CADA POEMA É UM FRAGMENTO DO POEMA GERAL QUE QUINTANA VEIO COMPONDO
DURANTE TODA A SUA VIDA

sexta-feira

O TAMANHO DO ESPAÇO


[O espaço e o tempo são formas de pensamento, não condições sob as quais vivamos]
Albert Einstein

O TAMANHO DO ESPAÇO
A medida do espaço somos nós, homens,
Baterias de cozinha e jazz-band,
Estrelas, pássaros, satélites perdidos,
Aquele cabide no recinto do meu quarto,
Com toda a minha preguiça dependurada nele...
O espaço, que seria dele sem nós?
Mas o que enche, mesmo, toda a sua infinitude
É o poema!
- por mais leve, mais breve, por mínimo que seja...

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]
Foto Eneida Serrano

quinta-feira

O VENTO E EU


O vento morria de tédio
Porque apenas gostava de cantar
Mas não tinha letra alguma para a sua própria voz,
Cada vez mais vazia...
Tentei então compor-lhe uma canção
Tão comprida como a minha vida
E com aventuras espantosas que eu inventava de súbito,
Como aquela em que menino eu fui roubado pelos ciganos
E fiquei vagando sem pátria, sem família, sem nada neste vasto mundo...
Mas o vento, por isso
Me julga agora como ele...
E me dedica um amor solidário, profundo!


[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]

quarta-feira

QUINTANA NA COMPANHIA DE AMIGOS


Foto tirada em 1966 na comemoração dos 60 anos de Mario Quintana.Todos grandes poetas brasileiros. DRUMOND, VINICIUS, MANOEL BANDEIRA, QUINTANA e PAULO MENDES CAMPOS. É uma foto histórica sem dúvida.
Sobre Paulo Mendes Campos, estou publicando um texto fantástico dele em meu Blog "Momentos de Reflexão"
BERNARDO

É A MESMA RUAZINHA SOSSEGADA


È a mesma ruazinha sossegada,
Com as velhas rondas e as canções de outrora...
E os meus lindos pregões da madrugada
Passam cantando ruazinha em fora!

Mas parece que a luz está cansada...
E, não sei como, tudo tem, agora,
Essa tonalidade amarelada
Dos cartazes que o tempo descolora...

Sim, desses cartazes ante os quais
Nós às vezes paramos, indecisos...
Mas para que?... Se não adiantam mais!...

Pobres cartazes por aí afora
Que nada anunciam: - ALEGRIA – RISOS
Depois do Circo já ter ido embora...

terça-feira

Se eu fosse um padre

FOTO DANIEL DE ANDRADE SIMÕES

SE eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no pecado
- muito menos no anjo rebelado
e os encantos de suas seduções,
não citaria santos e profetas
nada de suas celestiais promessas
ou de suas terriveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas


Rezaria os seus versos os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!


Porque a poesia purifica a alma
- e um belo poema - ainda que de Deus se aparte -
um belo poema leva a Deus!


MARIO QUINTANA

sábado

A NOITE GRANDE


Sem o coaxar dos sapos ou o cricri dos grilos
como é que poderíamos dormir tranqüilos
a nossa eternidade? Imagina
uma noite sem o palpitar das estrelas
sem o fluir misterioso das águas.
Não digo que a gente saiba que são águas
estrelas
grilos...
- morrer é simplesmente esquecer as palavras.
E conhecermos Deus, talvez,
sem o terror da palavra DEUS!
Mario Quintana

quarta-feira

AH,SIM, A VELHA POESIA


Poesia, a minha velha amiga...
eu entrego-lhe tudo
a que os outros não dão importância nenhuma...
a saber:
o silêncio dos velhos corredores
uma esquina
uma lua
(porque há muitas, muitas luas...)
o primeiro olhar daquela primeira namorada
que ainda ilumina, ó alma,
como uma tênue luz de lamparina,
a tua câmara de horrores.
E os grilos?
Sim, os grilos...
Os grilos são os poetas mortos.

Entrego-lhe grilos aos milhões, um lápis verde, um retrato
amarelecido, um velho ovo de costura. Os teus pecados, as
reivindicações, as explicações – menos
o dar de ombros e os risos contidos
mas
todas as lágrimas que o orgulho estancou na fonte
as explosões de cólera
o ranger dos dentes
as alegrias agudas até o grito
a dança dos ossos

Pois bem
às vezes
de tudo quanto lhe entrego, a Poesia faz uma coisa que
Parece nada tem a ver com os ingredientes mas que
Tem por isso mesmo um sabor total: ETERNAMENTE
ESSE GOSTO DE NUNCA E DE SEMPRE.
Mario Quintana

sábado

POEMA DA GARE DE ASTOPOVO

Leon Tostoi - Foto Prokudin-gorsky (1908)


O poema intitulado Poema da Gare de Astapovo, conta numa síntese poeticamente bela e bastante eficiente, ainda que alterada pelo poeta para seus próprios fins, algo que aconteceu de verdade: O conde Liev Nicoláievitch Tolstói (na imagem, em uma foto tirada em 1908 por Prokudin-Gorsky, pioneiro da fotografia em cores), autor de obras máximas da literatura universal como Guerra e paz, Anna Karênina e A morte de Ivan Ilích, realmente fugiu de casa na velhice, em 1910 (só que contava 82 anos, não 80, como diz Quintana). Tentava escapar do que considerava a tirania familiar de sua esposa, que o vinha assediando há muitos anos para que ele transferisse para seu nome os direitos autorais das obras que havia escrito na última fase de sua carreira literária — e que renderiam um bom dinheiro, uma vez que nessa época Tolstói era reconhecidamente o maior escritor vivo de seu país, tido como mestre por seus pares.

O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na gare de Astapovo!
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo,


Contra uma parede nua...
Sentou-se...e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Glória,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!


E então a Morte,
Ao vê-lo tão sozinho àquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali a sua espera,
A Morte chegou na sua locomotiva


(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta...)
Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
E quem sabe se até não morreu feliz: ele fugiu...
Ele fugiu de casa...
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade...
Não são todos os que realizam os velhos sonhos da infância!

MARIO QUINTANA
NARIZ DE VIDRO-ED MODERNA-1984

quinta-feira

DEPOIS DO FIM


Brotou uma flor dentro de uma caveira,
Brotou um riso em meio a um De Profundis,
Mas o riso era infantil e irresistível,
As pétalas de flor irresistivelmente azuis...
Um cavalo pastava junto a uma coluna
Que agora apenas sustentava o céu.
A missa era campal: o vendaval dos cânticos
Curvava como um trigal a cabeça dos fiéis.
Já não se viam mais os pássaros mecânicos.
Tudo era findo sobre o velho mundo.
Diziam que uma guerra simplificara tudo.
Ficou, porém, a prece, um grito último da esperança...
Subia, às vezes, no ar, aquele riso inexplicável de criança
E sempre havia alguém reinventando o amor.

Mario Quintana
Nariz de Vidro – Ed Moderna 1984

DRUMOND E MARIO QUINTANA