CADA POEMA É UM FRAGMENTO DO POEMA GERAL QUE QUINTANA VEIO COMPONDO
DURANTE TODA A SUA VIDA

terça-feira


“O passado não reconhece seu lugar: está sempre presente...”

Verificamos aqui o sentimento do poeta, em relação ao passado irrecuperável, revelando por vezes um sentimento melancólico, mostra-se nostálgico em relação ao tempo que não existe mais, uma vez que nega indiretamente o presente, a modernidade. (Anna Faedrich Martins)

NOTAS DA CIDADE

O mais triste da arquitetura moderna é a resistência do seu material.
Havia, não me lembro agora se no País das Maravilhas, da Alice, ou se na Cidade de Oz, uma velha que morava num sapato. E nós que moramos em caixas de sapato!
Esses tetos baixos me abafam... De modo que só resido em casas antigas. Acontece que as casas velhas têm proprietários velhos, muito velhos, aliás, e por isso mesmo muito morredores. E seus herdeiros resolvem sempre vendê-las a construtores de edifícios.
Resultado: há anos que venho me mudando: sou uma pobre vítima do surto do progresso e do clamor do público.
Em todo o caso, como vocês já devem ter reparado, é nessas épocas de mudança arquitetônica que se dá a maior instabilidade social e individual,
E quando põem abaixo, então, a velha casa em que nascemos?!
Mario Quintana

POEMA DESENHADO


POEMA DESENHADO

Para Mara Cilaine

No meio da página escrevo por acaso a palavra MENINA
e, à sua magia, um caminho abre-se
para ela andar

E como houvesse brotado a seus pés um arroio espiador,
uma ponte estendeu-se
para ela atravessar

Mas a menina
agora parou
e do meio da ponte namora encantadamente nas águas
a graça inacabada de seu pequenino rosto feito às pressas

Às pressas...
(nem tive tempo de lhe dar um nome)

A vida é assim
Meninazinha sem nome...

A vida nem da tempo para a Vida!

In: Baú de Espantos

sábado

ROCK


O rock é o desespero,
Como se eles estivessem não apenas no fim de um século
Mas no fim do mundo e, por isso,
Berram em vez de cantar,
Pulam em vez de dançar,
Estupram-se em vez de simplesmente se amarem...
E fazem de tudo, tudo,
No seu suicídio coletivo!

In: Velório Sem defunto

sexta-feira

NÃO BASTA SABER AMAR


Os textos bíblicos compõem outra fonte para as releituras que o poeta faz transformando-as com sua visão de mundo. No poema a seguir o Novo Testamento tem citação explicita, reescrita que, à sua maneira, Mario transforma no conselho dado ao jovem Milton Quintana. O velho sábio, já descrente dos homens, busca no texto bíblico as palavras que fundamentarão os sentidos de seus versos.

NÃO BASTA SABER AMAR

Neste mundo que tanto mal encerra,
Não basta saber amar
Mas também saber odiar
Não só servir a paz, mas também ir à guerra
Seguiremos assim o próprio exemplo
De Jesus que tanto amor pregou na terra...
Quando Ele,
Num ímpeto de cólera,
A relhaço expulsou os vendilhões do templo.

Mario Quintana

quinta-feira

INTERMEZZO


O poeta fala em eternidade, isto é, refere-se ao tempo eterno na perspectiva da arte, pois a bolha é o espaço da criação, intocável e perene na medida em que a vida se eterniza na arte.

Intermezzo
de Mario Quintana

Nem tudo pode estar sumido
ou consumido…
Deve – forçosamente – a qualquer instante
formar-se, pobre amigo, uma bolha de tempo nessa Eternidade…
e onde
- o mesmo barman no mesmo balcão,
por trás a esplêndida biblioteca de garrafas,
fonte de nossa colorida erudição -
haveremos de continuar aquela nossa velha discussão
sobre tudo e nada
até
que, fartos de tudo e nada,
desta e da outra vida,
a rir como uns perdidos,
a chorar como uns danados,
beberemos os dois nos crânios um do outro…
até o teto desabar!
(Perdão! até a bolha rebentar…)

in: Esconderijos do Tempo

quarta-feira

5005618912


5005618912

Não existe no mundo tanta gente como o número de ordem que me deram no cartão de identidade, que não vou te mostrar porque não poderias lê-lo antes de o ter dividido da direita para a esquerda em grupos de três, para depois o pronunciares cuidadosamente da esquerda para a direita. Sei que o mesmo acontece contigo, mas que te importa, que nos importa isso – antes que um dia nos identifiquem a ferro em brasa, como fazem os estancieiros com o seu gado amado?

Esse número, de quintilhões ou quatrilhões, não me lembro mais, me faz recordar que venho desde o princípio do mundo, lá do fundo das cavernas, depois de pintar nas suas paredes, com uma habilidade hoje perdida, aqueles animais que vejo nos álbuns, milagre de movimento e síntese. Agora sou analítico, expresso-me em símbolos abstratos e preciso da colaboração do leitor para que ele “veja” as minhas imagens escritas.

Olho ao redor do bar em que escrevo estas linhas. Aquele homem ali no balcão, caninha após caninha, nem desconfia que se acha conosco desde o início das eras. Pensa que está somente afogando os problemas dele, João Silva.

...Ele está bebendo a milenar inquietação do mundo!

A Vaca e o hipógrafo

terça-feira

DEUS


” Deus não está no céu. Deus está no fundo do poço
onde o deixaram tombar.
- Caim, o que fizeste do teu Deus?
Suas unhas ensangüentadas arranham em vão as paredes escorregadias.
Deus está no inferno...
É preciso que lhe emprestemos todas as nossa forças
todo o nosso alento
para trazê-lo ao menos à face da terra.
E sentá-lo depois à nossa mesa
e dar-lhe do nosso pão e do nosso vinho.
E não deixar que de novo se perca.
Que de novo se perca... nem que seja no céu!”

"Nova Antologia Poética, 1966"

“O bicho,
Quando quer fugir dos outros,
Faz um buraco na terra.
O homem,
Para fugir de si,
Fez um buraco no céu”

Idem

segunda-feira

PARA OS AMIGOS MORTOS


PARA OS AMIGOS MORTOS

Gadeia... Pelichek... Sebastião...
Lobo Alvim... Ah, meus velhos camaradas!
Aonde foram vocês? Onde é que estão
Aquelas nossas ideais noitadas?

Fiquei sozinho... Mas não creio, não,
Estejam nossas almas separadas!
Às vezes sinto aqui, nestas calçadas,
O passo amigo de vocês... E então

Não me constranjo de sentir-me alegre,
De amar a vida assim, por mais que ela nos minta...
E no meu romantismo vagabundo

Eu sei que nestes céus de Porto Alegre
É para nós que inda São Pedro pinta
Os mais belos crepúsculos do mundo!...

in: A Rua dos Cataventos

sexta-feira

DEIXA-ME SEGUIR PARA O MAR


Tenta esquecer-me...Ser lembrado é como
evocar-se um fantasma...Deixa-me ser
o que sou, o que sempre fui, um rio que vai fluindo...

Em vão em minhas margens cantarão as horas,
me recamarei de estrelas como um manto real,
me bordarei de nuvens e de asas,
às vezes virão em mim as crianças banhar-se...

Um espelho não guarda as coisas refletidas!
E o meu destino é seguir...é seguir para o Mar,
as imagens perdendo no caminho...
Deixa-me fluir, passar, cantar...

toda a tristeza dos rios
é não poderem parar!

In: Baú de Espantos