CADA POEMA É UM FRAGMENTO DO POEMA GERAL QUE QUINTANA VEIO COMPONDO
DURANTE TODA A SUA VIDA

quinta-feira

LIANE NEVES


Por dever de consciência tenho que fazer referência à fotografa Liane Neves. Liane Neves é a autora da maioria das fotos de Quintana que estão postadas neste Blog.Fotos que ela publicou em seu livro “A Porto Alegre de Mario Quintana”.

MONOTONIA


É preciso algo que nos preocupe
Para acabar com a monotonia.
Briga com a sogra, duvida
De tua vida, de Deus, de tudo,
Das próprias coisas que melhores julgas,
Porque, na verdade,
Não há nada mais chato na vida
Do que um cachorro sem pulgas...

NOTURNO


De noite todos os meus pensamentos são escuros
E todas as palavras têm a letra "u"
Rude
Virtude
Cruzes!
Até mesmo, Bandeira, teu "sapo-cururu da beira do rio!”
Não me digam que o melhor é acender todas as luzes!
Odeio a luz elétrica e todas as luzes artificiais.
A gente repousa na escuridão como num ventre maternal.
E o melhor enredo para isso tudo
É me atirar de súbito num açude
Seco!

quarta-feira

CONFISSÃO


Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece...
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!
Mario Quintana - Velório sem defunto, 1990

terça-feira

OPERAÇÃO ALMA

Gioconda - Da Vinci

Não há o que dizer da construção poética que Quintana faz a respeito de um sorriso recebido e que o marcou profundamente. Basta ler o poema para sentir a beleza desse sorriso.


Há os que fazem materializações...
Grande coisa! Eu faço desmaterializações.
Subjetivação de objetos.
Inclusive sorrisos,
Como aquele que tu me deste um dia com o mais
puro azul de teus olhos
E nunca mais nos vimos (Na verdade a gente nunca mais se vê...)
No entanto,
Há muito que ele faz parte de certos estados do céu,
De certos instantes de serena, inexplicável alegria,
Assim como um vôo sozinho põe um gesto de adeus na paisagem,
Como uma curva de caminho,
Anônima,
Torna-se às vezes a maior recordação de toda uma volta ao mundo!

segunda-feira

OS GRILOS


Os grilos estão muito presentes nos poemas quintanianos. Os grilos e seu incessante cricrilar.
Os grilos com suas frageis britadeiras,
ou ainda:

E os grilos?
Não estão ouvindo lá fora os grilos?
Sim os grilos...
Os grilos...os grilos...
Os grilos são os poetas mortos.

Ou ainda neste poema


Meu deus, se a gente,
Pudesse
Puxar
Por uma
Perna
Um só
Grilo,
Se desfiariam todas as estrelas!

ou ainda neste pensamento do Caderno H

Toda noite os grilos fritam não sei o quê. A madrugada chega, destampa o panelão: a coisa esfria...

Mas fiquemos com mais este magnífico poema:

OS GRILOS

Os grilos abrem frinchas no silêncio.
Os grilos trincam as vidraças negras da noite.
E o silêncio das vastas solidões noturnas
é uma rede tecida de cricrilos...Mas
impossível que haja tantos grilos no mundo,
pensa o Doutor...Sim, talvez haja um problema do labirinto,
retruco, telepático. Mas eu só acredito no que está nos meus poemas,
doutor... Meus poemas é que são os meus sentidos
e não esses, tão poucos, que se contam pelos dedos
e não passam de um único bicho estropiado de cinco patas,
com que mal pode se locomover.
Chego ao fim da consulta como chego ao fim deste soneto.
Fecha-se a porta do poema e saio para a rua:
- um pobre bicho perdido, perdido, perdido...

sábado

FIM DO MUNDO


Ponho-me às vezes a cismar como seria belo
o fim do mundo, antes de Cristo...

Nos campos verdes
Decorativas ossadas
Brancas geometrias.

Na cidade morta
Colunas. O azul, imóvel, sonha
A última asa.

A folha,
Graça infinita,
Se desprende e tomba

No tanque: leve sorriso da água.

Porém, quando este mundo cibernético for para o
diabo que o forjou
E todas as nossas bugigangas eletrônicas virarem sucata
E todas as estrelas perderem os seus nomes,
Os únicos poetas que os sobreviventes entenderão
São os que hoje ainda falam no cricrilar dos grilos,
No frêmito do primeiro amor...

Redescobridores encantados da poesia
Esses pobres homens não serão nem ao menos
arqueólogos
E nós descansaremos, finalmente , em paz!

quinta-feira

DO CADERNO H


Na redação Quintana tinha por ofício uma coluna, que ele entregava sempre na hora de fechar o jornal, nunca antes. Apesar de poeta, Mario não podia fugir às regras do jornal, com hora para entregar as provas dos textos. Como entregava tudo sempre na última hora, Mário batizou sua coluna de CADERNO H. Sempre que alguém perguntava sobre o porquê do nome ele explicava que entregava a coluna sempre “na hora agá”.
Vamos explorar alguns trechos de seu Caderno H:

Le penseur de Rodin... coitado... nunca se viu ninguém fazendo tanta
força para pensar!

Cidade grande: dias sem pássaros, noites sem estrelas

O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso

O que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido nosso passado: é este pressentimento de que ele venha a ser nosso futuro.

Qual Ioga, qual nada! A melhor ginástica respiratória que existe é a leitura, em voz alta, dos Lusíadas

E essas que enxugam as lágrimas em nossos poemas com defluxos em lenços... Oh! tenham paciência, velhinhas... A poesia não é uma coisa idiota: a poesia é uma coisa louca!

Mas por que datar um poema? Os poetas que põem datas nos seus poemas me lembram essas galinhas que carimbam os ovos...

Por vezes, quando estou escrevendo este cadernos, tenho um medo idiota de que saiam póstumos. Mas haverá coisa escrita que não seja póstuma? Tudo que sai impresso é epitáfio.

O poema essa estranha máscara mais verdadeira do que a própria face.
Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro.
[in: Caderno H, Editora Globo - Porto Alegre, 1973]

quarta-feira

ACHADOS E PERDIDOS

Quintana e Alceu Valença - Foto Daniel de Andrade Simões



Eu conduzo minha poesia como um burro-sem-rabo
Nesta minha Porto Alegre de incríveis subidas e descidas.
Suo como o Diabo
E desconfio
Que os meus melhores poemas terão caído pelo caminho...
Mas como saber quais são?!
Alguém por acaso os pegará do chão
E vai ficar pensando que o espantoso achado
Pertence a ele... unicamente a ele!