CADA POEMA É UM FRAGMENTO DO POEMA GERAL QUE QUINTANA VEIO COMPONDO
DURANTE TODA A SUA VIDA

segunda-feira

Prezados amigos, neste Blog eu já publiquei 66 poemas de Mario Quintana.
Sinto agora a necessidade de aprofundar o nosso estudo sobre o poeta e sua obra.
Para isso transcrevo abaixo parte resumida do estudo da Prof Vera Lucia Cardoso Medeiros, doutora em literatura brasileira, estudo esse focado na obra de Quintana “O Espelho Mágico”.

O ESPELHO MÁGICO


ESPELHO MÁGICO, de 1951 é o quinto livro publicado por Mario Quintana. Nesse início de década, a poesia brasileira assiste importantes transformações. A chamada “Geração de 45” por exemplo, publica uma coletânia que busca alternativas ao chamado projeto modernista.
É em tal cenário de mudanças que Mario Quintana lança o Espelho Mágico.Mas seu livro não se filia às novidades trazidas pelos poetas do final da década de 40. Em lugar disso Quintana recorre a quadra, forma de poesia conhecida desde a Idade Média. A quadra ou quarteto é forma freqüente em composições populares e mesmo folclóricas, também de largo emprego entre os poetas cultos entre os quais encontra-se o português Fernando Pessoa. Inserindo-se portanto na tradição de poetas cultos que retomam formas poéticas tradicionais ou populares Mario Quintana cria 111 quadras em que aborda temas variados, todos relativos a saberes, conhecimentos e experiências comuns a toda a humanidade.
Nas quadras de O ESPELHO MAGICO, o resgate da capacidade comunicativa não é apenas tema dos versos. Ele é experimentado e demonstrado, uma vez que o Eu lírico dirige-se constantemente ao Outro de maneira mais ou menos explícita.
Das 111 quadras da obra, em um pouco mais de 30 não se percebe essa interlocução. Nas demais ora o eu lírico fala a um tu indefinido ora personifica o destinatário de sua mensagem ou finalmente emprega o pronome nós, colocando-se ao lado de seu interlocutor.
Dirigindo-se a um outro indefinidos, “Da Observação” primeiro poema do livro, apresenta uma recomendação:

Não te irrites, por mais que te fizerem...
Estuda a frio o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio...

Entre as quadras que definem o interlocutor com o qual se dá a comunicação, estão “Da Inquieta Esperança” e “Da Pobre Alma” a seguir transcritas:

Bem sabes tu, senhor, que o bem melhor é aquele
Que não passa talvez de um desejo ilusório.
Nunca me dês o céu...quero é sonhar com ele
Na inquietação feliz do Purgatório...

Como é que hás de poder, ó Alma, devassar
Essas da pura essência invisíveis paragens?
Tu que enfim não és mais do que um ansioso olhar!
Oh pobre Alma adoradora de Imagens...

No caso dos poemas em que o eu lírico está junto com o interlocutor, pode-se citar “Dos Hóspedes”:

Esta vida é uma estranha hospedaria,
De onde se parte quase sempre às tontas,
Pois nunca as nossas malas estão prontas,
E a nossa conta nunca está em dia...

Em que consiste o diálogo travado, sob diferentes modalidades, nas quadras de “Espelho Mágico”? A variedade de temas e assuntos é grande, estilos, linguagem, arte, bem, mal, beleza, solidão, amor, sofrimentos, morte, vida, conhecimentos, desejos. Contudo, identifica-se por trás de tamanha diversidade, uma intensão de ensinar, comunicar, intercambiar experiências, conforme demonstra o poema “Da Sabedoria Dos Livros”:

Não pense compreender a vida nos autores,
Nenhum disto é capaz.
Mas a medida que vivendo fores,
Melhor os compreenderas...

O quarteto acima condiciona a condição de saber à aquisição de experiências reais. Em “Os Dois Livros” o eu lírico também ensina que o conhecimento teórico é inútil se não estiver acompanhado de vivências e aprendizados concretos:

Não percas nunca, pelo vão saber,
A fonte viva da sabedoria.
Por mais que estudes, que te adiantaria
Se o teu amigo tu não sabes ler?

quinta-feira

ESTE E O OUTRO LADO

Tenho uma grande curiosidade do Outro Lado.
(Que haverá do Outro Lado, meu Deus?)
Mas também não tenho muita pressa...
Porque neste nosso mundo há belas panteras, nuvens, mulheres belas,
Árvores de um verde assustadoramente ecológico!
E lá - onde tudo recomeça -
Talvez não chova nunca,
Para a gente poder ficar em casa
Com saudades daqui...
Mario Quintana

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segunda-feira

NOS SALÕES DO SONHO


Mas vocês não repararam, não?!
Nos salões do sonho nunca há espelhos...
Por quê?
Será porque somos tão nós mesmos
Que dispensamos o vão testemunho dos reflexos?
Ou, então
- e aqui começa um arrepio -
Seremos acaso tão outros?
Tão outros mesmos que não suportaríamos a visão daquilo,
Daquela coisa que nos estivesse olhando fixamente do outro lado,
Se espelhos houvesse!
Ninguém pode saber... Só o diria
Mas nada diz,
Por motivos que só ele conhece,
O misterioso Cenarista dos Sonhos!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]

quinta-feira

A AMIZADE E O AMOR

Poema


Oh ! aquele menininho que dizia
"Fessora, eu posso ir lá fora?"
mas apenas ficava um momento
bebendo o vento azul ...
Agora não preciso pedir licença
a ninguém.
Mesmo porque não existe paisagem
lá fora: somente cimento.
O vento não mais me fareja a face
como um cão amigo ...
Mais o azul irreversivel persiste em meus olhos.

segunda-feira

CARTA


Eu queria trazer-te uma imagem qualquer
para os teus anos…
Oh! Mas apenas este vazio doloroso
de uma sala de espera onde não está ninguém…
E' que,
longe de ti, de tuas mãos milagrosas
de onde os meus versos voavam - pássaros de luz
a que deste vida com o teu calor -
é que longe de ti eu me sinto perdido
- sabes? -
desertamente perdido de mim !
Em vão procuro…
mas só vejo de bom, mas só vejo de puro
este céu que eu avisto da minha janela.
E assim, querida,
eu te mando este céu, todo este céu de PortoAlegre
e aquela
nuvenzinha
que está sonhando, agora, em pleno azul !

A Cor do Invisível, Editora Globo, São Paulo, 1989

quinta-feira

O ADOLESCENTE


A vida é tão bela que chega a dar medo.


Não o medo que paralisa e gela,
estátua súbita,
mas


esse medo fascinante e fremente de curiosidade que faz
o jovem felino seguir para a frente farejando o vento
ao sair, a primeira vez, da gruta.


Medo que ofusca: luz!


Cumplicemente,
as folhas contam-te um segredo
velho como o mundo:


Adolescente, olha! A vida é nova...
A vida é nova e anda nua
- vestida apenas com o teu desejo!

Mario Quintana
Apontamentos de História Sobrenatural, Porto Alegre, Editora do Globo, 1976

terça-feira

O Estranho Caso De Mister Wong


Além do controlado Dr. Jekyll
e do desrecalcado Mister Hyde,
há também um chinês dentro de nós:
Mister Wong.
Nem bom, nem mau: gratuito.

Entremos, por exemplo, neste teatro.
Tomemos este camarote.
Pois bem, enquanto o Dr. Jekyll,
muito compenetrado, é todo ouvidos,
e Mister Hyde arrisca um olho e a alma no
decote da senhora vizinha,
o nosso Mister Wong, descansadamente,
põe-se a contar carecas na platéia…

Outros exemplos?
Procure-os o senhor em si mesmo, agora mesmo.
Não perca tempo. Cultive o seu Mister Wong!

Sapato Florido, Editora do Globo, Porto Alegre, 1948