CADA POEMA É UM FRAGMENTO DO POEMA GERAL QUE QUINTANA VEIO COMPONDO
DURANTE TODA A SUA VIDA

quarta-feira

AH,SIM, A VELHA POESIA


Poesia, a minha velha amiga...
eu entrego-lhe tudo
a que os outros não dão importância nenhuma...
a saber:
o silêncio dos velhos corredores
uma esquina
uma lua
(porque há muitas, muitas luas...)
o primeiro olhar daquela primeira namorada
que ainda ilumina, ó alma,
como uma tênue luz de lamparina,
a tua câmara de horrores.
E os grilos?
Sim, os grilos...
Os grilos são os poetas mortos.

Entrego-lhe grilos aos milhões, um lápis verde, um retrato
amarelecido, um velho ovo de costura. Os teus pecados, as
reivindicações, as explicações – menos
o dar de ombros e os risos contidos
mas
todas as lágrimas que o orgulho estancou na fonte
as explosões de cólera
o ranger dos dentes
as alegrias agudas até o grito
a dança dos ossos

Pois bem
às vezes
de tudo quanto lhe entrego, a Poesia faz uma coisa que
Parece nada tem a ver com os ingredientes mas que
Tem por isso mesmo um sabor total: ETERNAMENTE
ESSE GOSTO DE NUNCA E DE SEMPRE.
Mario Quintana

sábado

POEMA DA GARE DE ASTOPOVO

Leon Tostoi - Foto Prokudin-gorsky (1908)


O poema intitulado Poema da Gare de Astapovo, conta numa síntese poeticamente bela e bastante eficiente, ainda que alterada pelo poeta para seus próprios fins, algo que aconteceu de verdade: O conde Liev Nicoláievitch Tolstói (na imagem, em uma foto tirada em 1908 por Prokudin-Gorsky, pioneiro da fotografia em cores), autor de obras máximas da literatura universal como Guerra e paz, Anna Karênina e A morte de Ivan Ilích, realmente fugiu de casa na velhice, em 1910 (só que contava 82 anos, não 80, como diz Quintana). Tentava escapar do que considerava a tirania familiar de sua esposa, que o vinha assediando há muitos anos para que ele transferisse para seu nome os direitos autorais das obras que havia escrito na última fase de sua carreira literária — e que renderiam um bom dinheiro, uma vez que nessa época Tolstói era reconhecidamente o maior escritor vivo de seu país, tido como mestre por seus pares.

O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na gare de Astapovo!
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo,


Contra uma parede nua...
Sentou-se...e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Glória,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!


E então a Morte,
Ao vê-lo tão sozinho àquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali a sua espera,
A Morte chegou na sua locomotiva


(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta...)
Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
E quem sabe se até não morreu feliz: ele fugiu...
Ele fugiu de casa...
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade...
Não são todos os que realizam os velhos sonhos da infância!

MARIO QUINTANA
NARIZ DE VIDRO-ED MODERNA-1984

quinta-feira

DEPOIS DO FIM


Brotou uma flor dentro de uma caveira,
Brotou um riso em meio a um De Profundis,
Mas o riso era infantil e irresistível,
As pétalas de flor irresistivelmente azuis...
Um cavalo pastava junto a uma coluna
Que agora apenas sustentava o céu.
A missa era campal: o vendaval dos cânticos
Curvava como um trigal a cabeça dos fiéis.
Já não se viam mais os pássaros mecânicos.
Tudo era findo sobre o velho mundo.
Diziam que uma guerra simplificara tudo.
Ficou, porém, a prece, um grito último da esperança...
Subia, às vezes, no ar, aquele riso inexplicável de criança
E sempre havia alguém reinventando o amor.

Mario Quintana
Nariz de Vidro – Ed Moderna 1984

DRUMOND E MARIO QUINTANA

terça-feira

O TAMANHO DA GENTE


O homem põem Deus dispoem
EVITA GRUNDLER


O TAMANHO DA GENTE

O homem acha o Cosmos infinitamente grande
E o micróbio infinitamente pequeno.
E ele, naturalmente,
Julga-se do tamanho natural...
Mas, para Deus, é diferente:
Cada ser, para Ele, é um universo próprio.
E, a Seus olhos, o bacilo de Koch,
A estrela Sírius e o Prefeito de Três Vassouras
São todos infinitamente do mesmo tamanho...


[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]

Praça de Alegrete

domingo

Mario Quintana faleceu em Porto Alegre no dia 5 de maio de 1994 próximo de seus 87 anos


Em 1994 Quintana é internado no Hospital Moinho de Ventos em Porto Alegre com infecção intestinal e insuficiência respiratória, vindo a falecer no dia 5 de maio desse ano.
Foto Arquivo Jornal Zero Hora


"Quando eu morrer e no frescor da lua/ Deixai-me em paz na minha quieta rua...".

(...) Sua morte aconteceu quatro dias depois da tragédia de Ayrton Senna, em 5 de maio de 1994, e comoveu tremendamente o Rio Grande do Sul. O ficcionista Sergio Faraco, amigo fiel de três décadas, guarda a despedida com a nitidez de ontem. "A morte dele, para mim, foi muito dolorosa, não só pela perda de um amigo e de um grande poeta que, embora idoso, ainda escreveria seus belos e sentidos poemas, mas pelas circunstâncias em que se deu. Estávamos ao lado dele na UTI do Hospital Moinhos de Vento, Elena e eu, segurando-lhe as mãos. Mario já não falava, já não ouvia, a agonia se prolongava e então desci para fumar um cigarro no pátio do hospital, com o propósito de retornar logo e acompanhá-lo até o fim. Naqueles escassos minutos que permaneci no térreo, ele morreu. Nunca me perdoei por essa absurda deserção justamente no instante em que ele deixou de respirar e partiu para o céu dos poetas. Quintana talvez quisesse falecer como cantou: "sozinho como um bicho". (...)

(Fabrício Carpinejar - Revista Entrelivros, edição nº12, abril/2006).

Escreveu Quintana:
"Amigos, não consultem os relógios quando um dia me for de vossas vidas... Porque o tempo é uma invenção da morte: não o conhece a vida - a verdadeira - em que basta um momento de poesia para nos dar a eternidade inteira".
E ainda:“Quando morremos, acontece com as nossas esperanças o mesmo que com esse brinquedo de estátuas, em que todos se imobilizam de súbito, cada qual na posição do momento. Mas as esperanças têm menos paciência. E vão imediatamente continuar, no coração dos outros, o seu velho sonho interrompido”.
E, brincando com a morte:"A morte é a libertação total: a morte é quando a gente pode, afinal, estar deitado de sapatos".


“Morte: nada de maior; simples passagem de um estado para outro – assim como quem se muda do estado do Rio Grande do Sul para Santa Catarina”.

Ou ainda:"A morte deveria ser assim: um céu que pouco a pouco anoitecesse e a gente nem soubesse que era o fim..."

Da Morte
Um dia... pronto! me acabo.
Pois seja o que tem de ser.
Morrer que me importa?... O diabo
É deixar de viver!


Discreto quanto à sua vida pessoal, Mario Quintana teve duas grande paixões platônicas assumidas em versos: Cecília Meireles e Bruna Lombardi. "A amizade é um amor que nunca morre", disse Quintana. Ele e Bruna, roteirista de filmes e poeta, se conheceram nos anos 80, durante uma Feira do Livro em Porto Alegre e se tornaram muito amigos. Ela foi diversas vezes apontada como a musa do poeta. Bruna, na sua última vinda ao R.G.Sul, declarou: "A nossa amizade foi baseada nisso: uma pequena e mútua companhia". Quando perguntada sobre quais lembranças tinha de Mario Quintana, Bruna respondeu: " Passeando com ele pelas ruas de Porto Alegre, tomando café, olhando as pessoas e imaginando o que elas pensavam ou o que faziam."
Abaixo, o último poema escrito por Bruna Lombardi para Mario Quintana.

Onde quer que você
esteja
veja que agora
em algum lugar alguém
chora
porque você foi
embora.
Eu sei que você
continua
por aí nesse universo
achando rima pra verso
com humor e
melancolia
Perplexo feito criança
diante de cada mistério
sua sutil sabedoria
nota coisas tão
pequenas
que outro não notaria
E aqueles que ficaram
por aqui, nessa
passagem,
sentem no céu esse
anjo
que você sempre escondia
e desejam boa viagem.


(trecho extraido do site http:assisbrasil.org)

quarta-feira

O NOME E AS COISAS

Quem sente o coração da Terra, quem sabe ouvir a Voz da Alma do Mundo, é também capaz de compreender a linguagem das plantas, da chuva, dos animais, das flores... dos ventos!!! Ah! Os Ventos!

O NOME E AS COISAS
Para que estragar a simples existência das coisas com nomes
arbitrários?
Um gato não sabe que se chama gato
E Deus não sabe que se chama Deus
("Eu sou quem sou" - diz Ele no livro do Gênesis)
Eu sonho
Ë com uma linguagem composta unicamente de adjetivos
Como deve ser a linguagem das plantas e dos animais!
Só de adjetivos, sem explicação alguma,
Mas com muito mais poesia...
Mario Quintana

segunda-feira

Prezados amigos, neste Blog eu já publiquei 66 poemas de Mario Quintana.
Sinto agora a necessidade de aprofundar o nosso estudo sobre o poeta e sua obra.
Para isso transcrevo abaixo parte resumida do estudo da Prof Vera Lucia Cardoso Medeiros, doutora em literatura brasileira, estudo esse focado na obra de Quintana “O Espelho Mágico”.

O ESPELHO MÁGICO


ESPELHO MÁGICO, de 1951 é o quinto livro publicado por Mario Quintana. Nesse início de década, a poesia brasileira assiste importantes transformações. A chamada “Geração de 45” por exemplo, publica uma coletânia que busca alternativas ao chamado projeto modernista.
É em tal cenário de mudanças que Mario Quintana lança o Espelho Mágico.Mas seu livro não se filia às novidades trazidas pelos poetas do final da década de 40. Em lugar disso Quintana recorre a quadra, forma de poesia conhecida desde a Idade Média. A quadra ou quarteto é forma freqüente em composições populares e mesmo folclóricas, também de largo emprego entre os poetas cultos entre os quais encontra-se o português Fernando Pessoa. Inserindo-se portanto na tradição de poetas cultos que retomam formas poéticas tradicionais ou populares Mario Quintana cria 111 quadras em que aborda temas variados, todos relativos a saberes, conhecimentos e experiências comuns a toda a humanidade.
Nas quadras de O ESPELHO MAGICO, o resgate da capacidade comunicativa não é apenas tema dos versos. Ele é experimentado e demonstrado, uma vez que o Eu lírico dirige-se constantemente ao Outro de maneira mais ou menos explícita.
Das 111 quadras da obra, em um pouco mais de 30 não se percebe essa interlocução. Nas demais ora o eu lírico fala a um tu indefinido ora personifica o destinatário de sua mensagem ou finalmente emprega o pronome nós, colocando-se ao lado de seu interlocutor.
Dirigindo-se a um outro indefinidos, “Da Observação” primeiro poema do livro, apresenta uma recomendação:

Não te irrites, por mais que te fizerem...
Estuda a frio o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio...

Entre as quadras que definem o interlocutor com o qual se dá a comunicação, estão “Da Inquieta Esperança” e “Da Pobre Alma” a seguir transcritas:

Bem sabes tu, senhor, que o bem melhor é aquele
Que não passa talvez de um desejo ilusório.
Nunca me dês o céu...quero é sonhar com ele
Na inquietação feliz do Purgatório...

Como é que hás de poder, ó Alma, devassar
Essas da pura essência invisíveis paragens?
Tu que enfim não és mais do que um ansioso olhar!
Oh pobre Alma adoradora de Imagens...

No caso dos poemas em que o eu lírico está junto com o interlocutor, pode-se citar “Dos Hóspedes”:

Esta vida é uma estranha hospedaria,
De onde se parte quase sempre às tontas,
Pois nunca as nossas malas estão prontas,
E a nossa conta nunca está em dia...

Em que consiste o diálogo travado, sob diferentes modalidades, nas quadras de “Espelho Mágico”? A variedade de temas e assuntos é grande, estilos, linguagem, arte, bem, mal, beleza, solidão, amor, sofrimentos, morte, vida, conhecimentos, desejos. Contudo, identifica-se por trás de tamanha diversidade, uma intensão de ensinar, comunicar, intercambiar experiências, conforme demonstra o poema “Da Sabedoria Dos Livros”:

Não pense compreender a vida nos autores,
Nenhum disto é capaz.
Mas a medida que vivendo fores,
Melhor os compreenderas...

O quarteto acima condiciona a condição de saber à aquisição de experiências reais. Em “Os Dois Livros” o eu lírico também ensina que o conhecimento teórico é inútil se não estiver acompanhado de vivências e aprendizados concretos:

Não percas nunca, pelo vão saber,
A fonte viva da sabedoria.
Por mais que estudes, que te adiantaria
Se o teu amigo tu não sabes ler?

quinta-feira

ESTE E O OUTRO LADO

Tenho uma grande curiosidade do Outro Lado.
(Que haverá do Outro Lado, meu Deus?)
Mas também não tenho muita pressa...
Porque neste nosso mundo há belas panteras, nuvens, mulheres belas,
Árvores de um verde assustadoramente ecológico!
E lá - onde tudo recomeça -
Talvez não chova nunca,
Para a gente poder ficar em casa
Com saudades daqui...
Mario Quintana

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