CADA POEMA É UM FRAGMENTO DO POEMA GERAL QUE QUINTANA VEIO COMPONDO
DURANTE TODA A SUA VIDA

sexta-feira

ESCREVO DIANTE DA JANELA ABERTA


Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!... E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!
Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons.., acerta... desacerta..
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas...
Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar? Também sou da paisagem...
Vago, solúvel no ar, fico sonhando...
E me transmuto... iriso-me, estremeço...
Nos leves dedos que me vão pintando!
De:
A Rua dos Cataventos
Mario Quintana

quarta-feira

ESTE QUARTO


Esta é talvez uma das últimas fotos de Quintana. Tão notável quanto o seu lirismo e sua ironia, era a sua personalidade desassombrada com a vida (“o tempo é uma invenção da morte: não conhece a vida, a verdadeira, em que basta um momento de poesia para nos dar a eternidade inteira”), com o mundo, suas lendas, sua vida errante de endereços provisórios e de preparativos para viagem, dos quartos anônimos que habitou, as jornadas de dor cheias de poesia que flutuava aos vapores de fumo, das xícaras de café forte (mesmo contra recomendação médica. Onde houvesse café ele parava e entrava), e sua paixão pela música de Mahler e o retrato de Cecília Meireles. Como disse o escritor Tabajara Ruas: “era assim que gostávamos de imaginá-lo: solitário, romântico, inacessível”. E essa foi a imagem que a tradição entronizou.
O alegretense Mario dizia que andava de bengala “só por charme”, desde que sofreu um acidente em 1985 (foi atropelado em frente ao Correio do Povo) com seus passos lentos chegou aos 87 anos, como um dos poetas fundamentais de nossa língua.
Seu poema ESTE QUARTO já foi publicado neste blog, mas peço licença para republicá-lo, pois se encaixa perfeitamente na foto acima.
Bernardo

Este quarto de enfermo, tão deserto
de tudo, pois nem livros eu já leio
e a própria vida eu a deixei no meio
como um romance que ficasse aberto...

que me importa este quarto, em que desperto
como se despertasse em quarto alheio?
Eu olho é o céu! imensamente perto,
o céu que me descansa como um seio.

Pois só o céu é que está perto, sim,
tão perto e tão amigo que parece
um grande olhar azul pousando em mim.

A morte deveria ser assim:
um céu que pouco a pouco anoitecesse
e a gente nem soubesse que era o fim...

O poema “Envelhecer” sintetiza em apenas quatro versos toda uma fase da vida humana. Nesse quarteto, o sujeito poético compara o passar do tempo a uma estrada de mão dupla, resumindo a juventude como uma trilha para novas descobertas e a velhice como um atalho para o isolamento e a morte. O poeta, no entanto, não demonstra qualquer tipo de desespero frente a este último “caminho”. Ao contrário, fala dele com profunda resignação.

ENVELHECER
Antes todos os caminhos iam.
Agora todos os caminhos vêm.
A casa é acolhedora, os livros poucos.
E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.

Mario Quintana

terça-feira

OS RETRATOS


Os antigos retratos de parede
não conseguem ficar longo tempo abstratos.

Às vezes os seus olhos te fixam, obstinados
porque eles nunca se desumanizam de todo.

Jamais te voltes para trás de repente.
Não, não olhes agora!

O remédio é cantares cantigas loucas e sem fim...
Sem fim e sem sentido...

Dessas que a gente inventava para enganar
a solidão dos caminhos sem lua.
Mario Quintana

(Os Retratos de Fayum é o termo moderno para um tipo de retrato realista pintado sobre madeira (carvalho, cedro ou cipreste) em múmias egípcias.Estes estavam em Berlim. Nenhuma colecção egípcia deveria passar sem estes rostos queimados de olhar fixo, os primeiros grandes retratos da história da pintura.)

segunda-feira

CURIOSIDADES SOBRE MÁRIO QUINTANA

FOTO DANIEL DE ANDRADE SIMÕES

Por ocasião da segunda visita de João Paulo II a Porto Alegre, em 1991, Mario resolveu escrever uma carta ao Papa. Quintana achava que o Pontífice tinha certa dificuldade em pronunciar o fonema “ao” (irmáos), que sempre soava como aberto. Preocupado, nosso poeta, um paladino do vernáculo, temia que a expressão “pão dos pobres” fosse pronunciada – por exemplo, sem o til, soando como “pau dos pobres”. Na verdade a mensagem era uma singela e bem humorada dica de pronúncia de português. Já debilitado pela idade avançada e com as mãos muito trêmulas para redigir, ele ditou o texto que deveria ser enviado ao Papa João Pulo II. Contudo, quem foi escolhida para enviar a carta ao Vaticano, a dramaturga Eloí Calage, acabou esquecendo o rascunho guardado dentro das páginas de um livro, reencontrado apenas onze anos depois. Por conta do cochilo de Eloí, nem o Papa recebeu a lição de português nem o poeta recebeu a benção...
Para expiar sua culpa, Calege publicou o texto em 2003, na passagem dos nove anos da morte do poeta, pensador, tradutor Mario Quintana, que reproduzo aqui:

Para sua Santidade Papa João Paulo II

"Sendo Vossa Santidade um Poliglota notável, vejo que
não consegue pronunciar o famoso “ão” da
língua portuguesa e tomo a liberdade
de esclarecê-lo sobre esta pronúncia.
Considere o “ao” como dois monossílabos
“ã” mais “o” e tente pronunciá-los cada vez mais
rapidamente. Assim obterá o nosso “ão”.
Esperando a sua benção,
Respeitosamente

Mario Quintana"

sexta-feira

O TEMPO E O VENTO


Havia uma escada que parava de repente no ar
Havia uma porta que dava para não se sabe o quê
Havia um relógio onde a morte tricotava o tempo

Mas havia um arroio correndo entre os dedos buliçosos dos pés
E pássaros pousados na pauta dos fios de telégrafo

E o vento!

O vento vinha desde o principio do mundo
Estava brincando com seus cabelos...


DE
Apontamentos de História Sobrenatural
Mario Quintana

quarta-feira

QUE BOM FICAR


Que bom ficar assim, horas inteiras,
Fumando e olhando as lentas espirais...
Enquanto, fora, cantam os beirais
A baladilha ingênua das goteiras

E vai a Névoa, a bruxa silenciosa,
Transformando a cidade, mais e mais,
Nessa Londres longínqua, misteriosa
Das poéticas novelas policiais...

Que bom, depois, sair por essas ruas,
Onde os lampiões, com sua luz febrenta,
São sóis enfermos a fingir de luas...

Sair assim (tudo esquecer talvez!)
E ir andando, pela névoa lenta,
Com a displicência de um fantasma inglês...
De
A Rua Dos Cata-Ventos
Mario Quintana

terça-feira

Embrace - Egon Schiele



Quando a luz estender a roupa nos telhados
E for todo o horizonte um frêmito de palmas
E junto ao leito fundo nossas duas almas
Chamarem nossos corpos nus, entrelaçados,

Seremos, na manhã, duas máscaras calmas
E felizes, de grandes olhos claros e rasgados...
Depois, volvendo ao sol as nossas quatro palmas,
Encheremos o céu de vôos encantados!...

E as rosas da Cidade inda serão mais rosas,
Serão todos felizes, sem saber por quê...
Até os cegos, os entrevadinhos...E

Vestidos, contra o azul, de tons vibrantes e violentos,
Nós improvisaremos danças espantosas
Sobre os telhados altos, entre o fumo e os cata-ventos!

da obra
A RUA DOS CATA-VENTOS
MARIO QUINTANA

segunda-feira

CIDADEZINHA CHEIA DE GRAÇA


Mario Quintana, o poeta-passarinho de Alegrete e de Porto Alegre.
Neste artigo, nossa análise se volta agora para a CIDADE na poesia de Mario Quintana e, em especial, para as representações da rua.

Já em seu primeiro livro a rua aparece no título: A Rua dos Cataventos e continua figurando em vários sonetos, sendo chamada na intimidade de "ruazinha": Dorme, ruazinha, Minha rua está cheia de pregões, Na minha rua..., É a mesma ruazinha sossegada. Neste livro de Quintana aparecem referências diretas à cidade, como em “Cidadezinha cheia de graça”. Também não é por acaso que o primeiro soneto de "A Rua dos Cataventos" se chama "Escrevo Diante da Janela Aberta", no qual os instrumentos e o processo de escrita se misturam aos elementos da paisagem, inclusive o escritor: "Jogos de luz dançando na folhagem!/ Do que eu ia escrever até me esqueço.../ Pra que pensar? Também sou da paisagem...". Quintana parece ter mantido sempre a janela aberta para ver a rua...o mundo.


CIDADEZINHA CHEIA DE GRAÇA

Cidadezinha cheia de graça...
Tão pequenina que até causa dó!
Com seus burricos a pastar na praça...
Sua igrejinha de uma torre só...


Nuvens que venham, nuvens e asas,
Não param nunca nem um segundo...
E fica a torre sobre as velhas casas,
Fica cismando como é vasto o mundo!...


Eu que de longe venho perdido
Sem pouso fixo (a triste sina!)
Ah, quem me dera ter lá nascido!


Lá toda a vida pode morar!
Cidadezinha...tão pequenina
Que toda cabe num só olhar...

De
A Rua dos Cataventos
Mario Quintana

domingo

UM POUCO DE MARIO 4


Quintana é o menestrel que descobriu a poesia de cada dia. Romântico, solitário, boêmio, inacessível. Vestido com apuro era facilmente encontrado de mãos para trás, do trabalho para casa e de casa para o trabalho. Foi a partir do “Aprendiz de Feiticeiro” que ele descobriu esse imaginário do pensamento livre, da expressão direta, da “conversa ao pé do ouvido”, que certos críticos de sua obra tanto atacaram – mas que jamais o impediu de surpreender e cativar milhões e milhões de admiradores, desde aquele que prestigiava o “Caderno H”, publicado no jornal Correio do Povo, até os pequenos leitores de suas obras infantis, como “Pé de Pilão”. Mas a sua característica marcante eram seus comentários anedóticos, às vezes cáusticos, da poesia colhida aqui e ali, numa praça ou num boteco, desde seus tempos de boêmio: “os relógios são as máquinas de escrever do tempo. Estão sempre fabricando mortalhas”, ou, “a bomba abriu um rombo no teto, de onde se descortinava o céu azul que sorria para os sobreviventes”, ou ainda “o amor é a vitória da imaginação: ninguém consegue ter as qualidades que o amante sente na pessoa amada”.