CADA POEMA É UM FRAGMENTO DO POEMA GERAL QUE QUINTANA VEIO COMPONDO
DURANTE TODA A SUA VIDA

segunda-feira

A CASA FANTASMA


O maravilhoso espanto de viver por um só instante (in Apontamentos de História Sobrenatural, 1976) em sua pobre eternidade, os deuses desconhecem o preço único do instante... (in Baú de Espantos, 1986)

A CASA FANTASMA

A casa está morta?
Não: a casa é um fantasma,
um fantasma que sonha
com a sua porta de pesada aldrava,
com seus intermináveis corredores
que saíam a explorar no escuro os mistérios da noite
e que as luzes, por vezes,
enchiam de um lívido assombro...
Sim!
Agora
a casa está sonhando
com o seu pátio de meninos pássaros.
A casa escuta...Meu Deus! A casa está louca, ela não sabe
que em seu lugar se ergue um monstro de cimento e aço:
há sempre uma cidade dentro da outra
e esse eterno desentendimento entre o Espaço e o Tempo.
Casa que teimas em existir
a coitadinha da velha casa!
Eu também não consegui nunca afugentar meus pássaros

In: Baú de Espantos

sábado

POEMAS CURTOS


Trova

Fosse o mundo um paraíso...
- Paraíso de verdade!
morrerias sem saber
o que é a felicidade...

O poeta

Venho de fundo das eras,
Quando o mundo mal nascia...
Sou tão antigo e tão novo
Como a luz de cada dia!

A mulher biônica

Eu quero uma mulher biônica
Que me ame como uma suspirosa máquina
Do mais intenso amor
Uma mulher que quase me mate...
Mas me livre de todos os ataques!
Eu quero, quero uma mulher biônica
Para que eu possa, a qualquer momento,
Desaparafusá-la...

In: Esconderijos do Tempo

sexta-feira

POEMAS DE BAR


Em alguns momentos, o poeta percebe que o mundo tornou-se intraduzível, estranhamente irreconhecível, e de que não é mais possível sintonizar a palavra poética à música do universo. Vejamos como a realidade se apresenta fragmentada, a partir do olhar contemplativo do poeta, em um dos seus famosos “poemas de bar”:

Bar

No mármore da mesa escrevo
Letras que não formam nome algum.
O meu caixão será de mogno,
Os grilos cantarão na treva...
Fora, na grama fria, devem estar brilhando as gotas
pequeninas do orvalho.
Há, sobre a mesa um reflexo triste e vão
Que é o mesmo que vem dos óculos e das carecas.
Há um retrato do Marechal Deodoro proclamando a República...
E de tudo irradia, grave, uma obscura, uma lenta música...
Ah, meus pobres botões! Eu bem quisera traduzir, para vós, dois ou
três compassos do Universo!...
Infelizmente não sei tocar violoncelo...
A vida é muito curta, mesmo...
E as estrelas não formam nenhum nome.

In: Aprendiz de Feiticeiro

FOTO DANIEL ANDRADE SIMÕES



Augusto Meyer, ao referir-se a esse poema, confessou que via, nesses versos, “a imagem do poeta em sua aventura noturna, de bar em bar, com medo de recolher-se à pensão distante, no alto da ladeira triste, quando os gatos cruzam a rua e a cerração da madrugada põem um gosto amargo na boca”.
No poema, o autor recria um desses momentos de introspecção. Assim, como as letras estão soltas sobre a página na sua misteriosa ausência de lógica, o olhar do poeta pousa aleatoriamente sobre os elementos que compõem o espaço e seu pensamento não segue qualquer linha racional, ultrapassando as fronteiras do espaço e do tempo. Ele se projeta para o futuro, idealizando o seu caixão, “de mogno”, e os grilos que cantarão na treva, em uma atitude que revela o desejo de fuga através da morte. Os grilos solitários cantores noturnos, estão sempre presentes na poesia de Quintana, podendo ser associados à própria figura do poeta que, sozinho na noite, procura notas para compor seu canto. Esse texto é exemplar para que vejamos como se manifesta, nO Aprendiz, o sentimento de impotência do eu-lírico, que passa a desejar a morte, ao sentir que a palavra lírica esvaziou-se de sentido.
Subitamente, ele volta-se de novo ao agora, imaginando a existência simples e bela das “pequeninas gotas de orvalho” que molham a grama e simplesmente existem, despreocupadamente. Elas são parte da misteriosa harmonia do universo, de que irradia a “grave”, “obscura”, “lenta música”, cujos compassos o poeta não consegue traduzir.
Mais uma vez as reticências marcam a suspensão da idéia dos versos. Nesse caso, é como se o silêncio que elas assinalam pudesse expressar a incapacidade do escritor de chegar a uma tradução coerente dos mistérios do mundo. Ele sente que seu instrumento (a palavra), perdeu seu poder de dar significado à realidade humana (talvez se soubesse tocar violoncelo). À morte da palavra poética, portanto, o eu-lírico passa a associar a sua própria morte, como se o sentido de sua própria existência estivesse condicionado à sua tarefa como criador. Esvaziando-se a palavra, perde-se também a razão de ser do poeta.
Análise de Doris Munhoz de Lima

quinta-feira

DO CADERNO H


O Caderno H começou a ser publicado na Revista Província de São Pedro em Porto Alegre em 1945. Foi inclusive com parte desse material que Quintana montou em 1948 seu livro de poemas Sapato Florido. O Caderno H continuou a sair a partir de 1953 quando Quintana ingressa no jornal Correio do Povo, de Porto Alegre, na página literária, aos domingos. Somente em 1973 o poeta selecionaria desse amplo material, os fragmentos que comporiam o livro Caderno H publicado pela Editora Globo. Desde essa data as diversas reedições da obra comprovam o grande interesse do grande público pelos textos.Na bibliografia de Quintana o Caderno H liga-se diretamente a O Espelho Mágico pois ambos experimentam a prosa póética ou o poema em prosa previlegiando a forma epigramática como visão da realidade.

Leituras

Não, não te recomendo a leitura de Joaquim Manoel de Macedo ou de José de Alencar. Que idéia foi essa de teu professor? Para que haverias tu de os ler se a tua avozinha já os leu? E todas as lágrimas que ela chorou quando era moça como tu, pelos amores de Ceci e da Moreninha, ficaram fazendo parte de teu ser para sempre. Como vês, minha filha, a hereditariedade nos poupa muito trabalho.

Mario Quintana in: Caderno H

quarta-feira

MEU BONDE PASSA PELO MERCADO


O livro Baú dos Espantos consta de 99 poemas, alguns escritos ainda na adolescência do poeta e mantidos inéditos até então, recheados de imagens do baú da memória do poeta. É importante marcar aqui que não se trata do poeta escrevendo sobre si e sua história, no melhor estilo memorialista, mas de fragmentos líricos que remetem a uma memória não temporal, espantosa, mágica. No poema MEU BONDE PASSA PELO MERCADO pode-se perceber bem o que se afirma sobre a obra:

MEU BONDE PASSA PELO MERCADO

O que há de bom mesmo não está a venda,
O que há de bom não custa nada.
Este momento é a flor da eternidade!
Minha alegria aguda até o grito...
Não essa alegria alvar das novelas baratas,
Pois minha alegria inclui também minha tristeza
- a nossa tristeza...
Meu companheiro de viagens, sabes?
Todos os bondes vão para o Infinito!

IN: Baú dos Espantos


Este poema tem uma versão errada que corre pela internet, aliás como tantos outros poemas não só de Quintana, isso é fruto da pouca seriedade que é dada a pesquisa e a originalidade das fontes neste país.
Quintana na Praça de Alegrete

terça-feira

PRESENÇA

Vivo na imaginação o que a realidade me nega

Em várias das obras de Quintana, são diversos os textos que expressam a tendência em desconfiar dos sentidos, buscando uma visão mais profunda e verdadeira da fantasia criativa. O poema PRESENÇA a seguir, por exemplo, pode ser relacionado diretamente aos sentido dos versos publicados ontem com o poemA "De Repente":

PRESENÇA
É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu te sentir
como sinto – em mim – a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te!

In: Apontamentos de História Sobrenatural


Este poema e o de ontem, embora pertençam a livros diferentes, expressam a mesma visão sobre memória e realidade, a qual permeia toda obra de Quintana. Para ele, a memória nunca é simples lembrança, evocação. Toda infância rememorada do homem, por exemplo, será sempre a mais bela, porque é vista do presente marcado pelas limitações da vida adulta.
Voltemos ao poema postado ontem “De Repente”, quando o poeta diz “O livro na mão/ Era sempre o teu seio”, está narrando uma experiência que pertence ao plano da memória/imaginação, primeiro, porque relata um fato no passado, o que já é memória. Segundo porque a experiência relatada é um momento de sonho: o poeta senta a presença da amada no livro. Suas linhas eram perfeitas porque haviam sido desenhadas pela saudade e pela ausência.
Os dois últimos versos do poema “De Repente”, postado ontem, expressam esse sentimento de tristeza e vazio que domina o presente na imagem dos cântaros e do cavalo. Lembremos que a imagem do cavalo é comum na poética quintaniana. No poema De Repente, portanto a imagem do cavalo denuncia o vazio que o poeta sente no presente. Sua vida só se reveste de sentido no ato da imaginação, ou seja, da criação.
A mesma análise pode ser feita perfeitamente com o poema de hoje “Presença”.

segunda-feira

PASSADO E PRESENTE

FOTO LIANE NEVES


Na obra de Quintana, chama a atenção a freqüência com que o autor manifesta, em sua poética, uma profunda consciência acerca da relação que se estabelece no texto poético entre memória e imaginação. Ele vislumbra “no par imaginário/memória uma realização particular da relação arte/realidade, ou seja, tudo o que é rememorado no poema, mesmo que não tenha sido vivido pelo homem empírico, nem por isso deixa de ser verdadeiro.
No Aprendiz de Feiticeiro, essa idéia quintaniana sobre memória e recriação também pode ser verificada em textos em que a lembrança e o sonho aparecem tematizados, apresentando-se como experiências mais agradáveis e sensíveis do que o contato direto do eu-lírico com a sua realidade.

DE REPENTE

Olho-te espantado:
Tu és uma Estrela do Mar.
Um minério estranho.
Não sei...

No entanto,
O livro que eu lesse,
O livro na mão.
Era sempre o teu seio!

Tu estavas no morno da grama,
Na polpa saborosa do pão...

Mas agora encheram-se de sombra os cântaros

E só o meu cavalo pasta na solidão.

In: Aprendiz de Feiticeiro.


No poema estão sinalizados dois momentos temporais. A primeira estrofe contém verbos no presente (olho-te, és) e indica a presença física do tu, cuja identidade feminina nos é sugerida pela palavra “seio”. A segunda e terceira estrofe referem-se a um tempo diferente, com verbos no pretérito. Esses momentos distintos não estão separados apenas pela sua localização no tempo, mas pertencem a experiências de natureza diversa vividas pelo poeta. Se a princípio, a imagem da “Estrela do Mar” nos inquieta, ao nos deixarmos envolver pela atmosfera de mistério que emana da primeira estrofe, percebemos que essa sensação de inquietude e dúvida é justamente o sentido buscado nos versos.
Por sua vez, as duas estrofes seguintes, que se referem ao momento passado, não marcado pela proximidade física do “tu” revelam um contato mais direto do poeta com sua amada. No passado, nos momentos em que era só lembrança, esse “tu” estava próximo, mostrava-se mais nitidamente. A memória que, para Mario Quintana, confunde-se com a própria imaginação, recriava-o e transformava-o segundo a sua vontade. Assim, a leitura de um livro, pela imaginação do poeta, era capaz de trazer para perto o que estava distante, o corpo da amada. Cada sensação vivida, “o morno da grama” o gosto da “polpa saborosa do pão”, podia ser o caminho para essa aproximação. As imagens que nos revelam esses momentos de memória denunciam o modo com que o poeta aguça seus sentidos para perceber a magia nos elementos do cotidiano.
Esses versos vinculam-se à idéia quintaneano de que a memória é capaz de tornar o passado mais verdadeiro, porque toda a memória é, na verdade, a transfiguração desse passado pela imaginação, a verdadeira forma de conhecimento. A realidade ameaça ruir seu mundo individual, constituído de sonho e da fantasia. Sua satisfação está no passado – porque pode ser recriado e transformado – ou no tempo sem datas da imaginação, sobre o qual o sujeito exerce seu poder criador sem limites.
Análise de Doris Munhoz de Lima
Passado e Presente

sábado

DA INFLUÊNCIA DOS ESPELHOS


Maravilhoso texto de Quintana, quanta reflexão se pode extrair destas poucas palavrasem que o poeta desnuda a realidade humana. Para os outros não somos a realidade, mas o que os outros querem ver. A vida é um palco onde representamos o que gostariamos de ser mas somos vistos com olhos que certamente não são como os nossos.

”Tu lembras daqueles grandes espelhos côncavos ou convexos que, em certos estabelecimentos, os proprietários colocavam à entrada para atrair os fregueses, achatando-os, alongando-os, deformando-os nas mais estranhas configurações?
Nós, as crianças de então, achávamos uma bruta graça, por saber que era tudo
ilusão, embora talvez nem conhecêssemos o sentido da palavra “ilusão”.
Não, nós bem sabíamos que não éramos aquilo!
Depois, ao crescer, descobrimos que, para os outros, não éramos precisamente
isto que somos, mas aquilo que os outros vêem.
Cuidado, incauto leitor! Há casos, na vida, em que alguns acabam adaptando-se
a essas imagens enganosas, despersonalizando-se num segundo”eu”.
Que pode uma alma, ainda por cima invisível, contra o testemunho de milhares de espelhos?
Eis aqui um grave assunto para um conto, uma novela, um romance, ou uma tese
de mestrado em Psicologia.”

In: Na Volta da Esquina (1979)

CARTA A MARIO QUINTANA


Caro poeta Mario Quintana

Pediram-me para escrever sobre você e eu então resolvi escrever para você. Você é tão grande dentro de sua simplicidade e sinceridade de gaúcho do interior que tenho até medo de não encontrar as palavras certas.
Você nasceu em Alegrete, mas eu sei, porque vejo nos seus versos, o quanto ama Porto Alegre. Eu também amo. Já morei lá e volta e meia estou por lá. Falei que você é grande dentro de sua simplicidade porque você escreve coisas profundas em versos singelos. Gosto muito de suas quadrinhas. Algumas são cheias de humor, outras são irônicas, outras encerram verdades indiscutíveis e muitas dão conselhos como um experiente psicólogo.
Você não é complicado. A gente entende tudo o que você escreve. Sim, porque tem poema que embaralha as palavras de um jeito que não se entende e então a poesia não penetra na alma.
Sabe, gosto muito do poema “Os Arroios” de seu livro Baú de Espantos:
“Os arroios são rios guris.
Vão pulando e cantando dentre as pedras...
Conhecem o cheiro e a cor das flores que se debruçam sobre eles
Nos matos que atravessam e onde parecem quererem sestear...”.
Sinto não ter podido um dia visitá-lo no Hotel Magestic onde morava, para da sacada, contemplaremos o Guaíba e batermos um longo papo. E, se você concordasse, eu pediria que recitasse seu poema “Dedicatória” do livro A Cor do Invisível onde você mesmo define a sua poesia e que termina assim:
“E por isso as minhas palavras são cotidianas como o pão nosso de cada dia
E a minha poesia é natural e simples como a água bebida na concha da mão.”

Um abraço cordial,
Else Sant’anna Brum