CADA POEMA É UM FRAGMENTO DO POEMA GERAL QUE QUINTANA VEIO COMPONDO
DURANTE TODA A SUA VIDA

terça-feira

O VELHO DO ESPELHO


Por acaso, surpreendo-me no espelho: quem é esse
Que me olha e é tão mais velho do que eu?
Porém, seu rosto...é cada vez menos estranho...
Meu Deus, Meu Deus...Parece
Meu velho pai - que já morreu!
Como pude ficarmos assim?
Nosso olhar - duro - interroga:
"O que fizeste de mim?!"
Eu, Pai?! Tu é que me invadiste,
Lentamente, ruga a ruga...Que importa? Eu sou, ainda,
Aquele mesmo menino teimoso de sempre
E os teus planos enfim lá se foram por terra.
Mas sei que vi, um dia - a longa, a inútil guerra!-
Vi sorrir, nesses cansados olhos, um orgulho triste...

Mario Quintana

segunda-feira

O Habito de Fumar


" Fumar é um jeito discreto de ir queimando as ilusões perdidas. "

(Foto: Dulce Helfer)

O Hábito de Fumar


" Às vezes, durante uma crise, penso que vou morrer. Olho pra minhas mãos e digo: nunca mais verei estas mãos. " (queixando-se da falta de ar decorrente do hábito de fumar desde os 14 anos)

Ceu de Porto Alegre


" Ó céus de Porto Alegre, como farei para levar-vos para o Céu?"

Um Pouco de Mario


Na redação, tinha por ofício uma coluna, que ele entregava sempre na hora de baixar o jornal, nunca antes. Apesar de poeta, Quintana não podia fugir às contingências da lide de jornal, com hora para entregar as provas dos textos. Como entregava tudo sempre na última hora, Mário batizou sua coluna de Caderno H. Sempre que alguém perguntava sobre o porquê do nome, ele explicava que entregava a coluna sempre “na hora agá”. Passava as tardes enfurnado na redação. Era raro o momento em que ele não era importunado por visitantes, curiosos, políticos ou até mesmo jovens poetas, que iam sempre lhe pedir conselhos. Um de seus colegas do tempo do Correio do Povo, Jayme Copstein, trabalhava a uma mesa de Mário, que sempre recebia gente puxando conversa ou pedindo coisas. Com o tempo, Copstein percebeu que, sempre que a conversa ao lado acabava, o interlocutor de Quintana olhava para Jayme de cara feia, e ia embora. No começo não achou nada, mas, com o tempo, começou a ficar intrigado. Um dia, resolveu perguntar a Mário por que todo mundo que ia pedir alguma coisa ao poeta parecia brabo com ele, que não tinha nada a ver com a história:
— É que eu sempre digo que tu não deixas — explicou Quintana, sério.

A verdadeira arte de viajar


A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo.
Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali...
Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!
Mario Quintana em "A cor do invisível"
EM “Estou Sentado Sobre Minha Mala” vemos uma profunda desilusão e angústia do poeta diante do destino humano: “Se em toda a parte é sempre o Fim do Mundo/Pra que partir?”Observamos também que para ele tudo na vida dá no mesmo, a inutilidade da luta , mas essa luta, o por que dessa luta, a que os homens estão empenhados não deixa de ser uma coisa misteriosa: “Quanto tempo meus Deus, malbaratado? Em tanta inútil, misteriosa escalada!”.

ESTOU SENTADO SOBRE MINHA MALA


Estou sentado sobre a minha mala
No velho bergantim desmantelado...
Quanto tempo meu Deus, malbaratado
Em tanta inútil, misteriosa escala!

Joguei a minha bússola quebrada
Às águas fundas...E afinal sem norte,
Como o velho Simbad de alma cansada
Eu nada mais desejo, nem a morte...

Delícia de ficar deitado ao fundo
Do barco, a vos olhar, velas paradas!
Se em toda a parte é sempre o Fim do Mundo

Pra que partir? Sempre se chega, enfim...
Pra que seguir empós das alvoradas
Se por si mesmas elas vêm a mim?

(da obra A Rua Dos Cataventos)

domingo



EU ESCREVI UM POEMA TRISTE

Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!

Mario Quintana
A Cor do Invisível