CADA POEMA É UM FRAGMENTO DO POEMA GERAL QUE QUINTANA VEIO COMPONDO
DURANTE TODA A SUA VIDA

quarta-feira

QUE BOM FICAR


Que bom ficar assim, horas inteiras,
Fumando e olhando as lentas espirais...
Enquanto, fora, cantam os beirais
A baladilha ingênua das goteiras

E vai a Névoa, a bruxa silenciosa,
Transformando a cidade, mais e mais,
Nessa Londres longínqua, misteriosa
Das poéticas novelas policiais...

Que bom, depois, sair por essas ruas,
Onde os lampiões, com sua luz febrenta,
São sóis enfermos a fingir de luas...

Sair assim (tudo esquecer talvez!)
E ir andando, pela névoa lenta,
Com a displicência de um fantasma inglês...
De
A Rua Dos Cata-Ventos
Mario Quintana

terça-feira

Embrace - Egon Schiele



Quando a luz estender a roupa nos telhados
E for todo o horizonte um frêmito de palmas
E junto ao leito fundo nossas duas almas
Chamarem nossos corpos nus, entrelaçados,

Seremos, na manhã, duas máscaras calmas
E felizes, de grandes olhos claros e rasgados...
Depois, volvendo ao sol as nossas quatro palmas,
Encheremos o céu de vôos encantados!...

E as rosas da Cidade inda serão mais rosas,
Serão todos felizes, sem saber por quê...
Até os cegos, os entrevadinhos...E

Vestidos, contra o azul, de tons vibrantes e violentos,
Nós improvisaremos danças espantosas
Sobre os telhados altos, entre o fumo e os cata-ventos!

da obra
A RUA DOS CATA-VENTOS
MARIO QUINTANA

segunda-feira

CIDADEZINHA CHEIA DE GRAÇA


Mario Quintana, o poeta-passarinho de Alegrete e de Porto Alegre.
Neste artigo, nossa análise se volta agora para a CIDADE na poesia de Mario Quintana e, em especial, para as representações da rua.

Já em seu primeiro livro a rua aparece no título: A Rua dos Cataventos e continua figurando em vários sonetos, sendo chamada na intimidade de "ruazinha": Dorme, ruazinha, Minha rua está cheia de pregões, Na minha rua..., É a mesma ruazinha sossegada. Neste livro de Quintana aparecem referências diretas à cidade, como em “Cidadezinha cheia de graça”. Também não é por acaso que o primeiro soneto de "A Rua dos Cataventos" se chama "Escrevo Diante da Janela Aberta", no qual os instrumentos e o processo de escrita se misturam aos elementos da paisagem, inclusive o escritor: "Jogos de luz dançando na folhagem!/ Do que eu ia escrever até me esqueço.../ Pra que pensar? Também sou da paisagem...". Quintana parece ter mantido sempre a janela aberta para ver a rua...o mundo.


CIDADEZINHA CHEIA DE GRAÇA

Cidadezinha cheia de graça...
Tão pequenina que até causa dó!
Com seus burricos a pastar na praça...
Sua igrejinha de uma torre só...


Nuvens que venham, nuvens e asas,
Não param nunca nem um segundo...
E fica a torre sobre as velhas casas,
Fica cismando como é vasto o mundo!...


Eu que de longe venho perdido
Sem pouso fixo (a triste sina!)
Ah, quem me dera ter lá nascido!


Lá toda a vida pode morar!
Cidadezinha...tão pequenina
Que toda cabe num só olhar...

De
A Rua dos Cataventos
Mario Quintana

domingo

UM POUCO DE MARIO 4


Quintana é o menestrel que descobriu a poesia de cada dia. Romântico, solitário, boêmio, inacessível. Vestido com apuro era facilmente encontrado de mãos para trás, do trabalho para casa e de casa para o trabalho. Foi a partir do “Aprendiz de Feiticeiro” que ele descobriu esse imaginário do pensamento livre, da expressão direta, da “conversa ao pé do ouvido”, que certos críticos de sua obra tanto atacaram – mas que jamais o impediu de surpreender e cativar milhões e milhões de admiradores, desde aquele que prestigiava o “Caderno H”, publicado no jornal Correio do Povo, até os pequenos leitores de suas obras infantis, como “Pé de Pilão”. Mas a sua característica marcante eram seus comentários anedóticos, às vezes cáusticos, da poesia colhida aqui e ali, numa praça ou num boteco, desde seus tempos de boêmio: “os relógios são as máquinas de escrever do tempo. Estão sempre fabricando mortalhas”, ou, “a bomba abriu um rombo no teto, de onde se descortinava o céu azul que sorria para os sobreviventes”, ou ainda “o amor é a vitória da imaginação: ninguém consegue ter as qualidades que o amante sente na pessoa amada”.

sexta-feira

O TAMANHO DO ESPAÇO


[O espaço e o tempo são formas de pensamento, não condições sob as quais vivamos]
Albert Einstein

O TAMANHO DO ESPAÇO
A medida do espaço somos nós, homens,
Baterias de cozinha e jazz-band,
Estrelas, pássaros, satélites perdidos,
Aquele cabide no recinto do meu quarto,
Com toda a minha preguiça dependurada nele...
O espaço, que seria dele sem nós?
Mas o que enche, mesmo, toda a sua infinitude
É o poema!
- por mais leve, mais breve, por mínimo que seja...

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]
Foto Eneida Serrano

quinta-feira

O VENTO E EU


O vento morria de tédio
Porque apenas gostava de cantar
Mas não tinha letra alguma para a sua própria voz,
Cada vez mais vazia...
Tentei então compor-lhe uma canção
Tão comprida como a minha vida
E com aventuras espantosas que eu inventava de súbito,
Como aquela em que menino eu fui roubado pelos ciganos
E fiquei vagando sem pátria, sem família, sem nada neste vasto mundo...
Mas o vento, por isso
Me julga agora como ele...
E me dedica um amor solidário, profundo!


[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]

quarta-feira

QUINTANA NA COMPANHIA DE AMIGOS


Foto tirada em 1966 na comemoração dos 60 anos de Mario Quintana.Todos grandes poetas brasileiros. DRUMOND, VINICIUS, MANOEL BANDEIRA, QUINTANA e PAULO MENDES CAMPOS. É uma foto histórica sem dúvida.
Sobre Paulo Mendes Campos, estou publicando um texto fantástico dele em meu Blog "Momentos de Reflexão"
BERNARDO

É A MESMA RUAZINHA SOSSEGADA


È a mesma ruazinha sossegada,
Com as velhas rondas e as canções de outrora...
E os meus lindos pregões da madrugada
Passam cantando ruazinha em fora!

Mas parece que a luz está cansada...
E, não sei como, tudo tem, agora,
Essa tonalidade amarelada
Dos cartazes que o tempo descolora...

Sim, desses cartazes ante os quais
Nós às vezes paramos, indecisos...
Mas para que?... Se não adiantam mais!...

Pobres cartazes por aí afora
Que nada anunciam: - ALEGRIA – RISOS
Depois do Circo já ter ido embora...

terça-feira

Se eu fosse um padre

FOTO DANIEL DE ANDRADE SIMÕES

SE eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no pecado
- muito menos no anjo rebelado
e os encantos de suas seduções,
não citaria santos e profetas
nada de suas celestiais promessas
ou de suas terriveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas


Rezaria os seus versos os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!


Porque a poesia purifica a alma
- e um belo poema - ainda que de Deus se aparte -
um belo poema leva a Deus!


MARIO QUINTANA