CADA POEMA É UM FRAGMENTO DO POEMA GERAL QUE QUINTANA VEIO COMPONDO
DURANTE TODA A SUA VIDA

terça-feira

O Estranho Caso De Mister Wong


Além do controlado Dr. Jekyll
e do desrecalcado Mister Hyde,
há também um chinês dentro de nós:
Mister Wong.
Nem bom, nem mau: gratuito.

Entremos, por exemplo, neste teatro.
Tomemos este camarote.
Pois bem, enquanto o Dr. Jekyll,
muito compenetrado, é todo ouvidos,
e Mister Hyde arrisca um olho e a alma no
decote da senhora vizinha,
o nosso Mister Wong, descansadamente,
põe-se a contar carecas na platéia…

Outros exemplos?
Procure-os o senhor em si mesmo, agora mesmo.
Não perca tempo. Cultive o seu Mister Wong!

Sapato Florido, Editora do Globo, Porto Alegre, 1948

segunda-feira

No Silêncio Terrível


No silêncio terrível do Cosmos
Há de ficar uma última lâmpada acesa.
Mas tão baça
Tão pobre
Que eu procurarei, às cegas, por entre os papéis revoltos,
Pelo fundo dos armários,
Pelo assoalho, onde estarão fugindo imundas ratazanas,
O pequeno crucifixo de prata
- O pequenino, o milagroso crucifixo de prata que tu me deste um dia
Preso a uma fita preta.
E por ele os meus lábios convulsos chorarão
Viciosos do divino contato da prata fria…
Da prata clara, silenciosa, divinamente fria - morta!
E então a derradeira luz se apagará de todo…

O Aprendiz de Feticeiro, Editora Nova Fronteira, Porto Alegre, 1950.

sexta-feira

CANÇÃO DO AMOR IMPREVISTO


Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E minha poesia é um vicio triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.
Mas tu apareceste com tua boca fresca de madrugada,
Com teu passo leve,
Com esses teus cabelos...
E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender
nada, numa alegria atônita...
A súbita alegria de um espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos!

Mario Quintana

quinta-feira

MUNDOS

Um elevador lento e de ferragens Belle Époque
me leva ao antepenúltimo andar do Céu,
cheio de espelhos baços e de poltronas como o hall
de qualquer um antigo Grande Hotel

mas deserto, deliciosamente deserto
de jornais falados e outros fantasmas da tevê,
pois só se vê, ali, o que ali se vê
e só se escuta mesmo o que está bem perto:

é um mundo nosso, de tocar com os dedos,
não este – onde a gente nunca está, ao certo,
no lugar em que está o próprio corpo

mas noutra parte, sempre do lado de lá
não, não este mundo – onde um perfil é paralelo ao outro
e onde nenhum olhar jamais se encontrará...

Mario Quintana

Apontamentos De História Sobrenatural

sábado

REFLEXÕES DE FINAL DE ANO



O ano está agonizando, melhor momento para refletirmos sobre a vida e sobre o futuro não há.Reflitamos embalados nos pensamentos quintanianos tão bem expressos na forma de poesias. E nada melhor que começarmos com ESPERANÇA, aquela que cai quando chega no décimo segundo andar (ou mes) e renasce teimosamente.
BERNARDO

ESPERANÇA


Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

Mario Quintana

terça-feira

PENSAMENTOS QUINTANARES

Uma das frases mais simples e ao mesmo tempo de uma enorme profundidade dita pelo poéta:

"Os livros não mudam o mundo. Quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas"

Nesta cabe uma aula de ecologia e uma aula de história somadas a uma aula de literatura:

“Nesses tempos de céus de cinzas e chumbos, nós precisamos de árvores desesperadamente verdes”

Outra:

"Sonhar é acordar para dentro"

UM POUCO DE MARIO QUINTANA 3


O poeta Mário Quintana morou quase toda a vida em hotéis e pensões. Junto à cama, guardava uma garrafa térmica com café. Na penteadeira, maços de cigarros. "Eu só acendo. Eles é que se fumam." Num canto, a escultura de mulher que ele batizou de Glória tinha caráter utilitário: ali pendurava a boina preta, o cachecol e o guarda-chuva. A foto de um menino ao lado de um vira-lata - "O da direita sou eu", explicava ao visitante - e um enorme pôster de Greta Garbo enfeitava o endereço "provisório" do poeta, que atravessava a noite ouvindo a 4ª Sinfonia de Mahler ou assistindo a filmes de vampiro na sessão Coruja da tevê. "Dizem que sou bom de cama, porque acordo sempre depois do meio-dia..."
Anjo disfarçado
Travesso, irônico, terno, era um "anjo disfarçado de homem", segundo Erico Verissimo. É de Quintana um dos antídotos mais brilhantes para a patrulha ideológica: "Eu nada entendo da questão social/eu faço parte dela, simplesmente." Escreveu no Correio do Povo quase 40 anos. Um dia, um diretor do jornal fez um elogio: "Gostei muito dos seus versinhos." Quintana respondeu de pronto: "Obrigado por sua opiniãozinha." Nunca casou. "Prefiro ser a esperança de muitas do que a desilusão de uma só." Morreu a 5 de março de 1994, aos 87 anos, de pneumonia. "Enquanto me davam a extrema unção/eu estava distraído... Ah, essa mania incorrigível de estar sempre pensando noutra coisa!"
VOCÊ SABIA?
Na cama do hospital, após quebrar o fêmur ao ser atropelado, perguntou: "Anotaram a placa?" Explicaram que o atropelador o havia socorrido e estava identificado. "Vocês não estão entendendo. Quero saber a placa para jogar no bicho!"
Publicado pela Revista "ISTO È" na série: O Brasileiro Do Século - Literatura

"O poema é uma garrafa de náufrago jogada ao mar.


Quem a encontra


Salva-se a sí mesmo..."

Mario Quintana
A Cor do Invisivel