CADA POEMA É UM FRAGMENTO DO POEMA GERAL QUE QUINTANA VEIO COMPONDO
DURANTE TODA A SUA VIDA

quinta-feira

VIRÁ BATER À NOSSA PORTA


Esse tropel de cascos na noite profunda
Me enche de espanto, amigo...
Pois agora não existem mais carros de tração animal.
É com certeza a morte no seu carro fantasma
Que anda a visitar seus doentes pela cidade..
Será ela? Virá acaso bater à nossa porta?
Mas os fantasmas não batem; eles atravessam tudo silenciosamente,
Como atravessam nossas vidas...
A morte é a coisa mais antiga do mundo
E sempre chega pontualmente na hora incerta...
Que importa, afinal?
É agora a única surpresa que nos resta!



Mario Quintana; Velório sem defunto,

sábado

NEM SABES COMO FOI AQUELE DIA


Nem sabes como foi naquele dia...
Uma reunião em suma tão vulgar!
Tu caíste em estado de poesia
Quando o Sr. Prefeito ia falar...

O mal sagrado! Que remédio havia?!
E como para nunca mais voltar,
Lá te foste na tarde de elegia,
Por essas ruas a perambular.

Paraste enfim junto a um salgueiro doente,
Um salgueiro que espiava sobre o rio
A primeira estrelinha...E, longamente,

Também ficaste à espera (quanta ânsia!)...
Mas a estrelinha, como um sonho, abriu,
Longe, no céu azul da rua da infância!

Mario Quintana em: A Rua dos Cataventos

sexta-feira

POEMA EM TRÊS TEMPOS


Debruço-me
Sobre mim
Com a melancolia
De quem contempla as coisas disparatadas que há
na vitrine de um bric...

Pobre alma, menina feia!
As lágrimas embaciam os teus óculos.
E o mais triste é que são verdadeiras lágrimas,
São um mero subproduto do tempo,
Como esse pó de asas de mariposas
Que ele vai esfarelando, aqui, e ali, sobre todas as coisas...

II

O meu anjo da guarda é dentuça,
Tem uma asa mais baixa que a outra.

III

Obrigado, meninazinha, por esse olhar confiante,
Belo beijo como uma entrelinha...
Há muito que eu não me sentia assim, tão bem comigo...
Há muito que só me dirigiam olhares de interrogação!
Poeta, está na hora em que os galos móveis dos pára-raios
Bicam a rosa dos ventos,
Está na hora de trocares a tua veste feita de momentos...
Esta na hora
E quando
Aflito
Levas
Teu relógio ao ouvido,
Só ouves o misterioso apela das águas cantando distantes!

quinta-feira

DO CADERNO H

Mais um gostoso texto de CADERNO H, onde Quintana confronta novamente a tradição com a modernidade, o novo e o velho. O texto se desenrola com simplicidade e numa linguagem regional, delicioso de acompanhar.

AQUELE ESTRANHO ANIMAL

Os de Alegrete dizem que o causo se deu em Itaquí, os de Itaquí dizem que foi no Alegrete, outros juram que só poderia ter acontecido em Uruguaiana. Eu não afirmo nada, sou neutro.
Mas pelo que me contaram, o primeiro automóvel que apareceu entre aquela brava indiada, eles o mataram a pau, pensando que fosse um bicho. A história foi assim como já lhes conto, metade pelo que ouvi dizer, metade pelo que inventei e a outra metade pelo que sucedeu às deveras. Viram? É uma história tão extraordinária mesmo que até tem três metades...Bem, deixemos de filosofança e vamos ao que importa. A coisa foi assim, como eu tinha começado a lhes contar.
Ia um piazinho estrada a fora no seu petiço – tropr, tropr, tropr – (esse é o barulho do trote) – quando de repente ouviu – fufufupumbum! Fufufupumbum chiiiipum!
E eis que a “coisa”, até então invisível, apontou por detrás de um capão, bufando que nem touro brigão, saltando que nem pipoca, se traqueando que nem velha coroca, chiando que nem chaleira derramada e largando fumo pelas ventas como a mula-sem-cabeça.
“Minha Nossa Senhora!”
O piazinho deu meia-volta e largou numa disparada louca rumo à cidade, com os olhos do tamanho de um pires e os dentes rilhando, mas bem cerrados para que o coração aos corcoveios não lhe saltasse pela boca.
É claro que o petiço ganhou luz do bicho, pois no tempo dos primeiros autos eles perdiam para qualquer matungo.
Chegado que foi, o piazinho contou a história como pode, mal e mal e depressa, que o tempo era pouco e não dava para maiores explicações, pois já se ouvia o barulho do bicho que se aproximava.
Pois bem, minha gente: quando este apareceu na entrada da cidade, caiu aquele montão de povo em cima dele, os homens uns com porretes, outros com garruchas que nem tinham tido tempo de carregar de pólvora, outros com boleaderas, mas todos a pé, porque também não houvera tempo para montar, e as mulheres umas empunhando suas vassouras, outras as suas pás de mexer marmelada, e os guris, de longe, se divertindo com seus bodoques, cujos tiros iam acertar de cheio nas costas dos combatentes. E tudo abaixo de gritos e de pragas que nem lhes posso repetir aqui.
Até que enfim houve uma pausa para respiração.
O povo se afastou resfolegante, e abriu-se uma clareira, no meio do qual se viu o auto emborcado, amassado, quebrado, escangalhado, e não digo que morto, porque as rodas ainda giravam no ar, nos últimos transes de uma teimosa agonia. E quando as rodas pararam, as pobres, eis que o motorista, milagrosamente salvo, saiu penosamente engatinhando por debaixo dos escombros de seu ex-automóvel.
- A la pucha! – exclamou então um gasca, entre espantado e penalizado, - o animal deu cria!
Mario Quintana em CADERNO H.

quarta-feira

DO CADERNO H


No Caderno H, Quintana começa a demonstrar certa angústia diante do progresso que ele nos apresenta como “insidiosa substituição da harmonia pela cacofonia”. Quintana demonstra sua insatisfação para com o destino das coisas, o tradicional choque do avanço tecnológico e industrial contra uma harmonia ideal e romântica que habitava o passado. No texto MARIA FUMAÇA, sentimos claramente essa posição de seu autor.

MARIA FUMAÇA

As lentas, poeirentas, deliciosas viagens nos trens antigos. As famílias (viajavam famílias inteiras) levavam galinhas com farofa em cestas de vime, que ofereciam, pois não, aos viajantes solitários.
E os viajantes solitários (e os meninos) ainda desciam nas estaçõezinhas pobres...para pastéis, os sonhos, as laranjas...
E ver as moças da localidade, que iam passear nas gares para ver os viajantes, uns e outros de olhos cumpridos – eles num sonho repentino de ficar, elas num sonho passageiro de partir.
Um apito, a fumarada, resolvia tudo.
Mas hoje nem há o que resolver. E é quase proibido sonhar. O mal dos aviões é que não se pode descer toda hora para comprar laranjas.
Nesses aviões vamos todos imóveis e empacotados como encomendas. Às vezes encomendas para a eternidade...
Cruzes, poeta! Deixa-te de idéias funéreas e pensa nas aeromoças, arejadas e amáveis como anjos.
E “anjos”, aplicado a elas não é exagero nenhum. Pois não nos atendem em pleno céu?
Porém, como já nos trazem tudo de bandeja, eis que essa mesma comodidade de creche em que nos sentimos tira-nos o saudável incomodo de iniciativas e improvisos.
Entre a monotonia irreparável das nuvens, nada vemos da viagem. Isto é, não viajamos, chegamos.
Pobres turistas de aeroportos, damos a volta ao mundo sem nada ver do mundo.
Mario Quintana

terça-feira

A BELEZA DOS VERSOS IMPRESSOS

FOTO LIANE NEVES

A beleza dos versos impressos em livro
- serena beleza com algo de eternidade –
Antes que venha conturbá-los a voz das declamadoras.
Ali repousam eles, misteriosos cântaros,
Nas suas frágeis prateleiras de vidro...
Ali repousam eles...imóveis e silenciosos.
Mas não mudos e iguais como esses mortos em suas tumbas.
Têm cada um, um timbre diverso de silêncio...
Só tua alma distingue seus diferentes passos,
Quando o único rumor em teu quarto
É quando voltas, de alma suspensa – mais uma página
Do livro...Mas um verso fere teu peito como a espada de
um anjo.
E ficas como se tivesses feito, sem querer, um milagre...
Oh! Que revoada, que revoada de asas!

Mario Quintana em Apontamentos de História Sobrenatural

segunda-feira

O ETERNO CRISTO


O povo adora e vive suspirando por um Messias,
Que o venha libertar de tudo no mundo,
Mas quando esse Dia Santo
Chega afinal,
Todos os seus crentes, cheios de espanto e medo,
A única coisa que conseguem fazer é apedrejá-lo!

Mario Quintana: Velório sem defunto
FOTO DANIEL DE ANDRADE SIMÕES

domingo

TERRA


Terra! Um dia comerás meus olhos...
Eles eram
No entanto
O verde único de tuas folhas
O mais puro cristal de tuas fontes...

Meus olhos eram os teus pintores!

No final quem precisa de olhos para sonhar?
A gente sonha é de olhos fechados.

Onde quer que esteja...onde for que seja...
Na mais densa treva eu sonharei contigo,
Minha terra em flor!...
Quintana em: Apontamentos de História Sobrenatural
FOTO DANIEL DE ANDRADE SIMÕES

sexta-feira

DECADÊNCIA E ESPLENDOR DA ESPÉCIE


Não sei o que terá acontecido com a espécie humana.
Esta ausência de pelos... Para os outros mamíferos a nossa nudez pode parecer repugnante como, para nós, a nudez dos vermes.
E depois, a nossa verticalidade é antinatural. Estas mãos pendentes, inúteis, são ridículas como as dos cangurus sentados.

Se fôssemos peludos e quadrúpedes, ganharíamos muito em beleza e, sem a atual tendência à adiposidade, poderíamos ser quase tão belos como os cavalos.
Felizmente, inventou-se a tempo o vestuário que, pela variedade e beleza (a par de sua utilidade em vista do fatal desabrigo em que ficamos), redime um pouco essa degenerescência.
E acontece que inventamos também o mobiliário, os utensílios: no caso vigente, esta cadeira em que escrevo sentado a esta mesa, à luz artificial desta lâmpada.
E ainda este ato de escrever, isto é, de expressar-me por meio de sinais gráficos, é mais uma prova de nossa artificialidade.
Mas quem foi que disse que eu estou amesquinhando a espécie? Quero apenas significar que, em face das suas miseráveis contingências, o homem criou, além do mundo natural, um mundo artificial, um mundo todo seu, uma segunda natureza, enfim.
O homem, esse mascarado...

Mario Quintana em: Caderno H