta-feira

O CAIS


Naquele nevoeiro
Profundo profundo...
Amigo ou amiga,
Quem é que me espera?

Quem é que me espera
Que ainda me ama,
Parado na beira
Do cais do Outro Mundo?

Amigo ou amiga
Que olhe tão fundo
Tão fundo nos meus olhos
E nada me diga...

Que sorriso esquecido...
Ou radiante face
Puro sorriso
De algum novo amor?!

In: Aprendiz de Feiticeiro

terça-feira

EXTRA TERRENA

Cecília Meirelles

"Há pessoas que nos falam e nem as escutamos, há pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam mas há pessoas que simplesmente aparecem em nossas vidas e nos marcam para sempre."
Cecília Meireles


Na semana de aniversário de Quintana postei um poema a ele dedicado por Cecilia Meirelles. Hoje vamos em sentido contrário: é Quintana quem escreve a Cecília.

EXTRA-TERRENA

(Para Cecília Meirelles)

Nós colhíamos flores de hastes muito longas
E cujos nomes nem ao menos conhecíamos...
E nem sequer, também, sabíamos os nossos nomes...
E para quê, se um para o outro éramos Tu, apenas...
Ou quem sabe a Morte nos houvera bordado
numa tapeçaria
A que o vento emprestasse a vida por um momento?
E por isso os nossos gestos eram ondulantes como
as plantas marinhas
E as nossas palavras como asas suspensas no vento...

In: Preparativos de Viagem

segunda-feira

MINHA MORTE NASCEU QUANDO EU NASCI

Lendo - Pablo Picasso

(Para Moysés Vellinho)

Minha morte nasceu quando eu nasci...
Despertou, balbuciou, cresceu comigo...
E dançamos de roda ao luar amigo
Na pequenina rua em que vivi

Já não tem mais aquele jeito amigo
De rir que, aí de mim, também perdi
Mas inda agora a estou sentindo aqui,
Grave e boa, a escutar o que lhe digo:

Tu que és minha doce prometida,
Nem sei quando serão nossas bodas,
Se hoje mesmo... ou no fim de longa vida...

E as horas lá se vão, loucas ou tristes...
Mas é tão bom, em meio às horas todas,
Pensar em ti...saber que tu existes!

In: A Rua dos Cataventos

sexta-feira

O GATO



O gato chega à porta do quarto onde escrevo.
Entrepara...hesita...avança...

Fita-me.
Fitamo-nos.

Olhos nos olhos...
Quase com terror!

Como duas criaturas incomunicáveis e solitárias
Que fossem feitas cada uma por um Deus diferente.

In: Preparativos de Viagem

quinta-feira

FELIZ ANIVERSÁRIO!!!


Primeira foto de Quintana recem-nascido com os pais

Em 1996 a poeta, colunista e advogada Patrícia Antoniette, publicou esse belíssimo texto em sua coluna na revista Paradoxo. Texto que vale a pena ler e reler. Uma homenagem tocante ao poeta que representou para a ela a abertura de um novo mundo. O mundo da poesia que Quintana tanto amava.

Nascido prematuro em Alegrete, Rio Grande do Sul, em um gelado 30 de julho de 1906, dizia que tinha algum complexo por ter nascido antes de estar pronto, preocupação esta que se dissipou quando soube que também eram prematuros Churchill e Isaac Newton. Porto-alegrense desde antes da adolescência, foi nessa cidade que realmente viveu e fez poesia e foi aqui onde o conheci, num final de primavera. O poeta estava sentado num banco da Praça da Alfândega – onde, aliás, ele passava quase todas as tardes – e vínhamos eu, com 10 compenetrados anos e meu padrinho, de mãos dadas, caminhando pela sombra dos jacarandás. Ao avistar o poeta, meu dindo me arrastou para dentro da antiga livraria Sulina, bem perto dali, comprou o recém lançado "Lili Inventa o Mundo" e me levou de volta à Praça, onde, segundo ele, eu deveria pedir o autógrafo do poeta que tinha escrito aquele livro.
Lá fui eu, misto de emoção e timidez. Um poeta. Um poeta veja só. Como seria um poeta? De que material seria feito um ser que escreve livros? Seria de carne e osso? Teria voz e movimentos? Assim que me aproximei, ele me deu bom dia. Estendi o livro sem dizer nada, porque não sabia se era permitido falar com um poeta, assim, sem qualquer cerimônia. Lembro de achar estranho que ele parecesse só um velhinho doce e meigo que falava arrastado, tinha pronúncia difícil e sorria com dentes amarelos uma ternura simples e cúmplice. Ele bateu com a mão no banco para que eu sentasse e eu obedeci, claro, adivinhando que este era o ritual. Ele pegou a caneta do bolso e escreveu com uma letra desenovelada: "para minha nova amiga Patrícia, do amigo velho, Mário Quintana". Saí de lá sentindo que alguma coisa muito grave tinha acontecido e eu não sabia bem o quê.
Li, aqueles que eram os primeiros poemas da minha vida, milhares de vezes. Lembro da minha emoção ao explicar para as amiguinhas, para os pais, para quem me ouvisse, a genialidade do tamanco que era um hipopótamo, ou das pulgas que pulavam tanto porque também tinham pulgas, do milagre que é ser poeta e poder dizer coisas como essas. Ousei me experimentar na poesia sob a influência direta da simplicidade genial e desconcertante daquele velhinho que dava olhos novos a quem o lia e só alguns muitos anos mais tarde tive a perfeita noção de quem era aquele monstro querido e frágil, aquele amigo velho ao lado de quem eu havia sentado num final de primavera cercada de jacarandás floridos: um poeta indevorável.
FOTO DE DANIEL DE ANDRADE SIMÕES

*Patrícia 'Ticcia' Antoniete é colunista da Paradoxo. Advogada gaúcha, assina às quintas-feiras a coluna In-Ventário.

Outra canção

Não me deixem ir tão só,
Tão só, transido de frio...
Eu quero um renque de vozes
Por toda a margem do rio!
Como alguém que adormecendo
E umas vozes escutando,
Nem soubesse que as ouvia,
Nem soubesse que as ouvia
Ou se estava sonhando,
Eu quero um renque de vozes
Por toda a margem do rio:
Vozes de amigo calor
Na lenta e escura descida
Como lanternas de cor
E aonde mais longe eu me for
(Quanto mais longe da vida!)
A borboleta perdida
Da tua voz, pobre amor...


In:Esconderijos do Tempo


Última foto de Quintana

quarta-feira

CECILIA MEIRELLES HOMENAGEIA QUINTANA

Jovem Quintana

Ontem este Blog teve o prazer de receber a visita de Luiz Carlos Amorim coordenador do Grupo Literário A ILHA, de Santa Catarina que também publica a revista MIRANDUM (Confraria de Quintana).
Hoje em continuidade à semana dos 103 anos de Mario Quintana posto justamente um texto publicado por Tânia F. Carvalhal publicado na revista MIRANDUM em novembro de 2008:

Conheci Mario Quintana na redação do Correio do Povo. Estava sentado, escrevendo a lápis, e me olhou com um sorriso manso. Nunca mais consegui separar o que li depois daquele olhar azul, daquele sorriso brando e da voz rouca que ouvi então. Mais tarde o revi muitas vezes e associei ao prazer de lê-lo, o encantamento de longas conversas nas quais sobressaia sempre sua lúcida inteligência e fina ironia.
No seu aniversário, queria mandar-lhe “uma imagem qualquer para os seus anos”, parafraseando-o no poema “A Carta”, no qual ele endereça à destinatária “o céu, todo este céu de Porto Alegre e aquela nuvenzinha que está sonhando, agora, em pleno azul”, Amplio essa primeira intensão e junto um poema intitulado “Cantiga”, que Cecília Meireles enviou a Quintana em 1944, e que ele mesmo cedeu ao Caderno de Sábado, para publicação em novembro de 1967:

Quando passarem os dias
E não mais se avistar
Nosso rosto, e o sereno
Modo nosso de olhar,

E a nossa evaporada
Voz não viver mais no ar,
E as sombras esquecerem
A que era a do nosso andar,

Vai ser doce pensar-se
-em que secreto lugar?-
nos sonhos que inventamos
ternos e devagar

no perfil que tivemos,
tão fino e singular,
e no louro e nas rosas
que o poderiam coroar,

e nos vergéis que sentíamos,
quando íamos a par,
ouvindo o amor que nunca
chegou a sussurar...

Cecilia Meirelles