CADA POEMA É UM FRAGMENTO DO POEMA GERAL QUE QUINTANA VEIO COMPONDO
DURANTE TODA A SUA VIDA

quinta-feira

DO CADERNO H


O Caderno H começou a ser publicado na Revista Província de São Pedro em Porto Alegre em 1945. Foi inclusive com parte desse material que Quintana montou em 1948 seu livro de poemas Sapato Florido. O Caderno H continuou a sair a partir de 1953 quando Quintana ingressa no jornal Correio do Povo, de Porto Alegre, na página literária, aos domingos. Somente em 1973 o poeta selecionaria desse amplo material, os fragmentos que comporiam o livro Caderno H publicado pela Editora Globo. Desde essa data as diversas reedições da obra comprovam o grande interesse do grande público pelos textos.Na bibliografia de Quintana o Caderno H liga-se diretamente a O Espelho Mágico pois ambos experimentam a prosa póética ou o poema em prosa previlegiando a forma epigramática como visão da realidade.

Leituras

Não, não te recomendo a leitura de Joaquim Manoel de Macedo ou de José de Alencar. Que idéia foi essa de teu professor? Para que haverias tu de os ler se a tua avozinha já os leu? E todas as lágrimas que ela chorou quando era moça como tu, pelos amores de Ceci e da Moreninha, ficaram fazendo parte de teu ser para sempre. Como vês, minha filha, a hereditariedade nos poupa muito trabalho.

Mario Quintana in: Caderno H

quarta-feira

MEU BONDE PASSA PELO MERCADO


O livro Baú dos Espantos consta de 99 poemas, alguns escritos ainda na adolescência do poeta e mantidos inéditos até então, recheados de imagens do baú da memória do poeta. É importante marcar aqui que não se trata do poeta escrevendo sobre si e sua história, no melhor estilo memorialista, mas de fragmentos líricos que remetem a uma memória não temporal, espantosa, mágica. No poema MEU BONDE PASSA PELO MERCADO pode-se perceber bem o que se afirma sobre a obra:

MEU BONDE PASSA PELO MERCADO

O que há de bom mesmo não está a venda,
O que há de bom não custa nada.
Este momento é a flor da eternidade!
Minha alegria aguda até o grito...
Não essa alegria alvar das novelas baratas,
Pois minha alegria inclui também minha tristeza
- a nossa tristeza...
Meu companheiro de viagens, sabes?
Todos os bondes vão para o Infinito!

IN: Baú dos Espantos


Este poema tem uma versão errada que corre pela internet, aliás como tantos outros poemas não só de Quintana, isso é fruto da pouca seriedade que é dada a pesquisa e a originalidade das fontes neste país.
Quintana na Praça de Alegrete

terça-feira

PRESENÇA

Vivo na imaginação o que a realidade me nega

Em várias das obras de Quintana, são diversos os textos que expressam a tendência em desconfiar dos sentidos, buscando uma visão mais profunda e verdadeira da fantasia criativa. O poema PRESENÇA a seguir, por exemplo, pode ser relacionado diretamente aos sentido dos versos publicados ontem com o poemA "De Repente":

PRESENÇA
É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu te sentir
como sinto – em mim – a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te!

In: Apontamentos de História Sobrenatural


Este poema e o de ontem, embora pertençam a livros diferentes, expressam a mesma visão sobre memória e realidade, a qual permeia toda obra de Quintana. Para ele, a memória nunca é simples lembrança, evocação. Toda infância rememorada do homem, por exemplo, será sempre a mais bela, porque é vista do presente marcado pelas limitações da vida adulta.
Voltemos ao poema postado ontem “De Repente”, quando o poeta diz “O livro na mão/ Era sempre o teu seio”, está narrando uma experiência que pertence ao plano da memória/imaginação, primeiro, porque relata um fato no passado, o que já é memória. Segundo porque a experiência relatada é um momento de sonho: o poeta senta a presença da amada no livro. Suas linhas eram perfeitas porque haviam sido desenhadas pela saudade e pela ausência.
Os dois últimos versos do poema “De Repente”, postado ontem, expressam esse sentimento de tristeza e vazio que domina o presente na imagem dos cântaros e do cavalo. Lembremos que a imagem do cavalo é comum na poética quintaniana. No poema De Repente, portanto a imagem do cavalo denuncia o vazio que o poeta sente no presente. Sua vida só se reveste de sentido no ato da imaginação, ou seja, da criação.
A mesma análise pode ser feita perfeitamente com o poema de hoje “Presença”.

segunda-feira

PASSADO E PRESENTE

FOTO LIANE NEVES


Na obra de Quintana, chama a atenção a freqüência com que o autor manifesta, em sua poética, uma profunda consciência acerca da relação que se estabelece no texto poético entre memória e imaginação. Ele vislumbra “no par imaginário/memória uma realização particular da relação arte/realidade, ou seja, tudo o que é rememorado no poema, mesmo que não tenha sido vivido pelo homem empírico, nem por isso deixa de ser verdadeiro.
No Aprendiz de Feiticeiro, essa idéia quintaniana sobre memória e recriação também pode ser verificada em textos em que a lembrança e o sonho aparecem tematizados, apresentando-se como experiências mais agradáveis e sensíveis do que o contato direto do eu-lírico com a sua realidade.

DE REPENTE

Olho-te espantado:
Tu és uma Estrela do Mar.
Um minério estranho.
Não sei...

No entanto,
O livro que eu lesse,
O livro na mão.
Era sempre o teu seio!

Tu estavas no morno da grama,
Na polpa saborosa do pão...

Mas agora encheram-se de sombra os cântaros

E só o meu cavalo pasta na solidão.

In: Aprendiz de Feiticeiro.


No poema estão sinalizados dois momentos temporais. A primeira estrofe contém verbos no presente (olho-te, és) e indica a presença física do tu, cuja identidade feminina nos é sugerida pela palavra “seio”. A segunda e terceira estrofe referem-se a um tempo diferente, com verbos no pretérito. Esses momentos distintos não estão separados apenas pela sua localização no tempo, mas pertencem a experiências de natureza diversa vividas pelo poeta. Se a princípio, a imagem da “Estrela do Mar” nos inquieta, ao nos deixarmos envolver pela atmosfera de mistério que emana da primeira estrofe, percebemos que essa sensação de inquietude e dúvida é justamente o sentido buscado nos versos.
Por sua vez, as duas estrofes seguintes, que se referem ao momento passado, não marcado pela proximidade física do “tu” revelam um contato mais direto do poeta com sua amada. No passado, nos momentos em que era só lembrança, esse “tu” estava próximo, mostrava-se mais nitidamente. A memória que, para Mario Quintana, confunde-se com a própria imaginação, recriava-o e transformava-o segundo a sua vontade. Assim, a leitura de um livro, pela imaginação do poeta, era capaz de trazer para perto o que estava distante, o corpo da amada. Cada sensação vivida, “o morno da grama” o gosto da “polpa saborosa do pão”, podia ser o caminho para essa aproximação. As imagens que nos revelam esses momentos de memória denunciam o modo com que o poeta aguça seus sentidos para perceber a magia nos elementos do cotidiano.
Esses versos vinculam-se à idéia quintaneano de que a memória é capaz de tornar o passado mais verdadeiro, porque toda a memória é, na verdade, a transfiguração desse passado pela imaginação, a verdadeira forma de conhecimento. A realidade ameaça ruir seu mundo individual, constituído de sonho e da fantasia. Sua satisfação está no passado – porque pode ser recriado e transformado – ou no tempo sem datas da imaginação, sobre o qual o sujeito exerce seu poder criador sem limites.
Análise de Doris Munhoz de Lima
Passado e Presente

sábado

DA INFLUÊNCIA DOS ESPELHOS


Maravilhoso texto de Quintana, quanta reflexão se pode extrair destas poucas palavrasem que o poeta desnuda a realidade humana. Para os outros não somos a realidade, mas o que os outros querem ver. A vida é um palco onde representamos o que gostariamos de ser mas somos vistos com olhos que certamente não são como os nossos.

”Tu lembras daqueles grandes espelhos côncavos ou convexos que, em certos estabelecimentos, os proprietários colocavam à entrada para atrair os fregueses, achatando-os, alongando-os, deformando-os nas mais estranhas configurações?
Nós, as crianças de então, achávamos uma bruta graça, por saber que era tudo
ilusão, embora talvez nem conhecêssemos o sentido da palavra “ilusão”.
Não, nós bem sabíamos que não éramos aquilo!
Depois, ao crescer, descobrimos que, para os outros, não éramos precisamente
isto que somos, mas aquilo que os outros vêem.
Cuidado, incauto leitor! Há casos, na vida, em que alguns acabam adaptando-se
a essas imagens enganosas, despersonalizando-se num segundo”eu”.
Que pode uma alma, ainda por cima invisível, contra o testemunho de milhares de espelhos?
Eis aqui um grave assunto para um conto, uma novela, um romance, ou uma tese
de mestrado em Psicologia.”

In: Na Volta da Esquina (1979)

CARTA A MARIO QUINTANA


Caro poeta Mario Quintana

Pediram-me para escrever sobre você e eu então resolvi escrever para você. Você é tão grande dentro de sua simplicidade e sinceridade de gaúcho do interior que tenho até medo de não encontrar as palavras certas.
Você nasceu em Alegrete, mas eu sei, porque vejo nos seus versos, o quanto ama Porto Alegre. Eu também amo. Já morei lá e volta e meia estou por lá. Falei que você é grande dentro de sua simplicidade porque você escreve coisas profundas em versos singelos. Gosto muito de suas quadrinhas. Algumas são cheias de humor, outras são irônicas, outras encerram verdades indiscutíveis e muitas dão conselhos como um experiente psicólogo.
Você não é complicado. A gente entende tudo o que você escreve. Sim, porque tem poema que embaralha as palavras de um jeito que não se entende e então a poesia não penetra na alma.
Sabe, gosto muito do poema “Os Arroios” de seu livro Baú de Espantos:
“Os arroios são rios guris.
Vão pulando e cantando dentre as pedras...
Conhecem o cheiro e a cor das flores que se debruçam sobre eles
Nos matos que atravessam e onde parecem quererem sestear...”.
Sinto não ter podido um dia visitá-lo no Hotel Magestic onde morava, para da sacada, contemplaremos o Guaíba e batermos um longo papo. E, se você concordasse, eu pediria que recitasse seu poema “Dedicatória” do livro A Cor do Invisível onde você mesmo define a sua poesia e que termina assim:
“E por isso as minhas palavras são cotidianas como o pão nosso de cada dia
E a minha poesia é natural e simples como a água bebida na concha da mão.”

Um abraço cordial,
Else Sant’anna Brum

sexta-feira

PAUSA


Se procurássemos resumir em um único vocábulo o que é, para Mario Quintana a essência de sua poesia, esse vocábulo seria IMAGINAÇÃO e, por extensão, a capacidade de se criarem imagens. Para Quintana, poesia e imaginação se confundem; são, na realidade, uma mesma coisa como nos mostra o seguinte texto:

PAUSA

Quando pouso os óculos sobre a mesa para uma pausa na leitura de coisas feitas, ou na leitura de minhas próprias coisas, surpreendo-me a indagar com que se parecem os óculos sobre a mesa.
Com algum inseto de grandes olhos e negras e longas pernas ou antenas?
Com algum ciclista tombado?
Não, nada disso me contenta ainda. Com que se parecem mesmo?
E sinto que, enquanto eu não puder captar a sua implícita imagem-poema, a inquietação perdurará.
E enquanto o meu Sancho Pança, cheio de si e de senso-comum, declara ao meu Dom Quixote que uns óculos sobre a mesa, além de parecerem apenas uns óculos sobre a mesa, são, de fato, um par de óculos sobre a mesa, fico a pensar qual dos dois – Don Quixote ou Sancho? – vive uma vida mais intensa, portanto, mais verdadeira...
E paira no ar o eterno mistério dessa necessidade de recriação das coisas em imagens, para terem mais vida, e da vida em poesia, para ser mais vivida.
Esse enigma, eu o passo a ti, pobre leitor.
E agora?
Por enquanto, ante a atual insolubilidade da coisa, só me resta citar o terrível dilema de Stechetti:
“lo sonno um poeta o sonno um imbecille?”
Alternativa, aliás, extensiva ao leitor da poesia...
A verdade é que a minha atroz função não é resolver e sim propor enigmas, fazer o leitor pensar e não pensar por ele.
E daí?
- Mas o melhor – pondera-me, com a sua voz pausada, o meu Sancho Pança – o melhor é repor os óculos no nariz.

In: A vaca e o hipogrifo.

quinta-feira

FLORESTA


Dédalo de dedos.
Lanterninhas súbitas
Escutam as orelhas-de-pau.Ssssio...
O gigante deitado
Se virou pro outro lado.
A velha Carabô
Parou de pentear os cabelos
É o Vencido... são as duas mãos e a cabeça do Vencido que se arrastam.
Que se arrastam penosamente para o poço da Lua,
Para o frescor da Lua, para o leite da Lua, para a lua da Lua!
(Filha, onde teria ficado o resto do corpo?).


in: Aprendiz de Feiticeiro

Nesses versos, Quintana exercita sua capacidade de imaginar livremente, como criança, sem se importar com as verdades lógicas. O texto traz imagens que podem ser associadas a elementos naturais, como as “orelhas-de-pau” (espécie de fungo), as “lanterninhas súbitas” (vaga-lumes), ou a Lua. Ao mesmo tempo aparecem nos poemas seres que pertencem somente ao mundo simbólico, imaginário: “o gigante”, o “velho Carobô” e “o Vencido”. Como a criança, o poeta não faz diferença entre essas duas realidades, pois é capaz de deixar de lado a visão racional. Para um adulto uma mesa é uma mesa, sólida, resistente. Para a criança, ocorre de maneira diferente: Onde começa o real? Onde termina?
Análise de Doris Munhoz de Lima

quarta-feira

UM POUCO DE MARIO 7


Texto escrito por Odiles Canton, Jornalista:
Vou reproduzir um trecho do livro A Globo da Rua da Praia, pagina 197,198 e 199, cujo autor, José Bertaso, narra como Quintana fez seu famoso poema " O Mapa"! A narrativa agora não é mais minha, mas sim do Bertaso:

" Quando a editora(Globo) se mudou para o bairro Menino Deus, em 1971, seguidamente Mário Quintana vinha nos visitar, e suas visitas eram realmente uma festa. Como velho conhecido da casa fazia questão de conversar com todos os chefes de departamento e seus auxiliares. No departamento de divulgação e vendas com Josefina Gama, no departamento de artes com João Braga e,depois, Leonardo Menna Barreto Gomes, na contabilidade com Osmar Csaa(sobre a situação de sua conta de direitos autorais) e,finalmente,antes de entrar na minha sala para saborear um cafezinho que, segundo ele, era feito com a tinta e aguarrás que sobravam da impressão de seus livros, conversava tímida e longamente com Maria da Glória Bordini.
Lembro-me de um final de tarde, em meados do outono de 1975, quando nos levou os originais de seu novo livro, Apontamentos da História Sobrenatural. Da minha sala, situada no sexto andar do prédio que ocupávamos no Menino Deus (cada andar tinha um pé direito com mais de 3 metros), descortinava-se uma vista maravilhosa. De um lado, o sol declinava mergulhando no Guaíba. À nossa frente, a cidade. Pousando o original de seu novo livro em minha mesa, Mario dirigiu-se à janela e nos disse, como se nunca tivesse se apercebido antes:

- QUE BELO MAPA DA CIDADE.
Levantei-me junto com Maria da Glória, fomos para o seu lado e ouvi-o repetir:

- QUE BELO MAPA DA CIDADE.
Efetivamente, do nosso lado esquerdo uma avenida seguia em direção ao centro, com as suas transversais que desembocavam numa outra avenida à nossa direita, com palmeiras nos canteiros do centro.O que aconteceu depois naquele final de tarde nos deixou muito impressionado. Enquanto voltava para minha mesa para atender ao telefone e Maria da Glória saía da minha sala para instruir Carmem Lanes sobre os termos do contrato, o poeta sentou-se à mesa de reuniões e começou a rabiscar algo num bloco. Falando ao telefone, vi Maria da Glória voltar à minha sala alguns minutos depois com a cafeteira e servir o poeta, que aproveitou a pausa para acender um novo cigarro. Ato contínuo, Maria da Glória sentou-se à mesa de reuniões e permaneceu muda enquanto Quintana rabiscava no bloco. Finalmente, depois de anotar uma solicitação de Antônio Leite ao telefone, ouvi uma gostosa gargalhada. Era o poeta exultante, acompanhado de um " Meu Deus" de Maria da Glória. Exclamava ele:

- Acabei de produzir uma poesia. O MAPA, para o meu novo livro.
Não entendendo bem o que estava se passando, recebi das mãos de Maria da Glória uma folha manuscrita com uma explicação muito agitada: " José Otávio, o Mario escreveu um poema inspirado naquilo que viu da tua janela".
Juntando-me a eles na mesa de reuniões, li sem dificuldade o que Quintana escrevera e que pretendia acrescentar ao original que repousava em minha mesa. Eis seu O MAPA, que está na página 143 de seu livro Apontamentos de História Sobrenatural, publicado por nós no outono do ano seguinte:

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...
( É nem que fosse o meu corpo!)
Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...
Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
( E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)
Quando eu for,um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso
Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
( Deste já tão longo andar!)
E talvez de meu repouso.