CADA POEMA É UM FRAGMENTO DO POEMA GERAL QUE QUINTANA VEIO COMPONDO
DURANTE TODA A SUA VIDA

quarta-feira

VIDEO

Um pequeno vídeo com momentos e poemas declamados pelo próprio Mario.

terça-feira

INDIVISIVEIS


O meu primeiro amor e eu sentávamos numa pedra
Que havia num terreno baldio entre as nossas casas.
Falávamos de coisas bobas,
Isto é, que a gente achava bobas
Como qualquer troca de confidências entre crianças de cinco anos.
Crianças...
Parecia que entre um e outro nem havia ainda separação de sexos
A não ser o azul imenso dos olhos dela,
Olhos que eu não encontrava em ninguém mais,
Nem no cachorro e no gato da casa,
Que tinham apenas a mesma fidelidade sem compromisso
E a mesma animal - ou celestial - inocência,
Porque o azul dos olhos dela tornava mais azul o céu:
Não, não importava as coisas bobas que diséssemos.
Éramos um desejo de estar perto, tão perto
Que não havia ali apenas duas encantadas criaturas
Mas um único amor sentado sobre uma tosca pedra,
Enquanto a gente grande passava, caçoava, ria-se, não sabia
Que eles levariam procurando uma coisa assim por toda a sua vida...
Maria Alice Estrella, poeta, com Quintana 1989

segunda-feira

EVOLUÇÃO


Todas as noites o sono nos atira da beira de um cais

e ficamos repousando no fundo do mar.

O mar onde tudo recomeça...

Onde tudo se refaz...

Até que, um dia, nós criaremos asas.

E andaremos no ar como se anda em terra.


[in: Esconderijos do Tempo]

sábado

TENTA ESQUECER-ME


Tenta esquecer-me...
Ser lembrado é como evocar
Um fantasma...
Deixa-me ser o que sou,
O que sempre fui, um rio que vai fluindo...
Em vão, em minhas margens cantarão as horas,
Me recamarei de estrelas como um manto real,
Me bordarei de nuvens e de asas,
Às vezes virão a mim as crianças banhar-se...
Um espelho não guarda as coisas refletidas!
E o meu destino é seguir...
é seguir para o Mar,
As imagens perdendo no caminho...
Deixa-me fluir, passar, cantar...
Toda a tristeza dos rios
É não poder parar!
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sexta-feira

UMA ALEGRIA PARA SEMPRE

MARIO EM 1954

Mario dedica este poema a Elena Quintana sua sobrinha neta. No poema Mario cita o último grande poeta inglês John Keats falecido em 1820. Poucos poetas escreveram obras tão importantes em tão pouco tempo como John Keats. Morreu com 26 anos de tuberculose. Mandou escrever sobre sua lápide: Aqui descansa o homem cujo nome está escrito sobre a água.
“Uma Alegria Para Sempre” é um poema de reflexão sobre a vida.


Uma Alegria para Sempre

As coisas que não conseguem ser olvidadas
continuam acontecendo.
Sentimo-las como da primeira vez,
sentimo-las fora do tempo,
nesse mundo do sempre
onde as datas não datam.
Só no mundo do nunca existem lápides...
Que importa se - depois de tudo - tenha "ela" partido
ou que quer que te haja feito, em suma?
Tiveste uma parte da sua vida que foi só tua e, esta,
ela jamais a poderá passar de ti para ninguém.
Há bens inalienáveis, há certos momentos que,
ao contrário do que pensas,
fazem parte de tua vida presente
e não do teu passado.
E abrem-se no teu sorriso mesmo quando,
deslembrado deles,
estiveres sorrindo a outras coisas.
Ah, nem queiras saber o quanto deves à ingrata
criatura...
A thing of beauty is a joy for ever
-disse, há cento e muitos anos,
um poeta inglês que não conseguiu morrer.

Mario Quintana
John Keats

quinta-feira

O TEMPO PARA MARIO QUINTANA

Ah se eu pudesse jogar-me às águas que já passaram! - Foto Liane Neves

Nada é mais intrigante do que o tempo. "O tempo é a minha matéria", dizia Drummond.O tempo é a matéria de todos os poetas, o tempo no qual nos defazemos...ah senhor absoluto da existência. " Ah se eu pudesse jogar-me nas águas que já passaram"  diz Quintana em CANÇÃO DO FUNDO DO TEMPO, mas sabe muito bem o poeta que "ninguém quebra a lei do tempo". Ele é Deus absoluto... o único criador e destruidor de matéria e vida.

CANÇÃO DO FUNDO DO TEMPO

Longe andava meu olhar.
Longe andava...
Creio que jamais te vi...
Linda corça enrodilhada
À espera do sacrifício.
Parece que te vejo agora
Só agora!
Levemente desenhada
Nós móveis biombos do tempo
Feitos de água e de gaze...
Ah! Se eu pudesse jogar-me às águas que já passaram,
Decerto que morreria
Ou ficaria mais louco
Do que os anjos rebelados:
Ninguém quebra a lei do tempo,
Basta os cabelos de mortos
Que se enroscam em meus dedos,
Basta as vozes tão amadas
Que me chamam de tão longe...
Ah! Decerto que eu morreria,
Se é que já não morri!
Longe andava o meu olhar.
Longe andava...
Por trás dos muros do tempo,
As pessoas que eu amava
Amaram-se entre si.

ESCONDERIJOS DO TEMPO

Pela corola do gramofone
O Caruso cantava “Uma Furtiva Lagrima”
E ninguém levava a mal aquele tom fanhoso,
Talvez porque todo mundo sabia que ele
Já estava morto
Se alguém espiasse pela goela do gramofone,
Poderia ver como era o Outro Mundo
Mas ninguém olhava porque devia ser muito,
Muito longe
A ponto de estragar o som daquela maneira.
E o pobre Caruso cantava que te cantava afogado
Pelas águas do tempo
E por isso a sua voz era muito mais pungente
Não é brinquedo estar morto e continuar cantando.
Caruso, eu estou pensando essas coisas não aqui e agora
Mas naquele Café que tu sabes, lá por volta de 1923..
Também não é brinquedo continuar vivo e ficar
Falando para o que passou!

quarta-feira

CANÇÃO DOS ROMANCES PERDIDOS


Oh! Silêncio das salas de espera
Onde esses pobres guarda-chuvas lentamente escorrem...

O silêncio das salas de espera
É aquela última estrela...

Aquela última estrela
E, na parede, esses quadrados lívidos,
De onde figuram os retratos...

De onde fugiram todos os retratos...

E esta minha ternura,
Meu Deus,
Oh! Toda essa minha ternura inútil, desaproveitada!...
Mario Quintana

segunda-feira

O amor por Cecilia Meireles

O poeta Mario Quintana nutria grande admiração e respeito por Cecilia Meireles.
O poema abaixo é uma prova de sua admiração.

IN MEMORIAN

Seus poemas desenhavam seu fino hastil
Suas corolas vibrantes como pequeninas violas
(ou era a vibração incessante dos grilos?)
Seus poemas floriam na tapeçaria ondulante dos prados
Onde os colhia a mão das eternamente amadas
(as que morreram jovens são eternamente amadas...)

Seus poemas,
Dentre as páginas de um seu livro,
Apareciam sempre de surpresa,
E era como se a gente descobrisse uma folha seca
Um bilhete de outrora
Uma dor esquecida
Que tem agora o lento e evanescente odor do tempo...

E seus poemas eram, de repente, como uma prece jamais ouvida
Que nossos lábios recitavam – ó temerosa delícia!
Como se numa língua desconhecida,
Sem querer falassem
Da brevidade
E da
Eternidade da vida...

Ah, aquela a quem seguiam os versos ondulantes como dóceis panteras
E deixava por todas as coisas o misterioso reflexo do seu sorriso;
E que na concha de suas mãos, encantada e aflita recebia
A prata das estrelas perdidas...

Nem tudo estará perdido
Enquanto nossos lábios não esquecerem teu nome: CECILIA...
Mario Quintana

Sei que a reprodução da foto, de 1962, não é muito boa,mas observem: Bandeira dirige-se a algum interlocutor fora da foto, talvez fora do mundo, dormindo profundamente. Drummond faz sua habitual imitação de pedra. Vinícius, malandramente, esgueira seu braço direito por trás de Cecília. E o larguíssimo sorriso de Cecília, ensanduichada por três grandes poetas -ah, como eram grandes!-, faltou apenas a presença de um de seus maiores admiradores, o nosso Mario
Bernardo

sábado

SER E ESTAR


A nuvem, a asa, o vento,
a árvore, a pedra, o morto...

tudo o que está em movimento,
tudo o que está absorto...

aparente é esse alento
de vela rumando um porto

como aparente é o jazimento
de quem na terra achou conforto...

pois tudo o que é está imerso
neste respirar do universo

- ora mais brando ora mais forte
porém sem pausa definida –

e curto é o prazo da vida

e curto é o prazo da morte.

Mario Quintana