CADA POEMA É UM FRAGMENTO DO POEMA GERAL QUE QUINTANA VEIO COMPONDO
DURANTE TODA A SUA VIDA

quarta-feira

De: A RUA DOS CATAVENTOS


Eu nada entendo da questão social.
Eu faço parte dela simplesmente...
Eu sei apenas do meu próprio mal,
Que não é bem o mal de toda a gente.

Nem é deste planeta ...Por sinal
Que o mundo se lhe mostra indiferente!
E o meu anjo da guarda, ele somente,
É quem lê os meus versos afinal...

E enquanto o mundo em torno se esbarronda,
Vivo regendo estranhas contradanças
No meu vago país da Trebionza...

Entre os loucos, os mortos e as crianças,
É lá que eu canto numa eterna ronda,
Nossos comuns desejos e esperanças!...

In; A Rua Dos Cataventos

terça-feira

LUNAR


As casas cerraram seus milhares de pálpebras.
As ruas pouco a pouco deixaram de andar.
Só a lua multiplicou-se em todos os poços e poças.
Tudo está sob a encantação lunar...

E que importa se um dos nossos artefactos
lá conseguiram afinal chegar?
Fiquem armando os sábios seus botoques:
a própria lua tem sua usina de luar...

E mesmo o cão que está ladrando agora
é mais humano do que todas as máquinas.
Sinto-me artificial como esta esferográfica.

Não tanto... Alguém me há de ler com um meio sorriso
cúmplice... Deixo pena e papel... E, num feitiço antigo,
à luz da lua inteiramente me luarizo...

in: Apontamentos de História Sobrenatural

segunda-feira

DO CADERNO H


O DIABO E A CRIANÇA

Um dia o Diabo viu uma criança fazendo com o dedo um buraco na areia e perguntou-lhe que diabo de coisa estaria fazendo.
- Ué! Não vês? Estou fazendo com o dedo um buraco na areia! – espantou-se a criança.
Pobre Diabo! O seu mal é que ele jamais compreenderá que uma coisa possa ser feita sem segundas intenções.

O NARIZ COLETIVO

Nada mais deprimente do que esses retratos de família em que todos têm o mesmo nariz (será postiço) e onde todas aquelas caras parece que estão pensando: “Mas como somos iguais, como somos animais!”
Não há de ser nada. Há um anonimato ainda mais sutil. E mais grave. Quando folheamos revistas antigas, espanta-nos que todas aquelas pessoas que parecem nas fotografias tivessem a mesma expressão. Vai ver que todos pensavam igual! Era a cara da época. Era a cara de fora. Ninguém tinha a cara de dentro. “Também seremos assim?” – indagas agora na maior frustração. Pergunta supérflua. Devias inquirir: “Serei assim?” E trata, antes, de substituir a tua cara coletiva por uma fisionomia própria. Depois conversaremos.
Há outras conotações, como hoje se diz. Por exemplo: nos Estados totalitários todas as pessoas tema a mesma cara. A grande manada. O rebanho único. E se por acaso aparece um bicho diferente, a solução é simples: caça-se.

sábado

A ARVORE DOS POEMAS



Quando a árvore dos poemas não dá poemas,
Seus galhos se contorcem todos como mãos de
enterrados vivos.
Os galhos desnudos, ressecos, sem o perdão de Deus!
E, depois, meu Deus, essa lenta procissão de almas
retirantes...
De vez em quando uma tomba, exausta a beira do caminho,
Porque ninguém lhe chega ao lábio o frescor de
cântaro, a doçura de fruto que poderia haver num
poema.
Maldita a geração sem poetas que deixa as almas
Seguirem, seguirem como animais em estútida
Migração!
Quando a árvore dos poemas não dá poemas,
Qual será o destino das almas!
in: Bau de Espantos

sexta-feira

PROJETO DE PREFÁCIO


Sábias agudezas...refinamentos...
-não!
Nada disso encontrarás aqui.
Um poema não é para te distraíres
Como com essas imagens mutantes dos caleidoscópios.
Um poema não é quando te deténs para apreciar
Um detalhe
Um poema não é também quando paras no fim
Porque um verdadeiro poema continua sempre...
Um poema que não te ajude a viver e não saiba
Preparar-te para a morte
Não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras!

quinta-feira

EPÍLOGO


Em épocas de tragédia, como esta que estamos vivenciando da queda do Airbus da Air France, muitos se perguntam “por que?”. De milhares de vôos feitos na mesma rota, pelos mesmos aviões durante anos, de repente uma tragédia acontece.
Quintana também se perguntava “por que?” em Epílogo:

"Não, o melhor é não falares, não explicares coisa alguma. Tudo agora está suspenso. Nada agüenta mais nada. E sabe Deus o que é que desencadeia as catástrofes, o que é que derruba um castelo de cartas! Não se sabe... Umas vezes passa uma avalanche e não morre uma mosca... Outras vezes senta uma mosca e desaba uma cidade."
In: Sapato Florido

MAGIAS

Conheço uma cidade azul.
Conheço uma cidade cor de ferrugem.
Na primeira, há helicópteros pairando...
Na segunda, espiam de seus esconderijos os olhos das
ratazanas
No entanto
É a mesma cidade
E,
Onde a gente estiver,
Será sempre uma alma extraviada em labirintos escusos
Ou, então,
Uma alma perdida de amor...
Sim! Por ser habitado por almas
É que este nosso mundo é um mundo mágico...
Onde cada coisa – a cada passo que se der
Vai mudando de aspecto...
De forma...
De cor...
Vai mudando de alma!

In: Baú de Espantos

quarta-feira

VIVER


Quem nunca quis morrer
Não sabe o que é viver
Não sabe que viver é abrir uma janela
E pássaros pássaros sairão por ela
E hipocampos fosforecentes
Medusas translúcidas
Radiadas
Estrelas-do-mar...ah,
Viver é sair de repente
Do fundo do mar
E voar...
e voar,
cada vez para mais alto
Como depois de se morrer!

In: Baú de Espantos

Alegria de Viver
Grafite Alemão
Flavio Takai

segunda-feira

TEMPESTADE NOTURNA


Tive a oportunidade, nos quase vinte anos em que trabalhei no jornal Correio do Povo, de Porto Alegre, de conviver com o poeta Mario Quintana. Nossas mesas de trabalho, na redação ficavam vis-à-vis. Chegando à tarde, depois de tomar um cafezinho no bar do jornal, o poeta punha-se a ler a sua própria poesia. Invariavelmente. Lá pelo final da tarde, pegava do lápis (asa vezes da caneta esferográfica) e começava a rabiscar naquele antigo papel de jornal que nos era oferecido pela redação, antigas resmas de composição, então já reduzidas a toalhas para secar as mãos. Enfim, o poeta, ao final da jornada, às vezes já no início da noite, usava sua imensa máquina de escrever Olivetti 88 e punha-se a digitar (literalmente, porque Mario escrevia com não mais do que quatro dedos, dois de cada mão), com vagar, e eu diria, com método, o novo poema, qual fênix, renascido de outros tantos que o mesmo poeta escrevera e ali deglutira, antropofagicamente. É como se Mario Quintana conversasse permanentemente consigo mesmo, numa espécie de solilóquio continuado...
Antonio Hohlfeldt
“O encontro dos vários temas na poesia de Quintana”, in Caderno de Sábado, Porto Alegre, Caderno do Povo, 10.11.1979

TEMPESTADE NOTURNA

Noite alta,
na soçobrante Nau exposta aos quatro ventos,
em pleno céu sulcado de relâmpagos,
os marinheiros mortos trovejam palavrões.

Ó velhos marinheiros meus avós...
Para eles ainda não terminou a espantosa Era dos
Descobrimentos!
Santa Bárbara
e São Jerônimo,
transidos de divino amor,
escutam suas pragas como orações.

Quando eu acordar amanhã, livre e liberto como uma asa
vou rezar a São Jerônimo
vou rezar a Santa Bárbara
por este nosso fim de século pobre Nau perdida no
nevoeiro
que em vão busca o rumo

das eternas, das misteriosas Américas ainda por descobrir
Mario Quintana in: Bau de Espantos

Memoria de Paulo Corrêa Lopes

O poema é uma homenagem ao poeta Paulo Correa Lopes. Quintana admirava sua obra decerto. Uma pequena amostra da obra do homenageado:
Homens Humildes
Ninguém sabe a história dos homens humildes
Que adormeceram para sempre.
Ninguém sabe as horas boas ou más
Que viveram na terra.
Ninguém sabe o impossível que sonharam
Paulo Correa Lopes in: Obra Poética

MEMORIA DE PAULO CORREA LOPES

Tua poesia não leva à loucura, poeta
Porque sempre voltaste com uma voz mais pura,
Não a voz bramidora e cava dos profetas
Mas um fluir de pura fonte oculta
Na mata...E é como se ir andando descalço sobre a relva
E descobrir de súbito o Trevo de Quatro Folhas
De que nem se sabia que andava à procura
E fica-se um tempo olhando, olhando, sem colhê-lo...
E a tua voz é mansa como quem acaricia o pelo
De um animal doente...Mas a verdade é que
Tua poesia faz bem a gente...
Por que infernos andou a tua pobre alma perdida
Para falar de Deus tão simplesmente
Que até deixaste uma esperança em nossa vida?
Mario Quintana