CADA POEMA É UM FRAGMENTO DO POEMA GERAL QUE QUINTANA VEIO COMPONDO
DURANTE TODA A SUA VIDA

terça-feira

EXTRA TERRENA

Cecília Meirelles

"Há pessoas que nos falam e nem as escutamos, há pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam mas há pessoas que simplesmente aparecem em nossas vidas e nos marcam para sempre."
Cecília Meireles


Na semana de aniversário de Quintana postei um poema a ele dedicado por Cecilia Meirelles. Hoje vamos em sentido contrário: é Quintana quem escreve a Cecília.

EXTRA-TERRENA

(Para Cecília Meirelles)

Nós colhíamos flores de hastes muito longas
E cujos nomes nem ao menos conhecíamos...
E nem sequer, também, sabíamos os nossos nomes...
E para quê, se um para o outro éramos Tu, apenas...
Ou quem sabe a Morte nos houvera bordado
numa tapeçaria
A que o vento emprestasse a vida por um momento?
E por isso os nossos gestos eram ondulantes como
as plantas marinhas
E as nossas palavras como asas suspensas no vento...

In: Preparativos de Viagem

segunda-feira

MINHA MORTE NASCEU QUANDO EU NASCI

Lendo - Pablo Picasso

(Para Moysés Vellinho)

Minha morte nasceu quando eu nasci...
Despertou, balbuciou, cresceu comigo...
E dançamos de roda ao luar amigo
Na pequenina rua em que vivi

Já não tem mais aquele jeito amigo
De rir que, aí de mim, também perdi
Mas inda agora a estou sentindo aqui,
Grave e boa, a escutar o que lhe digo:

Tu que és minha doce prometida,
Nem sei quando serão nossas bodas,
Se hoje mesmo... ou no fim de longa vida...

E as horas lá se vão, loucas ou tristes...
Mas é tão bom, em meio às horas todas,
Pensar em ti...saber que tu existes!

In: A Rua dos Cataventos

sexta-feira

O GATO



O gato chega à porta do quarto onde escrevo.
Entrepara...hesita...avança...

Fita-me.
Fitamo-nos.

Olhos nos olhos...
Quase com terror!

Como duas criaturas incomunicáveis e solitárias
Que fossem feitas cada uma por um Deus diferente.

In: Preparativos de Viagem

quinta-feira

FELIZ ANIVERSÁRIO!!!


Primeira foto de Quintana recem-nascido com os pais

Em 1996 a poeta, colunista e advogada Patrícia Antoniette, publicou esse belíssimo texto em sua coluna na revista Paradoxo. Texto que vale a pena ler e reler. Uma homenagem tocante ao poeta que representou para a ela a abertura de um novo mundo. O mundo da poesia que Quintana tanto amava.

Nascido prematuro em Alegrete, Rio Grande do Sul, em um gelado 30 de julho de 1906, dizia que tinha algum complexo por ter nascido antes de estar pronto, preocupação esta que se dissipou quando soube que também eram prematuros Churchill e Isaac Newton. Porto-alegrense desde antes da adolescência, foi nessa cidade que realmente viveu e fez poesia e foi aqui onde o conheci, num final de primavera. O poeta estava sentado num banco da Praça da Alfândega – onde, aliás, ele passava quase todas as tardes – e vínhamos eu, com 10 compenetrados anos e meu padrinho, de mãos dadas, caminhando pela sombra dos jacarandás. Ao avistar o poeta, meu dindo me arrastou para dentro da antiga livraria Sulina, bem perto dali, comprou o recém lançado "Lili Inventa o Mundo" e me levou de volta à Praça, onde, segundo ele, eu deveria pedir o autógrafo do poeta que tinha escrito aquele livro.
Lá fui eu, misto de emoção e timidez. Um poeta. Um poeta veja só. Como seria um poeta? De que material seria feito um ser que escreve livros? Seria de carne e osso? Teria voz e movimentos? Assim que me aproximei, ele me deu bom dia. Estendi o livro sem dizer nada, porque não sabia se era permitido falar com um poeta, assim, sem qualquer cerimônia. Lembro de achar estranho que ele parecesse só um velhinho doce e meigo que falava arrastado, tinha pronúncia difícil e sorria com dentes amarelos uma ternura simples e cúmplice. Ele bateu com a mão no banco para que eu sentasse e eu obedeci, claro, adivinhando que este era o ritual. Ele pegou a caneta do bolso e escreveu com uma letra desenovelada: "para minha nova amiga Patrícia, do amigo velho, Mário Quintana". Saí de lá sentindo que alguma coisa muito grave tinha acontecido e eu não sabia bem o quê.
Li, aqueles que eram os primeiros poemas da minha vida, milhares de vezes. Lembro da minha emoção ao explicar para as amiguinhas, para os pais, para quem me ouvisse, a genialidade do tamanco que era um hipopótamo, ou das pulgas que pulavam tanto porque também tinham pulgas, do milagre que é ser poeta e poder dizer coisas como essas. Ousei me experimentar na poesia sob a influência direta da simplicidade genial e desconcertante daquele velhinho que dava olhos novos a quem o lia e só alguns muitos anos mais tarde tive a perfeita noção de quem era aquele monstro querido e frágil, aquele amigo velho ao lado de quem eu havia sentado num final de primavera cercada de jacarandás floridos: um poeta indevorável.
FOTO DE DANIEL DE ANDRADE SIMÕES

*Patrícia 'Ticcia' Antoniete é colunista da Paradoxo. Advogada gaúcha, assina às quintas-feiras a coluna In-Ventário.

Outra canção

Não me deixem ir tão só,
Tão só, transido de frio...
Eu quero um renque de vozes
Por toda a margem do rio!
Como alguém que adormecendo
E umas vozes escutando,
Nem soubesse que as ouvia,
Nem soubesse que as ouvia
Ou se estava sonhando,
Eu quero um renque de vozes
Por toda a margem do rio:
Vozes de amigo calor
Na lenta e escura descida
Como lanternas de cor
E aonde mais longe eu me for
(Quanto mais longe da vida!)
A borboleta perdida
Da tua voz, pobre amor...


In:Esconderijos do Tempo


Última foto de Quintana

quarta-feira

CECILIA MEIRELLES HOMENAGEIA QUINTANA

Jovem Quintana

Ontem este Blog teve o prazer de receber a visita de Luiz Carlos Amorim coordenador do Grupo Literário A ILHA, de Santa Catarina que também publica a revista MIRANDUM (Confraria de Quintana).
Hoje em continuidade à semana dos 103 anos de Mario Quintana posto justamente um texto publicado por Tânia F. Carvalhal publicado na revista MIRANDUM em novembro de 2008:

Conheci Mario Quintana na redação do Correio do Povo. Estava sentado, escrevendo a lápis, e me olhou com um sorriso manso. Nunca mais consegui separar o que li depois daquele olhar azul, daquele sorriso brando e da voz rouca que ouvi então. Mais tarde o revi muitas vezes e associei ao prazer de lê-lo, o encantamento de longas conversas nas quais sobressaia sempre sua lúcida inteligência e fina ironia.
No seu aniversário, queria mandar-lhe “uma imagem qualquer para os seus anos”, parafraseando-o no poema “A Carta”, no qual ele endereça à destinatária “o céu, todo este céu de Porto Alegre e aquela nuvenzinha que está sonhando, agora, em pleno azul”, Amplio essa primeira intensão e junto um poema intitulado “Cantiga”, que Cecília Meireles enviou a Quintana em 1944, e que ele mesmo cedeu ao Caderno de Sábado, para publicação em novembro de 1967:

Quando passarem os dias
E não mais se avistar
Nosso rosto, e o sereno
Modo nosso de olhar,

E a nossa evaporada
Voz não viver mais no ar,
E as sombras esquecerem
A que era a do nosso andar,

Vai ser doce pensar-se
-em que secreto lugar?-
nos sonhos que inventamos
ternos e devagar

no perfil que tivemos,
tão fino e singular,
e no louro e nas rosas
que o poderiam coroar,

e nos vergéis que sentíamos,
quando íamos a par,
ouvindo o amor que nunca
chegou a sussurar...

Cecilia Meirelles

terça-feira

AMOR A PORTO ALEGRE

Mario Quintana nunca viveu um casamento tradicional. Mas casou-se, por longos 75 anos, com aquela que deu guarida à maior parte de tudo o que lhe foi inspiração. Uma jovem experiente, que já contava com 147 anos de vida quando do encontro com o poeta. Uma jovem feliz, pois assim anuncia-se através de nome próprio, que leva a palavra "alegre" acompanhada de outra que descreve sua principal função na vida de Quintana: um porto.

A capital do Rio Grande do Sul conheceu seu mais famoso poeta em 1919. Quintana tinha apenas 13 anos quando ingressou no Colégio Militar de Porto Alegre. O objetivo era realizar o sonho do pai, ter um filho doutor. Mas foi lá dentro que o anseio paterno começou a sofrer um desvio sem volta. No jornalzinho da instituição Quintana conheceu a escrita, apaixonando-se perdidamente. As palavras e a possibilidade de trabalhar com elas arrebatou o filho do alegretense Celso de Oliveira Quintana.

E foi sem volta. Estar em Porto Alegre encaminhou Quintana para o destino que ele resolveu traçar para si, o da poesia. Para isso, contou com a cumplicidade da cidade, que o recebeu inicialmente em pensões, várias delas espalhadas pelo centro da cidade e cercanias. Depois vieram os hotéis. Sendo o principal deles o Majestic, onde viveu por 13 anos e que mais tarde viria a se tornar a Casa de Cultura Mario Quintana. Nunca montou casa própria, nunca fez de um determinado endereço algo de somente seu, pessoal e intransferível. Era andarilho de ruas e de moradas. Variava pousos, morador e visitante ao mesmo tempo. Talvez uma metáfora sobre a sua presença nesse mundo. Afinal, jurava Érico Veríssimo, que o poeta era anjo que nos visitava, não era desse planeta.

Pois sim. Quintana era e não era de Porto Alegre. Até porque, nascera em Alegrete, coisa de 500km até a capital gaúcha. Mas a sua parte que era da cidade, cumpria seu papel com maestria. "Andarilhava" por aí com freqüência. Como diria o amigo Armindo Trevisan, era caminhante compulsivo. Durante anos, cumprira um trajeto curioso. Pegava um bonde, descia no fim da linha e voltava a pé, rua por rua do centro da cidade. Sem pressa, pois não abria mão de visitar os diversos botecos do caminho. O preferido era o Bar Leão. Coisas do tempo em que Quintana ainda bebia.

Para alguns hábitos, cumpria fidelidade. O mesmo barbeiro por mais de 50 anos, o costume de jogar na loteria, a mania de tomar café e ler jornal sempre nos mesmos lugares. E essa prática de observar a chegada de cada uma das estações, bem precisas no Rio Grande do Sul. Para a chegada de um outono, escreveu: "E agora esse cartaz na alma da gente: ADIADOS OS SUICÍDIOS... Simplesmente. Porque é abril em Porto Alegre... E pronto!"

No início, Porto Alegre era simples para o poeta que em 1967 recebeu o título de Cidadão Honorário: "Uma cidade pequena onde todos ou quase todos se conheciam, e as diversões eram os bares, os cafés, as galerias de arte e o Theatro São Pedro". Quintana acabou acompanhando de perto todas as transformações da cidade no século passado. De cidade pequena para metrópole. De simples, para complexa.

Ele assistia a tudo das janelas que teve e nunca a perplexidade tomou o lugar da paixão. Até porque, o poeta esforçava-se para valorizar o passado que pulsava (e pulsa) por Porto Alegre. Em especial no centro da cidade, bairro que adotou como a extensão de suas moradas, os quartos de hotel. Lugares como a Praça da Alfândega eram uma espécie de "varanda da casa" para Quintana. Naqueles bancos, ele passava tardes inteiras conversando com a atriz Bruna Lombardi, uma de suas musas. Por ali também participava anualmente da Feira do Livro de Porto Alegre, evento onde sempre atuava enquanto celebridade. Todos queriam ficar perto do poeta, fazer foto, conseguir um autógrafo.

O cara era um sucesso. Lá pela década de 80, certa vez afirmou para um jornalista que o entrevistava: "Eu tô na moda". E tava mesmo. Seu espetáculo surgia nos seus escritos; seu palco nas ruas do centro da cidade. A este último dedicou acima de tudo um olhar sempre nostálgico. Vociferava contra os arranha-céus que invadiam a cidade: "O problema da arquitetura moderna é que ela não constrói casas antigas".

Para viver, Quintana não desejava novidades. Pelo contrário, cultivava o passado como a um parceiro permanente de viagem. Do mesmo modo simples, não via necessidade em morar em amplos espaços. A uma amiga que se impressionou com o tamanho do quarto onde morava prestes a completar 80 anos (cedido pelo jogador e comentarista esportivo Falcão), explicou: "Eu moro em mim mesmo. Não faz mal que o quarto seja pequeno. É bom, assim tenho menos lugares para perder as minhas coisas".

A argumentação não convenceu a moça, contratada para registrar em fotografia o Quintana do alto de seus 80 anos. Em negociação com os patrocinadores de seu projeto, descolou o que os gaúchos chamariam de "barbada": uma morada mais ampla em um apart-hotel, no centro de Porto Alegre, de graça, até a morte do poeta. No começo, ele titubeou, mas ao conhecer o espaço, encantou-se: "Tem até cozinha", afirmou surpreso e feliz.
FOTO DE LIANE NEVES

Foi este hotel, o Residence, o último de Quintana. Seu quarto está fielmente reconstruído em uma sala do Centro Cultural que leva seu nome. E ao conferir o endereço do local, me surpreendo. Antes de me tornar moradora da cidade, certa vez aportei por lá. Descobri que tenho pelo menos algo que me liga à vida desse anjo da poesia brasileira. Amém.

Ana Ângela Farias é jornalista e moradora de Porto Alegre.
Jornal O POVO – Porto Alegre

segunda-feira

SEMANA DE ANIVERSÁRIO

ESTA SEMANA, MAIS PROPRIAMENTE DIA 30 DE JULHO, MARIO QUINTANA ESTARÁ COMPLETANDO 103 ANOS DE NASCIMENTO, SIM ESTARÁ, NÃO ESTARIA, PORQUE UM POETA NÃO MORRE SIMPLESMENTE, ELE VIVE ETERNAMENTE NOS SEUS POEMAS. DURANTE TODA A SEMANA ESTAREI POSTANDO UM MATERIAL ESPECIAL EM HOMENAGEM À DATA. COMEÇANDO COM O POEMA "O COLEGIAL" EM QUE MARIO REVIVE O TENEBROSO PERÍODO ESCOLAR.

O COLEGIAL

O vento passa lá fora
E eu, no quadro negro imóvel
- ó muro de fuzilamento!
Morro sem dizer palavra.
O professor parece triste,
Talvez por outros motivos.
Manda sentar-me
E eu carrego
Ó almazinha assustada,
Um zero, como uma auréola...
Rezai, rezai pelas alminhas
Dos meninos fuzilados!
Por que é que nos ensinam
Tanta coisa?
Eu queria saber contar
Só com os dedos da mão!
O resto é complicação,
Um nunca mais acabar.
Eu queria mesmo era poder estudar
Teu corpo todo com a mão
Até sabê-lo de cor
Como um ceguinho
E o vento passa lá fora
Com a sua memória em branco.
O que ele viu, nem recorda...
E eu nada vi: só adivinho!
IN: Baú de Espantos

Mario Menino

sexta-feira

OBSESSÃO DO MAR OCEANO


Vou andando feliz pelas ruas sem nome...
Que vento bom sopra do Mar Oceano!
Meu amor eu nem sei como se chama,
Nem sei se é muito longe o Mar Oceano...
Mas há vasos cobertos de conchinhas
Sobre as mesas...e moças nas janelas
Com brincos e pulseiras de coral...
Búzios calçando portas...caravelas
Sonhando imóveis sobre velhos pianos...
Nisto,
Na vitrine do bric o teu sorriso, Antínous,
E eu me lembrei do pobre imperador Adriano,
De su’alma perdida e vaga na neblina...
Mas como sopra o vento sobre o Mar Oceano!
Se eu morresse amanhã, só deixaria, só,
Uma caixa de música
Uma bússola
Um mapa figurado
Uns poemas cheios de beleza única
De estarem inconclusos...
Mas como sopra o vento nestas ruas de outono!
E eu nem sei, eu nem sei como te chamas...
Mas nos encontraremos sobre o Mar Oceano,
Quando eu já não tiver mais nome.

In: Aprendiz de Feiticeiro

quinta-feira

AH MUNDO...


Ah, Mundo…

Perdão!
Eu distraí-me ao receber a Extrema-Unção.
Enquanto a voz do padre zumbia como um besouro
eu pensava era nos meus primeiros sapatos
que continuavam andando
que continuam andando
- rotos e felizes! -
por essas estradas do mundo.

MEMÓRIA

Em nossa vida ainda ardem aqueles velhos,
aqueles antigos lampiões de esquina
Cuja luz não é bem a deste mundo...
Porque, na poesia, o tempo não existe!
Ou acontece tudo ao mesmo tempo...
In: Velório sem Defunto

O nada é a palavra que mais assusta o comum das gentes. Mas, para exorcizá-lo, ninguém precisa ir aos padres, às mães-pretas, aos índios velhos, ao diabo: basta ir a um dicionário e verá que o nada não existe. Sim, é uma coisa tão absurda como a existência do mundo…”

ORAÇÃO

Dai-me a alegria
Do poema de cada dia.
E que ao longo do caminho
Às almas eu distribua
Minha porção de poesia
Sem que ela diminua...
Poesia tanta e tão minha
Que por uma eucaristia
Possa eu fazê-la sua
“Eis minha carne e meu sangue!”
A minha carne e meu sangue
Em toda a ardente impureza
Deste humano coração...
Mas, ó Coração Divino,
Deixai-me dar de meu vinho,
Deixar-me dar de meu pão!
Que mal faz uma canção?
Basta que tenha beleza

In: A Cor do Invisível