CADA POEMA É UM FRAGMENTO DO POEMA GERAL QUE QUINTANA VEIO COMPONDO
DURANTE TODA A SUA VIDA

sexta-feira

ERA UMA RUA TÃO ANTIGA...


Para Telmo Vergara

Era uma rua tão antiga, tão distante
que ainda tinha crepúsculos, a desgraçada...
Acheguei-me a ela com este velho coração palpitante
de quem tornasse a ver uma primeira namorada

em todo o seu feitiço do primeiro instante.
E a noite, sobre a rua, era toda estrelada...
Havia, aqui e ali, cadeiras na calçada...
E o quanto me lembrei, então, de um amigo constante,

dos que, na pressa de hoje, nem se usam mais
como essas velhas ruas que parecem irreais
e a gente, ao vê-las, diz: “Meu Deus, mas isto é um sonho!”

Sonhos nossos? Não tanto, ao que suponho...
São os mortos, os nossos pobres mortos que, saudosamente,
estão sonhando o mundo para a gente!

De: Apontamentos de História Sobrenatural

O Chalé da Praça Quinze


O chalé fazia parte da gente. Me lembro do Bilo, com o seu perfil perpendicular de cegonho sábio, o longo bico mergulhado – não no gargalo do gomil da fábula, não propriamente no canecão de chop, que era de fato o que estava acontecendo – mas no poço artesiano de si mesmo.
Me lembro do Reynaldo, redondo, pacato, amável, tão amável, pacato e redondo que parecia um desses personagens de romance policial que ninguém desconfia que seja o autor do último crime da mala.
Me lembro do Cavalcanti com a sua cara silenciosa e receptiva de mata-borrão.
Me lembro de mim, silencioso. Sim, a determinada hora éramos todos silenciosos...essa hora em que não é preciso dizer nada, nem mesmo o verso inesquecível de Valery: “Oh mon bom compagnon de silence”.
Este silêncio era apenas quebrado quando chegava o Athos, o Athos centrífugo e pirotécnico. Mas isso não perturbava o nosso silêncio, nem o próprio silêncio do Athos...Pois havia um profundo e misterioso rio de silêncio que corria subterraneamente a todas as nossas palavras.
Era o rio da poesia?
O rio da harmoniosa confusão das almas?
Agora é apenas o rio do tempo que passou.
De: Caderno H

quinta-feira

AS TRINTA LINHAS



Um dia, Álvaro Moreira, já avô, contou-me que seu pai ainda lhe dizia: “Mas Alvinho, por que tu não escreves coisas de mais fôlego?” E ele, espalmando as mãos num gesto de desculpa: “Mas eu não tenho fôlego, Papai...” Depois dessa história, eu não precisava dizer mais nada. Contudo, não me sai da lembrança um professor dos meus tempos de ginásio que, ao dar-nos o tema para a Redação de Português, dizia: “Não adianta escreverem muito meninos, porque só leio a primeira página; o resto, eu rasgo” E assim nos dava, ao mesmo tempo, a primeira e a melhor lição de estilo, obrigando-nos a reter as rédeas de Pégaso e a dizer tudo (que, aliás, não podia ser muito) nas trinta linhas de papel almaço, contando título e assinatura. A ele, pois, ao saudoso major Leonardo Ribeiro, a minha gratidão e a de meus leitores.
Mario Quintana in: Caderno H

ARQUITETURA FUNCIONAL

Foto Liane Neves

Casas sem mistério, sem o encanto dos porões e sotãos que fazem o poeta viajar com a  imaginação. As casas novas e funcionais trazem o desencanto da realidade fria e nua. Nelas não cabe o sonho que é o secreto visitante dos poetas.

Não gosto da arquitetura nova
Porque a arquitetura nova não faz casas velhas.
Não gosto das casas novas
Porque as casas novas não têm fantasmas
E, quando digo fantasmas, não quero dizer essas assombrações
         vulgares
Que andam por aí...
É não-sei-quê de mais sutil
Nessas velhas, velhas casas,
Como, em nós, a presença invisível da alma...tu nem sabes
A pena que me dão as crianças de hoje!
Vivem desencantadas como uns órfãos:
As suas casas não tem porões nem sótãos,
São umas pobres casas sem mistério.
Como pode nelas vir morar o sonho?
O sonho é sempre um hospede clandestino e é preciso
(Como bem sabíamos)
Ocultá-lo das visitas
(Que diriam elas, as solenes visitas?)
É preciso ocultá-lo das outras pessoas da casa.
É preciso ocultá-lo dos confessores,
Dos professores,
Até dos Profetas
(Os Profetas estão sempre profetizando outras cousas...)
E as casa novas não tem ao menos aqueles longos,
intermináveis corredores
Que a lua vinha às vezes assombrar!

De: Apontamentos de História Sobrenatural

Centro de Cultura Mario Quintana - um dos principais complexos culturais da cidade de Porto Alegre e do país com salas de teatro, cinema, exposições, bibliotecas, ludoteca, discoteca e cafés. Transformado a partir antigo Hotel Magestic, projetado pelo arquiteto Theodor Wiedersphan, se configurando em 2 edifícios interligados por passarelas sendo o edificio da ala oeste construído entre 1916 e 1918 e a ala leste entre 1926 e 1933, foi até a sua morte casa do principal poeta do estado.(foto Juan Pablo Morino - CLICK NAS FOTOS PARA AMPLIA-LAS

Detalhe da Travessa dos Cataventos, maneira ao qual o poeta se referia a esta passagem, pois reparava que o vento que passava por ela revirava o vestido das moças que por ela passavam.(foto Ricardo André Frantz)

quarta-feira

POEMA DA CIRCUNSTÂNCIA


Foto Liane Neves

É muito interessante essa dicotomia de Quintana. Ao mesmo tempo em que amava a sua Porto Alegre, cidade que escolheu para viver toda a sua vida, sentia a falta das pequenas cidades interioranas. Talvez fosse isso mesmo que o fazia viver em Porto Alegre, esse cultivar da nostalgia que o tornava produtivo como poeta.
É celebre aquele seu pensamento:

Cidades grandes: dias sem pássaros, noites sem estrelas.

POEMA DA CIRCUNSTÂNCIA
Onde estão os meus verdes?
Os meus azuis?
O arranha-céu comeu!
E ainda falam nos mastodontes, nos brontossauros,
nos tiranossauros,
Que mais sei eu...
Os verdadeiros monstros, os Papões, são eles, os arranha céus!
Daqui
Do fundo
Das suas goelas
Só vemos o céu, estreitamente, através de suas empinadas
gargantas ressecas.
Para que lhes serviu beberem tanta luz?!
Defronte
Á janela onde trabalho
Há uma grande árvore...
Mas já estão gestando um monstro de permeio!
Sim, uma grande árvore...Enquanto há verde,
Pastai, pastai, os olhos meus...
Uma grande árvore muito verde...Ah,
Todos os meus olhares são de adeus
Como um último olhar de um condenado!

De: Apontamentos de História Sobrenatural

terça-feira

SE O POETA FALAR NUM GATO

EDY LIMA E QUINTANA

Escritora , dramaturga e jornalista, Edy Lima hoje com 85 anos, foi uma paixão de Mario Quintana na década de 1940:
"Só percebi o entusiasmo dele por mim depois de velha, quando reli seus manuscritos seis anos atrás. Estavam perdidos e os reencontrei durante a arrumação da minha mudança para São Paulo, quando estava deixando o Rio de Janeiro."

SE O POETA FALAR NUM GATO
Se o poeta falar num gato, numa flor,
num vento que anda por descampados e desvios
e nunca chegou à cidade...
se falar numa esquina mal e mal iluminada...
numa sacada... num jogo de dominó...
se falar naqueles obedientes soldadinhos de chumbo que morriam de verdade...
se falar na mão decepada no meio de uma escada de caracol...
Se não falar em nada
e disser simplesmente tralalá... Que importa?
Todos os poemas são de amor!

De: Esconderijos do Tempo

segunda-feira

DATA E DEDICATÓRIA


Teus poemas, não os dates nunca... um poema
Não pertence ao Tempo...Em seu país estranho,
Se existe hora, é sempre a hora extrema
Quando o anjo Azrael nos estende ao sedento
Lábio o cálice inextinguível...
Um poema é de sempre, Poeta:
O que tu fazes hoje é o mesmo poema
Que fizeste em menino,
É o mesmo que,
Depois que tu te fores
Alguém lerá baixinho e comovidamente,
A vivê-lo de novo...
A esse alguém,
Que talvez nem tenha ainda nascido,
Dedica, pois, teus poemas.
Não os dates, porém;
As almas não entendem disso...
De: Baú dos Espantos

domingo

De Sapato florido

FOTO LUIZ EDUARDO ACHUTTI

Não sou ligado muito em questões técnico-literárias, prefiro captar na arte o sentimento, a emoção, a temática. Para alguns Quintana é classificado como neo-simbolista devido ao tom místico e espiritualista apresentado em muitos de seus versos. Para mim Quintana é poesia e isso basta.

OS FANTASMAS DO PASSADO

E não te lembras aquela vez em que...?

Faço que me lembro. Rio. Solto saudosos suspiros e exclamações de puro gozo. Oh! Que monstruosa e implacável memória a dos nossos companheiros de infância.

E depois, como estão envelhecidos, os pobres diabos!

É o que os torna ainda mais antipáticos.


DO INEDITO

E quando, morto de mesmice, te vier a nostalgia de climas e costumes exóticos, de jornais impressos em misteriosos caracteres, de curiosas beberagens, de roupas de estranho corte e colorido, lembra-te de que para alguém nós somos os antípodas: um remoto, inacreditável povo do outro lado do mundo, quase do outro lado da vida – uma gente de se ficar olhando, olhando, pasmado...Nós os antípodas, somos assim.

SAPATO FLORIDO, 1948

sábado

O VENTO E A CANÇÃO

Quintana,Helio Ricciardi,Alcy Cheuiche

O VENTO E A CANÇÃO

Para Tânia Carvalhal

Só o vento é que sabe versejar:
Tem um verso a fluir que é como um rio de ar.

E onde a qualquer momento podes embarcar:
O que ele está cantando é sempre o teu cantar.

Seu grito é o grito que querias dar,
É ele a dança que ias tu dançar.

E, se acaso quisesses te matar,
Te ensinava cantigas de esquecer

Te ensinava cantigas de embalar...
E só um segredo ele vem te dizer:

- é que o vôo do poema não pode parar.