CADA POEMA É UM FRAGMENTO DO POEMA GERAL QUE QUINTANA VEIO COMPONDO
DURANTE TODA A SUA VIDA

quarta-feira



Recordo ainda... e nada mais me importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre de lembrança,
Algum brinquedo novo em minha porta...

Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança...

Estrada afora pois segui...Mas ai,
Embora idade e senso eu aparente,
Não vos iluda o velho que aqui vai:

Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino...acreditai...
Que envelheceu, um dia, de repente!...

SOBRE POEMAS E POÉTAS

Painel - Foto de Daniel de Andrade Simões

"Os poetas não são azuis nem nada, como pensam alguns superticiosos, nem sujeitos a ataques súbitos de levitação. O de que eles mais gostam é estar em silêncio - um silêncio que subjaz a quaisquer escapes motorísticos e declamatórios. Um silêncio...Este impoluível silêncio em que escrevo e em que tu me lês."
Mario Quintana - A Vaca e o Hipogrifo


"Um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente...e não a gente a ele!"
Mario Quintana - A Vaca e o Hipogrifo

"O Profeta diz a todos: "eu vos trago a verdade", enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer a cada um: "eu te trago a minha verdade."
Mario Quintana (trecho da Carta)

TUDO TÃO VAGO

FOTO DANIEL DE ANDRADE SIMÕES

Um canto de ninar. A mãe embalando o sono da criança aquecida, protegida.
Nunca mais essa sensação retornará. Mas ela ficou presente na memória e sentimos sua falta, quanto mais distante ficamos da infância.
Ninguém mais para acalmar nosso choro, nossa angústia, aliás, choro não há mais, choro é privilegio de criança...como disse o poeta, há o abandono.
Tudo tão vago...na memória, mas para o poeta ela, a mãe, ainda canta para embalar seu sono,lá do céu com certeza.
Desse belo quadro nasceu “Tudo tão Vago”
Bernardo

TUDO TÂO VAGO


Nossa senhora
Na beira do rio
Lavando os paninhos
Do bento filhinho...
(de uma cantiga de ninar)


Tudo tão vago...Sei que havia um rio...
Um choro aflito...Alguém cantou, no entanto...
E ao monótono embalo do acalanto
O choro pouco a pouco se extinguiu...

O menino dormira...Mas o canto
Natural como as águas prosseguiu...
E ia purificando como um rio
Meu coração que enegrecera tanto...

E era a voz que eu ouvi em pequenino...
E era Maria junto à correnteza,
Lavando as roupas de Jesus Menino...

Eras tu...que ao me ver neste abandono
Daí do céu cantavas com certeza
Para embalar inda uma vez meu sono!...

Mario Quintana
(Da obra A RUA DOS CATAVENTOS)

quinta-feira

O PROFETA E O POETA


"O Profeta diz a todos: "eu vos trago a verdade", enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer a cada um: "eu te trago a minha verdade."

Mario Quintana (trecho da Carta)

quarta-feira

Canção do Dia de Sempre

Quanto o invejo. Esse seu modo de viver e encarar a vida desprendido
das preocupações e compromissos de uma sociedade que nos massacra.
Dividas, crediários, investimentos, isso não faz parte de seu vocabulário...
nem cabe em seus versos.
Viveste Mario...viveste seu tempo de poeta...”dia a dia”...”tão só de momentos”.
Quanta filosofia transmites em “Canção do Dia de Sempre”. “Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!”
Quanto mais te leio, velho amigo, mais aprendo a admirá-lo.

Canção do dia de sempre


Tão bom viver dia a dia...
A vida, assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como essas nuvens do céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência...esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...

Mario Quintana, de CANÇÕES.

Seiscentos e Sessenta e Seis


A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo...
Quando se vê, já é 6ªfeira...
Quando se vê, passaram 60 anos...
Agora, é tarde demais para ser reprovado...
E se me dessem - um dia - uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio.
seguia sempre, sempre em frente...
E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.

sexta-feira

OS ARROIOS


Os arroios são rios guris...
Vão pulando e cantando dentre as pedras.
Fazem borbulhas d'água no caminho: bonito!

Dão vau aos burricos,
às belas morenas,
curiosos das pernas das belas morenas.
E às vezes vão tão devagar
que conhecem o cheiro e a cor das flores
que se debruçam sobre eles nos matos que atravessam
e onde parece quererem sestear.
Às vezes uma asa branca roça-os, súbita emoção
como a nossa se recebêssemos o miraculoso encontrão
de um Anjo...
Mas nem nós nem os rios sabemos nada disso.
Os rios tresandam óleo e alcatrão
e refletem, em vez de estrelas,
os letreiros das firmas que transportam utilidades.
Que pena me dão os arroios,
os inocentes arroios...
Mario Quintana (Baú de Espantos)