CADA POEMA É UM FRAGMENTO DO POEMA GERAL QUE QUINTANA VEIO COMPONDO
DURANTE TODA A SUA VIDA

quarta-feira

ESSA LEMBRANÇA QUE NOS VEM


Essa lembrança que nos vem às vezes...
folha súbita
que tomba
abrindo na memória a flor silenciosa
de mil e uma pétalas concêntricas...
Essa lembrança...mas de onde? de quem?
Essa lembrança talvez nem seja nossa,
mas de alguém que, pensando em nós, só possa
mandar um eco do seu pensamento
nessa mensagem pelos céus perdida...
Ai! Tão perdida
que nem se possa saber mais de quem!
Noite de autografos

terça-feira

QUINTANA VIVE NAS POESIAS IMITANDO PASSARINHOS


"...Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão... que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades, às pessoas, que a vida é bela sim, e que eu sempre dei o melhor de mim...e que valeu a pena....”
Adriana Britto


Há exatos 15 anos morria o nosso poetinha, em Porto Alegre, aos 87 anos.

"Eu fui um menino por trás de uma vidraça, nasci no ano da descoberta do gás neon."

Morreu de problemas cardiacos e respiratórios agravados pelo hábito de fumar.Deixou escritos 56 livros entre os seus e as traduções.

"Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo. Nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão".

Quintana dizia que quando morresse, "levaria junto apenas as madrugadas, pôr-de-sóis, algum luar, asas em bando, mais o rir das primeiras namoradas".
"Érico Veríssimo deixou o seguinte comentário sobre o amigo:""Vou revelar a vocês um segredo: descobri outro dia que o Quintana, na verdade, é um anjo disfarçado de homem. Às vezes,quando ele se descuida ao vestir o casado, suas asas ficam de fora".

BERNARDO

segunda-feira

O SILÊNCIO


O mundo, às vezes, fica-me tão insignificativo
Como um filme que houvesse perdido de repente o som.
Vejo homens, mulheres: peixes abrindo e fechando a boca num aquário.
Ou multidões: macacos pula-pulando nas arquibancadas dos estádios...
Mas o mais triste é essa tristeza toda colorida dos carnavais
Como a maquilagem das velhas prostitutas fazendo trottoir.
Às vezes eu penso que já fui um dia um rei, imóvel no seu palanque,
Obrigado a ficar olhando
Intermináveis desfiles, torneios, procissões, tudo isso...
Oh! Decididamente o meu reino não é deste mundo!
Nem do outro...

sábado

O HOMEM E A ÁGUA

FOTO DANIEL DE ANDRADE SIMÕES

A SEMANA QUE SE INICIA AMANHÃ É UMA SEMANA ESPECIAL PARA O BLOG. QUINTANA MORREU NO DIA 5 DE MAIO DE 1994, AOS 87 ANOS,DEIXANDO COMO HERANÇA SUA GRANDE OBRA POÉTICA.

O HOMEM E A ÁGUA
Deixa-me ser o que eu sou,
o que sempre fui,
um rio que vai fluindo.
E o meu destino é seguir...
seguir para o mar.
O mar onde tudo recomeça...
Onde tudo se refaz...
Mario Quintana

quarta-feira

OLHO AS MINHAS MÃOS

Depois de "AS MÃOS DE MEU PAI" vamos ouvir na voz do próprio QUINTANA o poema "OLHO AS MINHAS MÃOS" declamado por ele em 1983 na ANTOLOGIA POÉTICA DE MARIO QUINTANA.


Olho as Minhas Mãos
Olho as minhas mãos: elas só não são estranhas
Porque são minhas. Mas é tão esquisito distendê-las
Assim, lentamente, como essas anêmonas do fundo do mar...
Fechá-las, de repente,
Os dedos como pétalas carnívoras !
Só apanho, porém, com elas, esse alimento impalpável do tempo,
Que me sustenta, e mata, e que vai secretando o pensamento
Como tecem as teias as aranhas.
A que mundo
Pertenço ?
No mundo há pedras, baobás, panteras,
Águas cantarolantes, o vento ventando
E no alto as nuvens improvisando sem cessar.
Mas nada, disso tudo, diz: "existo".
Porque apenas existem...
Enquanto isto,
O tempo engendra a morte, e a morte gera os deuses
E, cheios de esperança e medo,
Oficiamos rituais, inventamos
Palavras mágicas,
Fazemos
Poemas, pobres poemas
Que o vento
Mistura, confunde e dispersa no ar...
Nem na estrela do céu nem na estrela do mar
Foi este o fim da Criação !
Mas, então,
Quem urde eternamente a trama de tão velhos sonhos ?
Quem faz - em mim - esta interrogação ?

terça-feira

AS MÃOS DE MEU PAI


As mãos de Quintana - foto Liane Neves


“AS MÃOS DE MEU PAI” uma obra prima de Quintana sem dúvida. Através da observação tão minuciosamente poética das mãos do velho pai, “essa beleza que se chama simplesmente vida” Mario construiu essa pérola poética que não é para se ler apenas uma vez, pois, a cada leitura, mais profundidade se encontra nas estrofes.

AS MÃOS DE MEU PAI

As tuas mãos tem grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já de cor de terra
- como são belas as tuas mãos
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram da
nobre cólera dos justos
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, essa beleza
que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam nos braços
da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas...
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los
contra o vento?
Ah! Como os fizeste arder, fulgir, com o milagre das
tuas mãos!
E é, ainda, a vida que transfigura das tuas mãos nodosas...
essa chama de vida – que transcende a própria vida
...e que os Anjos, um dia, chamarão de alma.
Mario Quintana

segunda-feira

DENTRO DA NOITE ALGUÉM CANTOU


Dentro da noite alguém cantou.
Abri minhas pupilas assustadas
De ave noturna...E as minhas mãos pelas paradas,
Não sei que frêmito as agitou!

Depois, de novo, o coração parou.
E quando a lua, enorme, nas estradas
Surgem...dançam as minhas lâmpadas quebradas
Ao vento mau que as apagou...

Não foi nenhuma voz amada
Que preludiando a canção sonâmbula,
No meu silêncio me procurou...

Foi minha própria voz, fantástica e sonâmbula!
Foi, na noite alucinada,
A voz do morto que cantou.

sábado

CURTAS

festividade da OAB Porto Alegre-1977

Continuando a sequência de quadras onde Quintana demonstra de forma clara seu desprezo a dogmas e mitos. Deixa claro nos dois primeiros poemas que sua religiosidade passa distante daquelas professadas pelas igrejas. Por fim em “Emergência” nos mostra sua visão da importância do poeta como um artista que leva à reflexão.

DOGMA E RITUAL

Os dogmas assustam como trovões
e que medo de errar a sequência de ritos!
Em compensação,
Deus é mais simples do que as religiões.

O CAMINHO

Passa o rei com seu cortejo.
Passa o Deus no seu andor.
E, milênios depois, neste caminho, apenas
Ainda sopra o vento nas macieiras em flor...


EMERGÊNCIA

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estas numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.

MARIO QUINTANA em "Apontamentos de História Sobrenatural"

sexta-feira

POEMAS CURTOS

Quintana escreveu uma infinidade de poemas curtos, quadras e pensamentos que mostram muito de sua personalidade. Seu sinismo em relação a dogmas é mais latente nesses pequenos poemas, que o deixariam indignado se eu os chamasse de poeminhas. Apresento abaixo alguns todos retirados do livro Velório Sem Defunto:


Nos solenes banquetes
Nos solenes banquetes de próceres internacionais
- em especial sobre desarmamentos -
O aparte mais espontâneo
é o riso de prata de uma colherinha
Que por acaso tombou no chão!


Da Imparcialidade
O homem - eternamente escravo de suas paixões pessoais -
Ë absolutamente incapaz de imparcialidade.
Só Deus é imparcial.
Só Ele é que pode, por exemplo,
Abençoar, ao mesmo tempo,
As bandeiras de dois exércitos inimigos que vão entrar em luta...


Madrigal
Tu és a matéria plástica de meus versos, querida...
Porque, afinal,
Eu nunca fiz meus versos propriamente a ti:
Eu sempre fiz versos de ti!


Estranheza
Os vivos e os mortos
Sempre tivemos uma coisa em comum:
Não acreditamos muito uns nos outros...


Um novo Cântico dos Cânticos
Vamos compor, ó Bem-Amada, um novo Cântico dos Cânticos:
"Tu louvarás unicamente a ti!
Eu louvarei unicamente a mim!"
(É tão sincero quanto o outro, não achas?...)


Reflexão para o dia de finados
Morrer, enfim, é realizar o sonho
que todas as crianças têm...
O motivo? Só elas sabem muito bem:
Fugir... fugir de casa!


As despedidas
Nas despedidas
O mais doloroso é que
- tanto o que fica como o que vai embora -
Poem-se os dois a pensar:
"Meu Deus! quando é que parte o raio deste trem!"