CADA POEMA É UM FRAGMENTO DO POEMA GERAL QUE QUINTANA VEIO COMPONDO
DURANTE TODA A SUA VIDA

quarta-feira

OS AMIGOS POETAS

A foto abaixo já foi postada no Blog anteriormente, inclusive com histórico. Foi tirada por ocasião da comemoração dos 60 anos de Quintana. Mas como ela tem tudo a ver com o poema hoje postado, onde Quintana declara sua admiração e respeito aos amigos poetas resolvi postá-la novamente.

Quintana e Amigos
Drumond-Vinicius-Bandeira-Quintana e Mendes Campos


TRES POEMAS QUE ME ROUBARAM

Lá pelas tantas menos um quarto eu suspirei num poema:
“Vontade de escrever ‘Sagesse’ de Verlaine...”
Mas o que eu tenho vontade mesmo
É de haver escrito “A pedra no meio do caminho”
a “Balada & Canha”, a “Estrela da manhã”,
se
- Ó Musa Infiel,
não te houvessem possuído antes
Carlos, Augusto e Manuel!...

terça-feira

DO CADERNO H


PÁGINA DA HISTÓRIA

De uma História Universal editada no século XXXIII: “Os homens do século XX, talvez por motivos que só a miséria explicaria, costumavam aglomerar-se inconfortavelmente em enormes cortiços de cimento. Alguns atribuem o fato a não se sabe que misterioso pânico ao simples contato com a natureza: mas isso é matéria de ficcionistas, místicos e poetas... O historiador sabe apenas a haver, em certas grandes áreas, conjuntos de cortiços erguidos lado a lado sem o suficiente espaço e arejamento, que poderiam alojar vários milhões de individuas. Era por assim dizer, uma vida de insetos – mas sem a segurança que apresentam as habitações construídas por estes.”

domingo

MÃE

Mãe e filho - Pablo Picasso

Mãe...São três letras apenas
As desse nome bendito:
Também o céu tem três letras
E nelas cabe o infinito
Para louvar a nossa mãe,
Todo bem que se disser
Nunca há de ser tão grande
Como o bem que ela nos quer

Palavra tão pequenina,
Bem sabem os lábios meus
Que és do tamanho do CÉU
E apenas menor que Deus!

Mário Quintana

sábado

FLORICULTURA DO CERRADO


Não tem o que comentar, basta ler. A clareza de Quintana é cristalina, como a água que falta aos retirantes.

Quando a árvore não dá frutos
seus galhos se contorcem
como mãos de enterrados vivos,
os galhos desnudos,
ressecos, sem o perdão de Deus!
E, depois, meu Deus,
uma lenta procissão de retirantes...
De vez em quando um tomba,
exausto à beira do caminho
porque não há no lábio o frescor da água.
A doçura do fruto...

Retirantes - Candido Portinari

quinta-feira

A IMAGEM PERDIDA

Quintana morreu em 5 de maio de 1994, aos 87 anos e deixou como herança sua grande obra poética. E faz parte dessa herança, além de tudo o que já tinha sido publicado, os seus pertences pessoais, como livros, prêmios, objetos preciosos como originais manuscritos e datilografados, fotos, correspondências, óculos, críticas e publicações sobre o autor e provavelmente material inédito.
Todo esse acervo foi entregue ao Centro de Memória Literária da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, pela herdeira de Quintana, a sobrinha-neta Elena, para que seja preservado e divulgado.
Um dos poemas manuscritos, encontrados no acervo é:

A IMAGEM PERDIDA

Como essas coisas que não valem nada
e parecem guardadas sem motivo
(alguma folha seca... uma taça quebrada...)
eu só tenho um valor estimativo.
Nos olhos que me querem é que eu vivo
esta existência efêmera e encantada...
Um dia hão de extinguir-se e, então, mais nada
refletirá meu vulto vago e esquivo...
E cerraram-se os olhos das amadas,
o meu nome fugiu de seus lábios vermelhos,
nunca mais, de um amigo, o caloroso abraço...
E, no entretanto, em meio desta longa viagem,
muitas vezes, parei... e, nos espelhos,
procuro em vão minha perdida imagem!

quarta-feira

ESSA LEMBRANÇA QUE NOS VEM


Essa lembrança que nos vem às vezes...
folha súbita
que tomba
abrindo na memória a flor silenciosa
de mil e uma pétalas concêntricas...
Essa lembrança...mas de onde? de quem?
Essa lembrança talvez nem seja nossa,
mas de alguém que, pensando em nós, só possa
mandar um eco do seu pensamento
nessa mensagem pelos céus perdida...
Ai! Tão perdida
que nem se possa saber mais de quem!
Noite de autografos

terça-feira

QUINTANA VIVE NAS POESIAS IMITANDO PASSARINHOS


"...Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão... que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades, às pessoas, que a vida é bela sim, e que eu sempre dei o melhor de mim...e que valeu a pena....”
Adriana Britto


Há exatos 15 anos morria o nosso poetinha, em Porto Alegre, aos 87 anos.

"Eu fui um menino por trás de uma vidraça, nasci no ano da descoberta do gás neon."

Morreu de problemas cardiacos e respiratórios agravados pelo hábito de fumar.Deixou escritos 56 livros entre os seus e as traduções.

"Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo. Nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão".

Quintana dizia que quando morresse, "levaria junto apenas as madrugadas, pôr-de-sóis, algum luar, asas em bando, mais o rir das primeiras namoradas".
"Érico Veríssimo deixou o seguinte comentário sobre o amigo:""Vou revelar a vocês um segredo: descobri outro dia que o Quintana, na verdade, é um anjo disfarçado de homem. Às vezes,quando ele se descuida ao vestir o casado, suas asas ficam de fora".

BERNARDO

segunda-feira

O SILÊNCIO


O mundo, às vezes, fica-me tão insignificativo
Como um filme que houvesse perdido de repente o som.
Vejo homens, mulheres: peixes abrindo e fechando a boca num aquário.
Ou multidões: macacos pula-pulando nas arquibancadas dos estádios...
Mas o mais triste é essa tristeza toda colorida dos carnavais
Como a maquilagem das velhas prostitutas fazendo trottoir.
Às vezes eu penso que já fui um dia um rei, imóvel no seu palanque,
Obrigado a ficar olhando
Intermináveis desfiles, torneios, procissões, tudo isso...
Oh! Decididamente o meu reino não é deste mundo!
Nem do outro...

sábado

O HOMEM E A ÁGUA

FOTO DANIEL DE ANDRADE SIMÕES

A SEMANA QUE SE INICIA AMANHÃ É UMA SEMANA ESPECIAL PARA O BLOG. QUINTANA MORREU NO DIA 5 DE MAIO DE 1994, AOS 87 ANOS,DEIXANDO COMO HERANÇA SUA GRANDE OBRA POÉTICA.

O HOMEM E A ÁGUA
Deixa-me ser o que eu sou,
o que sempre fui,
um rio que vai fluindo.
E o meu destino é seguir...
seguir para o mar.
O mar onde tudo recomeça...
Onde tudo se refaz...
Mario Quintana