CADA POEMA É UM FRAGMENTO DO POEMA GERAL QUE QUINTANA VEIO COMPONDO
DURANTE TODA A SUA VIDA

terça-feira

OPERAÇÃO ALMA

Gioconda - Da Vinci

Não há o que dizer da construção poética que Quintana faz a respeito de um sorriso recebido e que o marcou profundamente. Basta ler o poema para sentir a beleza desse sorriso.


Há os que fazem materializações...
Grande coisa! Eu faço desmaterializações.
Subjetivação de objetos.
Inclusive sorrisos,
Como aquele que tu me deste um dia com o mais
puro azul de teus olhos
E nunca mais nos vimos (Na verdade a gente nunca mais se vê...)
No entanto,
Há muito que ele faz parte de certos estados do céu,
De certos instantes de serena, inexplicável alegria,
Assim como um vôo sozinho põe um gesto de adeus na paisagem,
Como uma curva de caminho,
Anônima,
Torna-se às vezes a maior recordação de toda uma volta ao mundo!

segunda-feira

OS GRILOS


Os grilos estão muito presentes nos poemas quintanianos. Os grilos e seu incessante cricrilar.
Os grilos com suas frageis britadeiras,
ou ainda:

E os grilos?
Não estão ouvindo lá fora os grilos?
Sim os grilos...
Os grilos...os grilos...
Os grilos são os poetas mortos.

Ou ainda neste poema


Meu deus, se a gente,
Pudesse
Puxar
Por uma
Perna
Um só
Grilo,
Se desfiariam todas as estrelas!

ou ainda neste pensamento do Caderno H

Toda noite os grilos fritam não sei o quê. A madrugada chega, destampa o panelão: a coisa esfria...

Mas fiquemos com mais este magnífico poema:

OS GRILOS

Os grilos abrem frinchas no silêncio.
Os grilos trincam as vidraças negras da noite.
E o silêncio das vastas solidões noturnas
é uma rede tecida de cricrilos...Mas
impossível que haja tantos grilos no mundo,
pensa o Doutor...Sim, talvez haja um problema do labirinto,
retruco, telepático. Mas eu só acredito no que está nos meus poemas,
doutor... Meus poemas é que são os meus sentidos
e não esses, tão poucos, que se contam pelos dedos
e não passam de um único bicho estropiado de cinco patas,
com que mal pode se locomover.
Chego ao fim da consulta como chego ao fim deste soneto.
Fecha-se a porta do poema e saio para a rua:
- um pobre bicho perdido, perdido, perdido...

sábado

FIM DO MUNDO


Ponho-me às vezes a cismar como seria belo
o fim do mundo, antes de Cristo...

Nos campos verdes
Decorativas ossadas
Brancas geometrias.

Na cidade morta
Colunas. O azul, imóvel, sonha
A última asa.

A folha,
Graça infinita,
Se desprende e tomba

No tanque: leve sorriso da água.

Porém, quando este mundo cibernético for para o
diabo que o forjou
E todas as nossas bugigangas eletrônicas virarem sucata
E todas as estrelas perderem os seus nomes,
Os únicos poetas que os sobreviventes entenderão
São os que hoje ainda falam no cricrilar dos grilos,
No frêmito do primeiro amor...

Redescobridores encantados da poesia
Esses pobres homens não serão nem ao menos
arqueólogos
E nós descansaremos, finalmente , em paz!

quinta-feira

DO CADERNO H


Na redação Quintana tinha por ofício uma coluna, que ele entregava sempre na hora de fechar o jornal, nunca antes. Apesar de poeta, Mario não podia fugir às regras do jornal, com hora para entregar as provas dos textos. Como entregava tudo sempre na última hora, Mário batizou sua coluna de CADERNO H. Sempre que alguém perguntava sobre o porquê do nome ele explicava que entregava a coluna sempre “na hora agá”.
Vamos explorar alguns trechos de seu Caderno H:

Le penseur de Rodin... coitado... nunca se viu ninguém fazendo tanta
força para pensar!

Cidade grande: dias sem pássaros, noites sem estrelas

O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso

O que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido nosso passado: é este pressentimento de que ele venha a ser nosso futuro.

Qual Ioga, qual nada! A melhor ginástica respiratória que existe é a leitura, em voz alta, dos Lusíadas

E essas que enxugam as lágrimas em nossos poemas com defluxos em lenços... Oh! tenham paciência, velhinhas... A poesia não é uma coisa idiota: a poesia é uma coisa louca!

Mas por que datar um poema? Os poetas que põem datas nos seus poemas me lembram essas galinhas que carimbam os ovos...

Por vezes, quando estou escrevendo este cadernos, tenho um medo idiota de que saiam póstumos. Mas haverá coisa escrita que não seja póstuma? Tudo que sai impresso é epitáfio.

O poema essa estranha máscara mais verdadeira do que a própria face.
Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro.
[in: Caderno H, Editora Globo - Porto Alegre, 1973]

quarta-feira

ACHADOS E PERDIDOS

Quintana e Alceu Valença - Foto Daniel de Andrade Simões



Eu conduzo minha poesia como um burro-sem-rabo
Nesta minha Porto Alegre de incríveis subidas e descidas.
Suo como o Diabo
E desconfio
Que os meus melhores poemas terão caído pelo caminho...
Mas como saber quais são?!
Alguém por acaso os pegará do chão
E vai ficar pensando que o espantoso achado
Pertence a ele... unicamente a ele!

terça-feira

CATASTROFE


O meu esporte único é a Luta corpo a corpo com o meu Anjo da
Guarda.
Lutamos tanto pelo que queremos
Que no final ficaremos redondamente mortos no chão,
Para maior alívio de Nosso Senhor,
Para sempre livre de nós dois!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]

domingo

MAIS UM POUCO DE MARIO


Nomes Feios
Início de mais uma madrugada. Mario chega à pensão em que morava, na Barros Cassal, perto da Avenida Independência, e é mal recebido pelos cachorros. Reage aos latidos com todos os palavrões disponíveis. Na calçada, os pintores Waldeny Elias e Gastão Hofstaetter, que passaram a noite bebendo com ele e vieram deixá-lo em casa, assistem à cena.
Em meio à gritaria, abre-se a janela e surge a dona da pensão:
- Mas o que é isso, seu Mario! O senhor, um homem tão culto, dizendo essas barbaridades!
Ele se defende:
- É que a senhora não sabe os nomes que os seus cachorros estão me dizendo…
XXX
Autografando um de seus livros com a tranqüilidade costumeira, diz uma coisa ou outra às crianças da fila, quando é apresentado a um ministro de Estado de passagem por Porto Alegre e que estava ali para os rapapés de praxe. Curvando o corpo para pegar o autógrafo, o político confessa, tentando ser gentil:
- Gosto muito de seus versinhos.
E Quintana, abrindo aquele seu sorriso maroto de sempre, agradece:
- Muito obrigado por sua opiniãozinha.
XXX
Mario passava as tardes enfurnado na redação. Era raro o momento em que ele não era importunado por visitantes, curiosos, políticos e até mesmo jovens poetas, que iam sempre lhe pedir conselhos. Um de seus colegas do tempo do Correio do Povo, Jayme Copstein, trabalhava a uma mesa de Mário, que sempre recebia gente puxando conversa ou pedindo coisas.Com o tempo Copstein percebeu que, sempre que a conversa ao lado acabava, o visitante saia olhando Jayme de cara feia, com o tempo começou a ficar intrigado. Um dia resolveu perguntar ao Mário por que todo mundo que ia pedir alguma coisa ao poeta parecia brabo com ele que não tinha nada a ver com a história:
- É que eu sempre digo que tu não deixas – explicou Quintana sério.

sexta-feira

UM POUCO DE MARIO 5


Mario distraia-se com as palavras como o transeunte que se perdia pelas ruas de seu longo andar e de seu repouso.A fama só aumentava o seu mito, de que um poeta deve agir como tal o tempo todo. Levava todo o tempo do mundo para traduzir Charles Morgan, Proust e Virgínia Woolf, causando a irritação dos irmãos Bertaso então editores da Livraria do Globo, que impunham datas de entrega que Quintana sempre protelava em favor de uma tradução ideal. Certa vez Mario irrompeu no escritório de Henrique Bertaso. Não gostou das mudanças nas provas de sua tradução de A Fonte, de Morgan. Onde o poeta havia escrito: “te amarei para sempre”, o revisor colocou “amar-te-ei para sempre”. E gracejou: “mas como pode seu Henrique? Já imaginou como seria o filho desse ‘amar-te-ei’, seria um monstrinho certamente...”
Quando editava a seção “Jornal dos Jornais” no extinto O Estado do Rio Grande , era obrigado a condensar o material que chegava por telegrama de outras localidades. Como todo editor precisava contar as letras para encaixar o texto. Achou o serviço tão chato que resolveu versificar as noticias. Fazia as coisas rimadas e fez um título com, no alto um alexandrino, abaixo um decassílabo e depois um setissilabo. O dono do jornal, o político Raul Pilla, indignou-se com o inusitado tratado de versificação: “Esse título está em desacordo com os editoriais! Por acaso o senhor lê o nosso jornal? Resposta do poeta: “Eu não lia mesmo. Afinal, eu trabalho aqui...”
Quintana e Henfil - FOTO DANIEL DE ANDRADE SIMÕES

Bernardo

quinta-feira

A SURPRESA DE SER


Ser, existir é surpreendente para qualquer mortal, que dirá quando esse mortal é um poeta e, mais ainda, quando esse poeta é Mario Quintana.
Nesse poema Mario descreve a partir do nascer e crescer de uma flor o encantamento da existência, da simples existência que a maioria dos mortais, não poetas passam por ela sem perceber.

A SURPRESA DE SER

A florzinha
Crescendo
Subia
Subia
Direito
Pro céu
Como na história de Joãozinho e o Pé de Feijão.
Joãozinho era eu
Na relva estendido
Atento ao mistério das formigas que trabalhavam tanto...
E as nuvens, no alto, pasmadas, olhavam...
E as torres, imóveis de espanto, entre vôos ariscos
Olhavam, olhavam...
E a água do arroio arregalava bolhas atônitas
Em torno de cada pedra que encontrava...
Porque todas as coisas que estavam dentro do balão
Azul daquela hora
Eram curiosas e ingênuas como a flor qua nascia
E cheias do tímido encantamento de se encontrarem juntas,
Olhando-se